A clausura e as fobias de “Bicho metropolitano”
Anchieta Mendes, autor de dois romances e um livro de contos, volta à cena literária para apresentar seu livro “Bicho metropolitano” (Penalux, 2016). O livro contém 14 narrativas, todas com um estilo bem marcado e com desfechos desconcertantes. O conto que nomeia o livro relata a história de um homem que, embora no seio da metrópole, não usufrui dela. Ele não põe os pés para fora de casa e até os namoros só são feitos ali naquele seu reduto. A leitura é um pouco angustiante, embora dela irradie um fino humor, em que a própria sociedade e suas condições para quem vive nela sejam ameaçadoras. Lendo o índice, toma-se um susto: os nomes dos contos são meio sobrenaturais e causam um tanto de estranheza. Mas isso pode levar a engano: as narrativas tratam de coisas bizarras, sim, mas com o pé fincado no chão. A primeira das histórias é “Apocalipse”, do qual vale a pena extrair um trecho: “Ergueu as vistas e viu o sol do meio dia castigar-lhe a cara e de pronto pensou que o fim estava próximo. A fina e traiçoeira lágrima brotou-lhe do canto do olho e a segura na garganta fez-lhe relembrar do sonho que há dez anos teimava em persegui-lo: de uma nuvem saíra uma pomba, que esvoaçava sobre sua cabeça em rápidos voos, mas logo se transformara em ave de rapina, Carcará [...]” Nesse excerto, pode-se fruir do estilo elegante de Anchieta Mendes, estilo que percorre toda a obra. Um conto bastante impactante é o dízimo, a história de um homem católico, desempregado, com família para sustentar, que, após fazer uma oferta na igreja, arrepende-se, cismando, afinal, para onde vai o dinheiro. “Que Deus lhe perdoasse, mas não confiava no sacripanta (coletor das ofertas, no caso). Diziam os mais velhos que o diabo também entrava na igreja, sentava ao seu lado, se passava por santo, pedia esmolas, dava esmolas, ria, chorava, usava os nomes dos filhos para se mostrar condolente consigo e com os outros. [...] Para ele, isso não funcionava, pois conhecia o diabo em todas as suas façanhas, artimanhas, e carapuças. Não podia deixar a dúvida endurecer-lhe o coração, e igualando-se a São Tomé, era ver para crer”. O rastreamento do dinheiro da oferta dá a tônica do enredo e causa expectativa no leitor. Outro que causa efeito semelhante, embora tematicamente diferente, é “Narração do morto: casa ou não casa”, conto longo que chama a curiosidade em saber se haverá ou não um casamento – o noivo está arredio. Já em “Promessa do além”, uma pesada tarefa se impõe às personagens e o resultado é uma trama psicológica que faz refletir sobre a vontade dos mortos. A angústia é a tônica desse conto tão instigante. Aliás, em “Bicho metropolitano”, a angústia parece ser condição "sine qua non".

