“Chegará o tempo em que moradores de favela precisarão tirar uma foto trabalhando para, quando mortos, seus familiares provarem que não eram do tráfico.”
Lembro de ler jornais (aos domingos na casa das minhas tias) e revistas (quando as da minha tia chegavam), e ter acesso a opiniões e matérias mais aprofundadas por essas vias. Não falo por nostalgia, mas para fazer um recorte de como evoluímos dos últimos 20 anos para cá a ponto de crônicas postadas em uma rede social virarem livros (e não são poucos).
Gosto da chamada literatura marginal não só porque ela rompe com padrões estéticos engessados, mas principalmente por conseguir ver o dia-a-dia traduzido em páginas e a realidade de quem estudou em colégio público, usou transporte público, e precisou trabalhar desde muito cedo. É, também, uma questão de identificação.
Publicado em 2016, Rio em Shamas é uma coletânea de crônicas de Anderson França, o Dinho, fruto de publicações suas no Facebook (sim, aquela rede que você acha que acabou, mas ainda está lá). Com um humor ácido e sem filtros, Dinho traz textos curtos e carregados de sua realidade e de suas experiências de vida no subúrbio do Rio de Janeiro.
Mesmo estando hoje em espectros políticos semelhantes, confesso que tenho algumas restrições com suas crônicas e opiniões. Isso faz parte, na verdade, já que são quase 10 anos desde que esse livro foi publicado. O Facebook não é mais a grande rede, a gente passou por um governo fascista e por uma tentativa de golpe de Estado. Muita coisa mudou no Brasil desde então, é normal que, mesmo acreditando em valores parecidos, alguns pensamentos não batam tanto.
Ainda assim, foi uma experiência de leitura muito interessante, tanto por me identificar com as histórias em si, quanto pelo humor ácido e irônico que muito me agrada, e que também acabo tendo em vários momentos. A rotina de quem é ou foi periférico é recheada de vida, mesmo em meio ao caos e à tragédia. Isso não é romantizar a pobreza, pelo contrário, é usar da literatura como porta-voz de gente de verdade, que está dentro dos ônibus, dos trens e trabalhando para sobreviver com dignidade contra um sistema que quer mesmo é que ele seja só mais um número.
Gostei dos textos e achei marcante conseguir enxergar o Brasil e o Rio do começo dos anos 2000 e 2010. Independente de hoje seus textos não encontrarem em mim ressonância, os que estão nesse livro encontraram e, no final, o que resta é termos experiências literárias que, de alguma forma, sejam divertidas e deixem a vida um pouco menos amarga. Transmutar a desgraça em riso é um talento raro.