Mesmo sem saber como se chora de saudade, Frederico sente falta daquilo que nunca teve e acha que jamais terá. Quando decide despir sua alma de todos os medos e inseguranças, ele descobre que a vida vai além da cerca que criamos para delimitar o nosso mundo. E, ao olhar para dentro de si, acredita ser capaz de ressurgir daquela que considera a pior de todas as mortes: a interior. Será que ainda há tempo? Ou talvez tenha sido tarde? Não sei. A gente nunca sabe.
Talvez não seja tarde -
Jey Leonardo
Edições (1)
Ver maisTalvez não seja trágico
Abri uma das estações do projeto Livro Livres em Salvador e lá estava ele. Fui atraído pelo título, comecei a ler ali mesmo e decidi ficar. Inicialmente parece uma história trivial, com uma narrativa pouco atraente que sugere aquela filosofia manjada de que "nunca é tarde..." e etc. O autor emprega pouca robustez linguística nos discursos, o que torna a leitura mais leve e agradável. Algumas vezes lhe escapa um tom romântico vagamente piegas, mas nada que incomode ou mude o contexto. Neste ponto, toda a linearidade dos acontecimentos reforçam, acrescentam e relembram a reflexão principal do título, o que é muito benéfico. Ao longo dos capítulos, o que se destaca é o efeito borboleta que nossas ações causam. E isto é muito real. Quantas coisas você pode experimentar e viver pelo simples fato de tomar atitude e ter se jogado em um novo projeto? Provavelmente exista um número que você puxe da memória. O que é improvável (e nunca saberemos) é a quantidade de coisas que deixamos de experimentar e viver pelo simples fato de não ter tido uma atitude. O livro é muito mais sobre a atitude de Fred do que sobre quem é Fred. Aliás, o livro só é possível por essa atitude. Isso também é percebido em todos os personagens. Começando, obviamente, por Fred, que teve a atitude de levantar em um dia comum, mudar o rumo de tudo e sair pra pedir emprego de porta em porta. Seu Moacir precisou ter atitude de querer mudar a dinâmica da Biblioteca. Dona Elizabeth tomou a atitude de se lançar ao mercado de trabalho, enquanto o seu marido tomava a atitude de parar de beber e ser alguém presente em casa. Valentina muda todo o seu destino pela simples atitude de ir a reinauguração da Biblioteca, após um convite claramente em tom de flerte - olha aí o "efeito borboleta". Aqui vale o comparativo de como a atitude de Fred interfere diretamente nas decisões dos que estão a sua volta. É a demonstração de que somos constantemente influenciados e influenciadores e é preciso despertar a consciência de qual papel iremos assumir. No decorrer da história, a morte de Moacir vem como o marco que revela, não apenas a dor da perda de um amigo, mas sim a transformação do personagem personificada na postura de assumir a casa e os negócios com a fluidez de quem se tornou adulto sem se dar conta. Amadurecimento este, fruto das suas próprias decisões há meses atrás. Sobre o desfecho, confesso que fiquei surpreso, angustiado e reflexivo sobre a efemeridade da vida. É fato que percalços sempre hão de acontecer em qualquer história. O que muda tudo é a quantidade de momentos que se tem antes que ele chegue, pois a gente tende a culpar o mundo simplificando tudo em uma única palavra: tragédia. Qual teria sido pior tragédia ? O acidente no táxi ou o acidente de acordar e seguir fazendo as mesmas coisas? Particularmente, prefiro o papel amassado com uma história incrível escrita do que um papel em branco intacto.
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