"De Clarice guardamos gestos. Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia, cuidados materiais.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo [...]
Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. Os papéis, os cumprimentos falavam em agora, em edições, possíveis coquetéis à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice restava um sulco rubro no ar, fascinava-nos.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice."
Decidi começar a resenha por esse lindo poema de Carlos Drummond de Andrade sobre Clarice (Visão de Clarice). Comecei por ele porque o seu fim tem muito a ver com meu sentimento por Clarice, entendi Clarice tarde demais. Que bom por isso! De fato, há um tempo certo para todas as coisas, não é mesmo?
Livro grandioso da professora e pesquisadora Nádia Battella Gotlib em que a autora reúne as principais fotografias da vida de Clarice: dos seus antepassados até os momentos depois de sua morte.
Uma foto marchando num prostesto contra a ditadura de 1964 ao lado de Milton Nascimento, outra foto jogando conversa fora numa tarde com os amigos Mafalda e Érico Veríssimo, um belo clique ao lado da sensacional Carolina Maria de Jesus a presenteando com Quarto de Despejo durante o lançamento de A Maçã no Escuro, e as belas fotografias de seu sempre presente cão Ulisses, uma fofura sem igual.
Fatos curiosos sobre Clarice abordados aqui:
a) Por conta de um incêndio em sua casa graças a um cigarro mal apagado, teve parte de seu braço e perna (direitos, se não me engano) queimados e bastante feridos. Não só o dano físico como também psicológico da situação fez com que Clarice encarasse uma depressão profunda;
b) Clarice foi demitida do Jornal do Brasil sem aviso prévio e mostrou grande insatisfação com o ocorrido. Numa carta de 1974, escreve a seu amigo Murilo Rubião que pelo menos tem a vantagem de temporariamente deixar de escrever "as malditas crônicas" que as prendiam e as tiravam a liberdade;
c) Considera "O Lobo da Estepe" de Hermann Hesse um dos grandes responsáveis pelo seu despertar literário junto com As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, seu primeiro livro lido na vida. Ela também escreve livros infantis, o primeiro a pedido de seu filho mais velho, Paulo.
Quando adulta, em sua biblioteca pessoal podiam ser achado muitos livros de Virginia Woolf;
d) Clarice se mostrava bem contrariada com quem não a considerava brasileira, pois dizia que era "russa" apenas de nascimento, já que não sabia falar palavra alguma desse idioma. Torcia pelo Botafogo, fato que descobri ontem, dia 30/11, dia que o clube conquistou o título inédito da Libertadores.
Bem organizado e com uma cronologia mais enxuta no final para quem preferir, Nádia colabora com amigos e familiares de Clarice para criar esta obra.
Clarice Lispector deixou um legado imensurável, e como ela mesma disse em Água Viva:
"Tudo passa mas o que te escrevo continua."