Durante a minha graduação na psicologia dediquei boa parte do meu tempo ao estudo da filosofia. Depois de passear por alguns gregos, iluministas e modernos encontrei Schopenhauer, por quem fiquei encantado. Posteriormente superei esse fascínio através da leitura de Nietzsche, que para mim parecia muito mais completo.
Apesar disso sempre me incomodei com algumas formulações do filósofo, embora procurasse ocultar tais discordâncias através de uma série de desculpas. Tais discordâncias estavam fundamentalmente atreladas ao pensamento político de Nietzsche.
Já no final da minha graduação esse enamoramento havia se dissipado, pois comecei progressivamente a enxergar no método de transmissão do pensamento do filósofo a falta de rigor próprio de quem enuncia conclusões generalistas sobre problemas complexos, sem no entanto se dar ao trabalho de fundamentar seus preconceitos.
Sistemática que pode ser vista em pensadores como o já citado Schopenhauer (embora em menor medida), mas que também comparece nos famosos moralistas franceses. De fato impressiona o leitor, mas impressiona por estarmos lendo "máximas". É aqui que mora o perigo.
Contudo, nesse pequeno livro chamado "Nietzsche e a crítica da modernidade" somos apresentados a outro Nietzsche, aquele que é intencionalmente ocultado por seus leitores e comentadores mais apaixonados. Aqui Losurdo encara Nietzsche pelo que é e pelo que disse, contextualizando assim historicamente a sua obra e mostrando textualmente através de citações seus inúmeros pensamentos racistas, classistas, escravagistas e misóginos. Trata-se de um potente escrito que promete e cumpre desmistificar um dos filósofos mais conhecidos da história, dissipando assim a ideia de que suas passagens mais problemáticas seriam meras metáforas.