Releituras sempre são experiências interessantes, é fato que o tempo entre leituras e mais especificamente as outras leituras realizadas entre as leituras transformam o leitor permitindo um novo primeiro contato com o texto. Minha leitura anterior de A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares não chegou a ser ruim, achei um livro curioso e intrigante, mas me lembro de que foi bem menos fluída do que agora, apesar de ser um texto de pouco mais de 100 páginas.
Em A Invenção de Morel, Casares nos entrega uma narrativa que pode ser lida de diferentes pontos de vista e que funciona em todos eles. Habilmente o autor nos lança em sua narrativa, um pretenso diário, sem nos dar muitas informações sobre quem é o narrador. Aliás em nenhum momento nos é revelado seu nome, muito menos seu delito, dado alguns comentários sobre a pena imposta podemos fazer suposições e só.
Texto de Ficção Científica, relato de um neurótico solitário perturbado, relato de um solitário sob efeito de ervas psicotrópicas e insolação; são as diferentes formas de ler o texto que é a um só tempo instigante e perturbador.
Cabe notar o paralelo entre os dois obcecados do texto, Morel e o narrador, ambos se veem obcecados e dispostos a tudo para ter Faustine. Num primeiro momento pode passar desapercebido ao leitor a dupla violência imposta a personagem e o paralelo com a violência sexual.
A descrição da paixão obsessiva e imediata do narrador por ela tanto nos dá pistas da perturbação mental e moral do narrador (o texto é ambíguo) quanto do subtexto implícito de violência contra a mulher. Se Casares tinha ou não isso em mente é no mínimo uma questão a ser pensada.
Outro ponto de interesse na narrativa são as discussões dos limites da ciência que ela tangencia (está ali implícito mas o autor não se aprofunda) e dos limites da realidade. Se a realidade pode ser copiada até aos mínimos detalhes o que é real? Se o sonho fabricado e a realidade não podem ser distinguidos, como saber qual dos dois é real ou não? Que Casares num texto tão curto tenha levantado tantas facetas no mínimo justifica essa ser uma de sua obras mais conhecidas e celebradas.
A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares portanto, é uma pequena novela que nos mostra que não é necessário muita pirotecnia e malabarismos para fazer um texto simples e ao mesmo tempo profundo e questionador. Um obra para ser lida e relida.