Este encadernado reúne as últimas seis edições do Monstro do Pântano com roteiros de seu criador, Len Wein. Para muitos pode ser interessante analisar esse momento de transição para o que viria a ser a fase mais clássica do herói nas mãos de Alan Moore. Aqui dá para ver um Len Wein mais à vontade com o personagem e estabelecendo o que ele entendia que era o seu conceito. Algo que Alan Moore viria a alterar radicalmente depois. Gosto de pensar que é um momento importante já que o personagem ainda está em construção e seu próprio núcleo de personagens ainda é bastante fluido. Wein busca inserir o personagem na cronologia DC mesmo que de forma mais periférica e até arrisca um encontro com o Batman. Se posso brincar com o subtítulo da HQ, Raízes é realmente isso para o personagem. Suas origens, suas motivações, seu desenvolvimento e seu relacionamento. Talvez incomode os leitores mais atuais por uma falta de um direcionamento maior já que não há necessariamente uma grande história ou um grande antagonista, apenas histórias fechadas. Quando Moore assume a partir da próxima edição, ele chega a "matar" o personagem para dar um reset nele e inserir sua própria visão ao personagem.
Os roteiros de Wein estão bem puxados para o terror. Se a primeira edição, as histórias pareciam mais voltadas para o gótico, nessa eu senti que o autor preferiu uma abordagem mais lovecraftiana. Tanto que ele chega a citá-lo em uma das histórias. É um estilo de histórias que vai lembrar o que Moore fez lá pelo sexto encadernado do personagem, com um horror mais cósmico e estranho. Então vamos ver monstros disformes, conceitos tenebrosos como a do homem da eternidade (que me fez pensar na famosa história do Sandman do homem que se encontra com Morpheus a cada século), ou na do robô assassino. São histórias com um pé na ficção científica, mas que acabam se assentando em um insólito apavorante. Alguns personagens formam o núcleo central de histórias como Matt Cable e Abigail Arcane, mas Wein quase não mexe nos personagens. Eles estão ali e funcionam como coadjuvantes nas histórias se metendo em apuros e servindo como motivação para que o Monstro os salve. Achei os roteiros um pouco repetitivos, principalmente porque Wein precisa descrever a natureza do Monstro a cada poucas páginas. Se no primeiro encadernado os recordatórios possuíam uma escrita até elegante, aqui me parece só repetitivo. O número 12 deixa uma história bem fechadinha que Moore até poderia ter pego a partir dali, mas ele preferiu fazer um reinício total. Wein fecha bem um ciclo.
A arte ainda está nas mãos de Bernie Wrightson, mas ele sai no número 9 para dar lugar a Nestor Redondo. Wrightson não conseguiu acompanhar os prazos apertados de uma HQ mensal, algo diferente de quando ele produzia para revistas esporádicas. Redondo tem uma arte um pouco distinta de seu antecessor, mas ambos vem da mesma escola do terror, portanto as histórias girem em uma mesma direção. Embora adore a arte do Wrightson, achei que Redondo fez um ótimo trabalho e, para esse personagem especificamente, fez um trabalho um pouco melhor. Wrightson é um artista dotado de uma ótima compreensão do preto e branco e gosta de dar profundidade às cenas. Já Redondo gosta de trabalhar em uma riqueza de detalhes em cena, aproveitando todo o quadro em seu favor. Mesmo que para isso ele precise detalhar menos luz e sombras ou deixar de lado noções de profundidade. Seus cenários possuem amplitude. Na arte de Wrightson, gostei da segunda história onde ele desenha uma criatura saída dos piores pesadelos de Lovecraft. Sério, que coisa bizarra é aquilo. Já na arte de Redondo, curti a história do Homem da Eternidade, porque ela obrigou ao artista realizar uma enorme pesquisa de cenário. Seus ambientes são bem legais e demonstram que são baseados em seus lugares de origem.
Escolhi três histórias para comentar e a primeira delas é o encontro com o Batman. Curiosamente é a primeira história desse encadernado. O roteiro segue aquele modelo antigo de heróis que não se conhecem e se estranham em um primeiro momento. Os acontecimentos acabam sempre colocando-os um contra o outro até o momento em que precisam unir forças contra um inimigo comum. Bem, Wein foge um pouco dessa dinâmica usando a aparência assustadora do Monstro para intimidar os bandidos e ao próprio Batman. Este acaba ficando em uma análise bem superficial sobre o personagem, não parando para entender quem ele é ou suas motivações. Não gostei que o Batman parece até meio tolo na história e permanece como uma atitude até bem idiota em relação ao personagem. Na história, o Monstro acaba precisando lidar com o Conclave que tem parte de suas atividades em Gotham City e um de seus líderes fazia parte da Corporação Wayne. A forma como o Monstro acaba chegando no empresário é bem maluca, com um cachorrinho que acaba levando-o até um jantar de negócios. Me parece que o roteiro foi um pouco apressado, já que parecia que Wein sabia que precisaria sair da HQ.
Poderia falar sobre O Terror do Túnel 13 que é uma ótima história de terror, mas queria falar sobre um personagem que é importante para o cânone do Monstro que é o velho Arcane. Em O Homem que não queria morrer vemos a segunda aparição do velho, agora transformada em uma criatura monstruosa. Curiosamente é a última história com arte de Bernie Wrightson e ele sai em grande estilo. O que ele faz aqui é digno dos pesadelos mais estranhos de um indivíduo. No roteiro, Alec Holland, o Monstro, está retornando para os pântanos da Louisiana quando encontra com uma estranha velha que tem uma cabana no meio da floresta. Ela conta uma história que envolve pessoas escravizadas do sul dos EUA abusados por um senhor de terras. Esse senhor tratava seus escravizados como pessoas menos do que humanas. Assim como os escravizados africanos foram tratados em outras partes do planeta durante a Idade Moderna, eles eram desumanizados e as piores violências aconteciam. A velha então alega que esse local é assombrado pelos espíritos dos escravizados buscam vingança contra aqueles que lhes fizeram mal. É então que Alec reencontra Arcane e seus não-homens. O roteiro de Wein é muito sutil ao fazer essa associação entre aqueles que trabalhavam de forma compulsória para um senhor de terras e a maneira como Arcane enxerga os seus não-homens. Wein faz uma crítica a desumanização das pessoas e como o ser humano é capaz das maiores barbaridades se tiver os poderes e as más intenções para tal. Por essa razão é que Arcane é um personagem que não pode ter redenção. Sua morte é definitiva nessa história.
Passando para as histórias com arte de Nestor Redondo, não tenho como não mencionar a história do Homem da Eternidade. Sinto que Wein queria entregar muito mais do que essa simples história aqui, mas acabou não tendo tempo para desenvolver isso. E algo me diz que a fase de Rick Veitch em Regênese tem alguma coisa a ver com essa pedra prismática. A premissa é bem simples: o Monstro encontra uma estranha pedra no pântano que, quando brilha, o leva a algum momento no passado. Aqueles que estão de posse dessa pedra acabam morrendo de forma trágica e depois ressuscitando graças à pedra e passam a ter vidas longas. Algumas das pessoas se repetem (em uma vez a pedra era posse de uma mulher loira) então deduzo que não seja a mesma pessoa. A maldição da vida eterna só pode ser quebrada se a pessoa morrer pelas mãos de um amigo. Mas, essas pessoas acabam tendo vidas longas demais e não conseguem manter um grupo de amigos. Todos que já tiveram contato com essa pedra possuíam vidas bem melancólicas e tristes. O que no começo era uma benção, mais para o final do capítulo mais parece uma maldição que ninguém deseja para si a ponto dos amaldiçoados pedirem para o Monstro matá-los. Admito que faltam muitos detalhes na história, mas ela me interessou porque tinha potencial para muito mais.
No que diz respeito aos personagens que fazem parte do núcleo de personagens do Monstro, pouco foi desenvolvido. Abigail (que é a parceira do Monstro na fase do Moore) está ali junto do Matt Cable. Ela quase não faz nada ao longo das histórias e é a única personagem feminina de todo o quadrinho. Falta personalidade a ela, algo que Wein não foi capaz de fornecer. Matt Cable deixa de ser o homem obcecado em perseguir o Monstro e lentamente vai se tornando um aliado. Wein brinca com a "identidade secreta" do Monstro, algo que ele inova fazendo com que o Monstro só não seja capaz de falar. Embora ele misteriosamente consiga no final do arco de Wein, até a metade desse encadernado parecia ser uma boa dinâmica. Fazer ele falar apenas dizendo que ele se esforçou para isso é de uma pobreza de roteiro que me é incômoda. Conveniente por demais. Daí temos o tal de Bolt, um homem que o Monstro resgata durante a história dos vermes assassinos e sua esposa acaba morrendo durante a fuga. Bolt passa a culpar o Monstro pelo ocorrido (algo que nem o Matt faz porque ele viu tudo) e decide perseguir para destruí-lo. Por quê? Bem, ele alega que precisa de alguém para enfiar a porrada. Grande motivação!!! O personagem fica em um vai e vem de motivações que me parece que Wein queria fazer algo com ele só não teve tempo.
Em qualidade esse encadernado é inferior ao primeiro embora tenha algumas histórias bem legais. Considero essa uma edição histórica para entendermos em que momento Moore pegou o personagem. O que o mago precisou fazer para alterar o conceito do personagem e transformá-lo no que ele pretendia. Vamos e convenhamos: o que Wein entendia para o Monstro é diametralmente oposto ao que Moore fez por ele. As histórias são bem simples e divertidas, embora com um roteiro meio repetitivo e previsível depois de um tempo. A arte de Wrightson é acima da média, mas as duas primeiras histórias sofrem com um traço mais apressada. Sua última história mostra toda a qualidade do artista e Nestor Redondo, que assumiu após a saída de Wrightson, consegue entregar um trabalho que não deixa nada a desejar ao seu antecessor.