Os bons poemas fogem.
Ler Alguns Poemas de Emily Dickinson na tradução de José Lira foi como abrir uma janela para o abismo e ser convidado a mergulhar. Há algo de inquietante nessa poesia que parece sussurrar verdades que mal conseguimos encarar. E Lira, com rara sensibilidade, não traduz apenas palavras: ele recria a pulsação estranha, cortada, essencial de Dickinson. A manutenção dos travessões, das maiúsculas errantes, da sintaxe quebrada tudo isso não é afetação, é fidelidade à alma da autora. Cada poema soa como uma revelação contida, quase secreta, e a tradução não suaviza nem decifra isso: apenas permite que experimentemos. A seleção é precisa. Não tenta explicar Dickinson apenas nos deixa diante dela. E ali, no silêncio entre os versos, algo em nós se move. José Lira entende que traduzir Dickinson é um risco e ele o assume com coragem e poesia. O resultado é um livro que não só respeita, mas intensifica o mistério da autora. Um encontro raro, vertiginoso e necessário.
