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    Hegemonia e estratégia socialista (Contrassensos) - Por uma política democrática radical

    Ernesto Laclau, Chantal Mouffe

    Intermeios
    2015
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9788584990085
    Português Brasileiro
    4.5
    14 avaliações
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    Esta obra seminal repensa a relação entre democracia e socialismo ao abordar o descompasso entre a "revolução democrática" de fins do séc. XVIII e o imaginário político jacobino que aí surge e que predominaria no marxismo no séc. XX. Como alternativa ao monismo jacobino, a categoria "hegemonia" é reativada e revela uma lógica política na qual os atores coletivos se constituem pelo antagonismo, ao invés de uma identidade essencial ou privilégio epistemológico. A expansão subversiva da "revolução democrática" presume que a diversidade de antagonismos excede uma ordem concebida em termos de determinação econômica ou de um consenso dialógico intersubjetivo. Trinta anos após sua publicação original, esta tradução demonstra que Hegemonia é crucial ao entendimento das lutas atuais de resistência e emancipação.

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    Resenhas (1)Ver mais
    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino17/02/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Não é possível falar da política e sociedade atuais sem compreender esse livro.O mesmo também vale para o Brasil. Quem pensa que o comunismo clássico, aquele onde o proletariado assumiria papel de destaque, conduzindo a um novo estágio ainda é defendido pela esquerda brasileira, simplesmente não tem a menor noção do que se passa. Todos os movimentos sociais atuais estão integrados a um objetivo sinistro de destruição da sociedade ocidental, de seus valores, comportamentos e instituições, coordenados para sempre conseguir causar o dano onde é mais importante e não se desviar desse objetivo mais amplo. Minha intenção é chamar a atenção para esses eventos e mostrar como há uma coordenação em tudo isso. Preferi fazer comentários sobre as consequências políticas das propostas dos autores, mas não pude evitar comentar também sobre aspectos teóricos — evidentemente, dentro de minhas limitações. Sei que o texto ficou extenso e cheio de idas e vindas, mas é muito difícil condensar tudo que deve ser dito a respeito desse livro. Seria preciso um livro muito grande para expor em pormenores o pensamento e as consequências, assim como fazer as devidas críticas e mostrar as armadilhas. Como isso seria impossível nesse espaço, procurei fazer um pouco de tudo. Reconheço que o texto poderia ser mais bem escrito e claro, mas foram tantos meses (na verdade, estou me debatendo com essa leitura há dois anos e escrevi mesmo um pequeno livro, devido à quantidade de páginas, só com anotações sobre o livro e análises a partir do pensamento dos autores) tentando compreender esse pensamento e lidando com a maldade implícita (e explícita, muitas vezes) nele, que escrever agora é algo como um exorcismo dessas forças que tanto me sufocaram nesse tempo. Aos que decidirem conhecer o pensamento de Laclau, para poder entender os caminhos atuais do progressismo, recomendo, sobretudo, força de espírito para suportar a maldade que escorre dessas páginas. Poucas vezes fiquei tão impressionado com o cinismo e oportunismo de um autor, mesmo progressista. E digo isso sem intenção alguma de dirigir os sentimentos do leitor para uma postura crítica, estou apenas expressando meu sentimento durante a leitura. Nem mesmo Lênin me impressionou tanto, ele que é conhecido como um dos autores mais práticos do marxismo... A sociedade A novidade teórica de Laclau/ Mouffe aparece logo em sua definição de sociedade. Para eles é impossível que se diga com segurança o que ela é, pois ela é mutável e vive em constante ajuste. Inclusive, se for possível dizer que a sociedade é algo ou está numa determinada direção, isso é sinal de que as coisas não vão bem e relações de subordinação se estabeleceram e solidificaram na sociedade. Eles usam o termo “sociedade suturada” para os momentos em que há fixação de um grupo, de uma definição do que seria a sociedade. Só essa escolha já demonstra que entendem que a sociedade é uma disputa constante, onde interesses entram em conflito o tempo todo e grupos se formam, desfazem e alianças entre diferentes grupos acontecem, tudo muito dinâmico e sem seguir diretrizes preestabelecidas. Cada qual entra nesse antagonismo para definir sua identidade, mas sem que isso jamais aconteça definitivamente, pois reagimos de acordo com o outro, somos diferentes de acordo com aquilo que é necessário de nós. Isso significa que nem a identidade é fixa, nem os conceitos que os grupos sociais usam para suas lutas são exaustivamente definidos. É a luta, o conflito, que vai direcionar para onde caminham as identidades e o comportamento adequado para cada momento. Houve um tempo em que se acreditava piamente na profecia de Marx sobre a ruína do capitalismo — na verdade, muitos ainda acreditam. O capitalismo, ele dizia, era um sistema baseado na exploração do mais fraco e isso levaria a um enfraquecimento maior ainda, até que não sobrasse mais alternativa a não ser iniciar a revolução. A distância entre pobres e ricos ficaria maior com o tempo, o poder político-econômico cada vez mais concentrado nas mãos de uma minúscula burguesia dona de tudo, que faria do restante da sociedade seus escravos. Dessa forma, restaria ao proletariado, a classe social explorada pelos burgueses, que só existiria para procriar e alimentar o sistema com sua força de trabalho, tomar consciência de que sua escravidão se dava apenas por aceitar a mentira de que era livre e poderia se tornar rica, um dia. Essa classe social deveria, portanto, fazer a revolução e terminar com o sistema mais injusto e mentiroso que os homens foram capazes de conceber. Mas nada disso aconteceu, mesmo quase 200 anos depois de Marx. Sua profecia falhou e seus seguidores não foram capazes de compreender que o sistema capitalista promoveu uma melhora significativa das condições gerais da humanidade. A pobreza sempre vai existir, não importa que sociedade estejamos analisando, afinal é um conceito relativo. Quer dizer, se as condições gerais da sociedade melhoram, os mais pobres também terão uma melhora em sua vida, mas continuarão pobres. Não importa que hoje existam pessoas pobres, que moram em barracos, mas possuem certos bens que jamais foram sonhados por pessoas de outras épocas: é possível continuar afirmando que são pobres. Mesmo que tenham boas casas, carros na garagem, etc, se comparadas a quem tiver mais, sempre continuarão a ser pobres. Não estou afirmando que não existe miséria, apenas que o conceito não possui um parâmetro definido, precisando de uma comparação entre os ricos e os pobres para fazer sentido. Digo isso porque mesmo que existam pobres, o sistema capitalista foi feliz em criar melhores condições de vida para uma parcela grande da humanidade, como ninguém jamais havia sonhado. Isso faz com que o apelo por mudanças do sistema perca força, sendo incapaz de fazer sentido para todas as pessoas, como Marx imaginou que aconteceria. Também não se pode negar que as democracias modernas são muito mais inclusivas do que eram no tempo de Marx. Ele imaginou um mundo sombrio, com poucas brechas no poder para destruí-lo. Dizia que a democracia, como entendida pela sociedade ocidental, não passava de um engodo, um jogo de cartas marcadas em que apenas uns poucos escolhidos seriam habilitados a participar. Mas ele estava enganado, porque o sufrágio foi radicalmente ampliado. Hoje, praticamente todas as pessoas tem direito a voto. Outro ponto que destruiu as ilusões de Marx quanto à revolução foram as duas Grandes Guerras do século XX. Ele havia previsto que as contradições entre proletariado e burguesia estariam cada vez mais evidentes e a consciência se daria da seguinte maneira: primeiro a luta, através de sindicatos, aconteceria apenas em uma fábrica, uma categoria. Mas essa união de trabalhadores mostraria que eles tem muito em comum com outras categorias. Depois, reconheceriam a luta de todos os trabalhadores de um país e, finalmente, compreenderiam que essa luta é internacionalizada, que o proletariado é uma classe explorada em todos os cantos do mundo e que sua luta deveria ser universal, contra o sistema, não contra os patrões individualmente. Mas a história mostrou que essa internacionalização só gerou conflito e diferenças. Os laços de solidariedade de classe foram incapazes de superar as diferenças culturais e de valores. Um operário francês não conseguiu se sentir solidário com um operário alemão, por exemplo; ao menos não da mesma forma que se solidariza com um conterrâneo. Essa derrota dos valores marxistas ensinou uma dura lição ao movimento. E aqui podemos desviar diretamente para o pensamento de Laclau/ Mouffe. Os autores discutem longamente os problemas do pensamento marxista e suas tentativas de forjar uma modificação social, mas que está se tornando cada dia mais difícil de acontecer. O capitalismo, eles reconhecem, promoveu uma melhora das condições de vida dos trabalhadores, não uma piora, como se pensava; também, através da luta do movimento comunista, aconteceu uma integração nas decisões políticas dos países, os mais pobres tem direito a voto, a formar partidos e disputar democraticamente espaço nas assembleias, etc. Seria um maniqueísmo tolo insistir que o capitalismo, associado a um sistema democrático, não foi capaz de melhorar a vida das pessoas. Mas só isso não basta, porque a sede de democracia da humanidade quer muito mais. A essa democracia moderna falta a capacidade de dar voz a todos os diversos grupos sociais. A sociedade não está dividida entre burgueses e proletários, existe uma infinidade de identidades que só querem o direito de viver em paz e participar ativamente da vida política e social. O que os autores dizem é que a sociedade é composta por grupos com identidades flutuantes, que vivem conflitos com o padrão estabelecido e tem muito a dizer sobre suas dores e sofrimentos. Os movimentos sociais modernos, de negros, mulheres, homossexuais, meio-ambiente, etc, precisam participar ativamente da política através de suas identidades, não apenas como cidadãos, um conceito que passa por cima das diferenças e massacra a especificidade da vida dessas minorias. Temos, para os autores, que a sociedade não é algo de fixo, mas extremamente agitada, com enormes conflitos encobertos por regras da democracia que já não conseguem dar conta dessa complexidade e diversidade. Os diversos movimentos sociais nos trazem verdades alheias às pessoas que vivem dentro desse padrão e não sofrem com micro conflitos diários sobre seu modo de ser, de ver e viver a vida. Mais, esses conflitos são tão dinâmicos que qualquer arranjo feito às pressas consegue apenas modificar sua localização no campo de dominação da sociedade, jamais resolvê-los. Um dos questionamentos mais recorrentes em minha leitura era como esses movimentos chegaram a se constituir. Não devia estender o texto para considerações sobre a teoria, pois o aspecto político da proposta dos autores já tem consequências graves demais, mas não posso deixar passar um tema como esse. Marx nos ensinava que o processo de tomada de consciência do proletariado acontecia por etapas, sempre acumulando mais conhecimento à medida que a luta se mostrava não mais contra pessoas ou empresas, mas contra todo um sistema, até que todos compreendessem que o capitalismo é algo universal e só pode ser derrotado com a internacionalização da luta. Mas o caso aqui é um pouco diferente, pois nada do que tem importância para Marx tem peso para essa proposta. A tomada de consciência nem aparece como categoria, nem mesmo a internacionalização — e os autores fazem uma crítica do pensamento que tomava a economia como infraestrutura da sociedade, tendo todo o restante como secundário. Qualquer luta social pode ser investida para contestar o poder e ajudar a construir uma hegemonia, mas em momento algum eles esclarecem como isso acontece. Pode parecer uma pergunta sem muito sentido, mas ela é importante. Se uma reivindicação nasce espontaneamente na sociedade, ela poderia ser vista como mais legítima, afinal, em teoria, não teria sido construída visando se tornar uma arma para outras lutas. No entanto, se uma demanda social surgir apenas depois que um movimento a iniciou, significa que provavelmente há alguém tentando manipular o imaginário social para que ele se incline na direção de uma contestação da sociedade que vai ter um alvo muito bem definido (mesmo que não esteja visível para os envolvidos nos movimentos). E, embora não exista uma resposta conclusiva no livro, o que ele dá a entender é que qualquer reivindicação social pode ser usada como arma política contra o poder. Ou seja, é o movimento social que cria a demanda, não o contrário. Daí a insistência em dizer que os movimentos não devem trabalhar com conceitos bem arrematados, claramente definidos, porque essa zona nebulosa permite que mais pessoas se identifiquem com a luta, pois assimilam o movimento a seu pensamento, não o contrário. Em outras palavras, Laclau/ Mouffe mostram que não importa muito o conteúdo do movimento social, apenas que ele traga o sentimento de lutar contra o poder em nome dos direitos de um grupo que não havia alcançado proeminência até então, algumas pessoas vão se identificar e se unir ao programa. Nesse sentido, classes sociais, com sua difícil definição, sempre estática e excludente, gerando conflitos pela primazia do direito a liderar a revolução, são um completo atraso. Movimentos sociais são dinâmicos, generalizantes, capazes de incluir qualquer um que sinta identificação mesmo remota e, o que é melhor, mesmo quando esbarram em impossibilidades evidentes, como um branco de olhos claros apoiando o movimento negro, podem resolver suas contradições apelando para o conceito de empatia. Ou seja, basta uma identificação, algo no nível emocional, sem ligações concretas, para que o movimento social funcione. Ainda há espaço para uma pequena crítica a Gramsci. Embora trabalhando com o conceito de hegemonia, fazem questão de ressaltar a diferença entre a proposta do autor italiano e a sua. Gramsci pensava que era possível construir hegemonia, ou seja, domínio na sociedade a partir da infiltração de pessoas com ideais de esquerda nas instituições. Assim, aos poucos, elas seriam modificadas a ponto de que a revolução se tornaria algo praticamente natural. Através da educação, por exemplo, com pessoas infiltradas no sistema educacional, mais e mais pessoas seriam inculcadas dos valores de esquerda, sem jamais se questionar sobre sua validade, pois isso lhes seria transmitido como a verdade. Isso, grosso modo, porque há inúmeras questões práticas para se lidar durante esse processo, mas o objetivo é esse. A crítica dos autores, no entanto, é muito parecida a que fazem a Lênin e mesmo a Marx: os valores transmitidos seriam monotemáticos, pois o pressuposto do autor ainda é uma sociedade do trabalho, onde a contradição fundamental é entre burguesia e proletariado, não deixando muito espaço para as inúmeras identidades e grupos sociais que existem na realidade. Enfim, para resumir, a sociedade é algo volátil e mutável, na concepção dos autores. E isso porque existem muito mais identidades sociais do que aquelas que a esquerda trabalhou por mais de um século e que, ao não conseguir dar conta dessa diversidade, tinha seu discurso esvaziado, incapaz de atingir essas pessoas que não se identificavam com sua fala padronizada. Uma parte do fracasso da implantação de sistemas comunistas e de esquerda em geral, segundo os autores, viria dessa cegueira de diminuir as lutas que não se encaixavam em seu pensamento, preferencialmente voltado para a questão clássica enunciada por Marx/ Engels, sobre a burguesia e o proletariado. O ponto importante aqui, que será útil guardar para compreender a proposta dos autores é que eles querem ampliar essa miríade de identidades, lutas e conflitos. Ou seja, o que é uma explicação sobre a sociedade, torna-se parte do projeto de mudança dela, também. Democracia O termo democracia costuma estar associado a um sistema que é rigoroso em oferecer as mesmas condições, quando na disputa política, para as diferenças forças, independentemente de uma delas ter mais poder ou riqueza. É um sistema que garante a igualdade dentro de seus procedimentos, para não ter certeza alguma quanto ao resultado das disputas. Diferentemente de outros sistemas políticos, que não oferecem certeza quanto ao rigor do procedimento, mas dão certeza quanto ao resultado, a democracia parece ser o sistema político mais justo e igualitário já imaginado pelos homens. Um grande pesquisador da democracia, Robert Dahl, nos ensina que para uma verdadeira democracia há dois critérios a se respeitar: oposição e participação. Se houver uma oposição estruturada e a possibilidade real dela chegar ao poder através de eleições, temos uma democracia. Dentro desses critérios mais gerais há outros, como a liberdade de expressão, fundamental para uma oposição se constituir. Faço uma alusão breve a um trabalho extremamente importante porque quero destacar que na prática, a democracia é mais como um procedimento do que um fim em si. Ela pode servir para que grupos e partidos cheguem ao poder e façam mudanças radicais na sociedade e na estrutura de um país, por exemplo. No entanto, Dahl sempre foi alvo de uma crítica relacionada à redução da importância dos temas sociais à mera possibilidade de formulação de preferências, ou seja, à liberdade. Mas temas sociais não podem ser resumidos apenas a liberdade de expressão, pois eles geralmente significam reformas estruturais não apenas do sistema político, mas da sociedade. Vale a pena dar uma lida em Robert Dahl, em especial seu livro Poliarquia. Só que os progressistas criticam a democracia por ela não apresentar a mesma composição da sociedade. Eles acreditam que só quando houver perfeita sincronia entre a sociedade e o processo político, haverá democracia. Para eles, como os pobres são maioria, não poderiam estar em condições de disputa iguais ou similares aos mais poderosos, pois estes se valem de suas melhores condições financeiras e sociais e deformam o processo político, tornando-o viciado e conseguindo vantagens infinitas para si mesmos. Mas, como vimos, a sociedade é entendida como algo dinâmico e indefinível, onde os diversos grupos sociais, as diversas vozes, se arranjam constantemente e buscam posições novas a cada momento, não sendo possível jamais estabelecer uma definição absoluta sobre o que é a sociedade e seus grupos. É aqui que entra o truque desses autores. Para eles, só tem validade um grupo social que estabeleça uma relação de contestação do poder, do que eles entendem como o padrão exigido pelos poderosos e que a sociedade se acostumou a ter como verdade, mas que significa apenas a imposição de uma parcela que domina. Trocando em miúdos, para usar a terminologia clássica marxista, que não reflete totalmente a concepção da realidade, segundo os autores, mas que vai nos ajudar a esclarecer o sentido do que estão propondo, a burguesia estabelece seus padrões como a verdade e, por ter poder político e econômico, domina o campo das decisões, desvirtuando a democracia. Um termo importantíssimo, consequência direta dessa postura teórica é representatividade. Como vimos, a ideia de base é que a sociedade é repleta de minorias, que precisam afirmar suas identidades constantemente, pois os conceitos que a sociedade e mesmo os intelectuais utilizam não são capazes de dar conta de sua existência, o que implica que não só a luta é ininterrupta, mas que também é dinâmica. Ora, como a política será capaz de dar conta dessa velocidade das relações entre os grupos sociais e o poder se continuar trabalhando com conceitos ultrapassados, que encobrem essa diversidade? É preciso, dizem os autores, que a política reproduza de alguma forma essa luta e a diversidade social. Na prática, como muitos de nós já percebemos em nosso cotidiano, a palavra mais importante não é mais inclusão, mas representatividade. Com isso, querem dizer que se não existirem partidos e movimentos sociais para cada minoria, com igualdade de condições de expressão e disputa política, teremos apenas um engodo. Não temos mais apenas, se é que isso existiu algum dia, a cisão entre burguesia e proletariado; hoje existem tantas identidades quantas as pessoas forem capazes de inventar ou descobrir e cada uma delas precisa ser representada politicamente, entrar no jogo formal de disputa, como aparece nas definições de democracia (poliarquia) de Dahl. Em determinado momento do livro, os autores vão recorrer a um autor que é considerado um dos pais do conservadorismo moderno para mostrar o quanto a democracia é o campo mesmo do político, Tocqueville e sua análise da democracia americana, feita no século XIX. Esse autor fez comentários ácidos sobre o sistema político americano, lamentando que a monarquia fosse abandonada e que o principal valor dali para frente fosse a busca por igualdade, o que, segundo ele, seria a ruína dos modernos. Aqui é importante acompanhar o argumento de Laclau e Mouffe: eles afirmam que todas as revoluções, a partir de 1789, buscaram sempre a mesma coisa: igualdade. O pensamento conservador, portanto, é uma negação do movimento histórico da humanidade, que é almejar a construção da verdadeira igualdade entre os homens. E, mais uma vez, podemos já antecipar a crítica à manobra dos autores, porque dizer que todas as revoluções procuraram por igualdade, tendo em conta que o socialismo se desenvolve justamente com a intenção de provocar revoluções é tomar o efeito pela causa e cometer um erro lógico, ou seja, usar uma falácia como argumento. Quero dizer, se não houvesse o socialismo, principalmente o marxismo, todas as revoluções procurariam a mesma realização? Ora, os comunistas interferiram diretamente na história, mas nesse trecho do livro os autores agem como se isso não acontecesse e as revoluções fossem puras manifestações populares, como exemplos de pensamentos achados a esmo e não houvesse nenhuma influência do marxismo. Não é de estranhar que logo depois o livro traga considerações sobre o conservadorismo, associando democracia ao campo político, afirmando que o direcionamento das sociedades é pela busca da igualdade. Ao conservadorismo resta apenas ser considerado a negação da política. Ou seja, fascismo. E esse raciocínio, que resumi aqui, não é nem um pouco apressado. Os autores são inteligentes o bastante para buscar em Tocqueville, numa análise sincera sobre o sistema democrático, a verdade do movimento da história. Nesse momento, caracterizados pelo cuidado em não fazer afirmações taxativas, os autores perdem o pudor e se apressam em mostrar como a democracia é a tendência inexorável da história e, nas próprias palavras de um dos pilares do conservadorismo, a igualdade é o que a define. Se alguém nega esse movimento, essa verdade histórica, só pode estar querendo uma coisa, que é destruir o âmbito da política, da democracia mesmo. O conservadorismo é, portanto, fascista, que é a verdadeira negação da democracia e da política — daqui para frente os autores tomam os dois termos como sinônimos. Antes de prosseguir, vale registrar em linhas gerais o pensamento de Tocqueville, que é usado tão livremente pelos autores. Ele criticava o igualitarismo como consequência da modernidade, o que acarretaria perda da solidariedade dentro da comunidade. Não apenas isso, mas uma série de males, como mediocridade cultural, erosão dos valores e da moral. Um dos problemas que os autores descobrem em nossa época é essa democracia falsa, que não corresponde à sociedade, mas isso só funciona com quem tem uma mentalidade de que é impossível existir debate e concordância, pois a política é apenas a imposição da força de um grupo sobre outro. Tocqueville sabia que a verdadeira democracia acontece quando as ideologias são superadas e as partes cedem em seus desejos para chegar a um acordo. Resultados assim acontecem apenas quando há um forte laço comunitário unindo as pessoas, pois se elas se veem como inimigas, como inconciliáveis, é óbvio que o acordo não pode ocorrer. Dessa forma, ao citar Tocqueville, os autores se valem da parte de seu argumento que corrobora sua real intenção, que é excluir aqueles que pensam diferente dessa democracia, da política. Se houvesse honestidade, continuariam a explicar seu raciocínio e tenderiam a concordar com ele, pois ambos estão falando de pacificação da sociedade, mas apenas um deles pensa em incluir todos as pessoas nisso... Tornar os termos democracia e política sinônimos tem uma consequência que os autores adoraram explicitar: sua proposta é a única verdadeiramente democrática e, portanto, política. Vejamos: se o marxismo até então havia cometido milhões de assassinatos pelo mundo, das formas mais criativas e cruéis que a humanidade foi capaz de imaginar, isso se dá por falta de democracia. Claro, por falta de democracia, sem dúvida, mas seu autoritarismo se deveu à cegueira para tudo o que é a sociedade de verdade. Hoje os progressistas desejam a verdadeira democracia, que é a da diversidade e da representatividade. Quem nega isso, seja de esquerda, seja de direita, está negando a própria democracia, que é a realização da natureza da política, mesmo. Dessa forma, criticando os erros históricos da esquerda, os autores conseguem fechar definitivamente a porta para qualquer visão de mundo que não seja a sua. No passado havia autoritarismo até na esquerda, mas hoje, dizem, há apenas democracia e isso é a verdade que a história nos legou. Muitos leitores progressistas não conseguem compreender que essa crítica à história da esquerda traz em seu bojo a aniquilação da existência da direita e se voltam contra os autores. Essa crítica tem a função de mostrar que se a esquerda errou, foi por não conseguir se desvencilhar daquilo que a direita tem como sua essência: a negação da diversidade, que é justamente a realização plena e verdadeira da democracia. Não existe democracia, dizem os autores, sem diversidade; isso a direita não é capaz de suportar. A direita, que nega a igualdade, essa verdade que a luta democrática trouxe desde a Revolução Francesa, é um anacronismo cruel, desejoso de resgatar antigos privilégios e poderes que não fazem sentido em nossa sociedade. O que significa a ascensão da direita, segundo esse pensamento? Que a democracia, ou seja, o movimento histórico irreversível (coisa festejada até por liberais, que adoram mencionar as benesses inclusivas do capitalismo e da democracia) está sendo negado. A direita não gosta da igualdade, mas esse é o eixo central de todas as revoluções a partir do século XVIII, eles nos dizem. Ora, se vamos negar a participação do povo na política, estamos destruindo a verdadeira política e estamos restituindo uma situação de servidão um pesadelo onde uma elite minúscula escravizaria todo o restante da população apenas para manter seu estilo de vida luxuoso. Ainda falta falar sobre o Estado, o tema mais obscuro em todo o livro e que vai permitir o começo de uma crítica ao pensamento de Laclau/ Mouffe. O Estado Como pessoas que acreditam no racionalismo na política, para usar o conceito de Michael Oakeshott, podem abandonar o Estado? Não podem, essa é a resposta crua e verdadeira. Para aqueles que desejam interferir na sociedade, direcionando-a para onde quiserem, o Estado é ainda a ferramenta mais poderosa. Pouco se fala sobre o Estado em todo o livro. Os autores estão muito mais preocupados em construir teoricamente seu pensamento e explicitar as falhas históricas do progressismo para realizar a democracia radical. O comunismo, eles dizem, é parte da democracia radical, mas a democracia não cabe dentro do comunismo. Apesar de parecer retórica, essa frase, usada mais de uma vez no livro, expressa que o comunismo é projeto ultrapassado, baseado na dialética entre burguesia e proletariado; mas a verdadeira democracia é muito mais diversa e colorida, muito mais alegre e viva do que o comunismo jamais foi capaz de imaginar. Isso significa que a luta contra o capitalismo ainda é verdadeira, mas não encerra toda a verdade, é apenas parte dela. Agora, qual Estado podemos supor que deveria existir para sustentar essa sociedade em sua plenitude democrática? Em primeiro lugar, a verdadeira função do Estado, segundo o marxismo é servir de ferramenta para a dominação de classe. Mas, se a sociedade for plenamente democrática, isso não vai fazer o menor sentido. Nenhuma classe precisará reparar as injustiças históricas, nem desejar dominar, porque haverá espaço para todos. Mas as coisas, sabemos, podem não ser bem assim. Essa sociedade será muito fraca, pois nenhum grupo social poderá predominar nela, sob pena de sobrepujar outras identidades e reivindicações justas. A quem pode interessar uma sociedade fraca? Aos que tem sede de poder. E mais: uma sociedade repleta de conflitos, como os autores fazem questão de frisar, jamais terá um grupo forte o suficiente para desafiar aqueles que alcançarem o Estado. Assim, qualquer um que se dedique exclusivamente a tomar o Estado, poderá gozar de poder como poucos e por tempo indeterminado, pois o restante da sociedade estará vivendo seu idílio onde o homem será lobo do homem. Ao mesmo tempo em que esse Estado deve alimentar o antagonismo, através de intervenção pesada para desfazer privilégios antigos, a sociedade estará imersa em sua autoafirmação de identidades, desprezando completamente a tomada do poder. Me parece uma estratégia verdadeiramente demoníaca, porque usa os movimentos sociais para desestabilizar a sociedade — afirmam que o verdadeiro objetivo é chegar a uma crise orgânica, conceito gramsciano, que acontece quando a sociedade não consegue mais formular uma ideia de si, ou seja, a indiferenciação, provocada pelo conflito, onde todos estão lutando ao mesmo tempo, uma hiperpolitização da vida. Não é difícil concluir, portanto, que aquele que tiver como intenção dominar o Estado, seja através de qualquer discurso, terá uma condição privilegiada. Basta continuar alimentando o antagonismo social, atomizando cada vez mais a luta, fazendo com que cada nova vitória seja mais insignificante que a vitória anterior, pois débil e passageira, incapaz de atingir as estruturas sociais, que serão, paradoxalmente, imutáveis. A sociedade estará fragilizada, em ebulição, enquanto o Estado fica como mantenedor dessa situação (chamada cinicamente de democracia), praticamente inatingível por qualquer organização social ou indivíduo. Tenham muito cuidado com quem pode assumir o poder daqui para frente, pois os movimentos sociais se tornaram todos instrumentos de propagação da desordem social, com o único intuito de destruir o que existe, não de colocar algo em seu lugar. A própria realidade brasileira mostra isso com clareza. O governo Bolsonaro tem sofrido com intervenções alheias a seu poder, mas que são capazes de gerar confusão, caos e conflitos, promovendo sua paralisia. Mesmo o STF, repleto de ministros ativistas, mostra que munido de ideologia política, pode interferir e atuar diretamente na sociedade, através de pautas quase sempre identitárias (o que cria a dúvida sobre estar associado a movimentos sociais) e bagunçar o movimento normal da política. Não é preciso buscar muito longe para compreender que um projeto que está falando em hegemonia não está buscando democracia de verdade. Vamos ao significado de hegemonia segundo o Dicionário Aurélio: “Superioridade ou poder absoluto que uma cidade, um país ou um Estado tem em relação aos demais: a luta pela hegemonia celebrizou Esparta e Atenas. [História] Proeminência política ou bélica nas sociedades da Grécia antiga. Etimologia (origem da palavra hegemonia). Do grego hegemonía, ‘comando’”. Ou seja, a construção de uma hegemonia, como buscada pelos autores, não tem como ser compatível com o ideal de democracia, que para nós significa liberdade e convívio dentro de regras bem definidas que permitem a alternância de diferentes grupos no poder. O termo é um substituto para o conhecido “ditadura do proletariado”, que traz calafrios até hoje quando pronunciado por algum esquerdista da velha guarda. Na verdade, como não faz sentido falar de classes sociais, nem do proletariado como tendo um papel vocacional para fazer a revolução, não faz sentido falar em sua ditadura, também. Mas o sentido de domínio está lá. Alguém só terá hegemonia se outros não tiverem acesso ao poder e a própria etimologia da palavra traz a ideia de poder. É uma piada de mau gosto combinar os termos hegemonia e democracia, como se pudessem conviver sem contradição. O projeto dos autores significa, portanto, submissão de seus inimigos, domínio sobre aqueles que não corroboram seus ideais, enfim, uma ditadura. “A tua piscina tá cheia de ratos” Há uma confusão muito grande em relação a esses autores. Muitos os qualificam como críticos do marxismo, por darem sinais de abandonar o proletariado e a teoria de classes. Mas quem o faz, por certo, ignora o mais importante, que é a dialética. O termo não aparece dessa forma e podemos dizer, se quisermos ser rigorosos, que antagonismo não é dialética. O que define esse conceito é a oposição, os pares de opostos que geram uma nova situação. E o antagonismo, embora seja mais do que uma mera polaridade, pois os autores destacam que qualquer movimento social tem potencial para contestar os valores da sociedade, o que faz com que sejam muitos e não apenas um par, enfim, o antagonismo desempenha a mesma função dos antigos pares de opostos da dialética clássica do marxismo. Sai a teoria de classes, onde o proletariado desempenhava o papel messiânico de representante exclusivo da revolução, entra qualquer movimento social que possa ser usado para contestar e desestabilizar a sociedade. Onde antes havia apenas um, que o marxismo tentou de todas as formas possíveis tornar o agente da revolução, mesmo ficando patente que o proletariado desejava apenas melhores condições de vida, não uma revolução, entra a política de identidade, em que qualquer forma de associação contestatória pode desempenhar papel revolucionário (ao menos parcialmente). Mas não é só isso o que caracteriza a dialética. Pensar dialeticamente é ter em mente que qualquer mudança social se faz pela oposição. E que o caos é um importante elemento de mudança. O caos é a consequência de abalos importantes nas estruturas sociais e é aquilo que todo o revolucionário busca, pois significa que o antigo sistema entrou em colapso e sua vitória é certa. Quando olhamos para um autor desses, tendemos a pensar com nossa visão de mundo, onde a sociedade tende sempre a um equilíbrio, ou melhor, tendemos sempre a buscar meios e soluções para estabilizar a sociedade e pacificá-la. Mas quem pensa dentro da dialética, ou seja, dentro da oposição, do conflito, não tem nem como aceitar essa hipótese. A única maneira das coisas funcionarem em suas cabeças é através da procura do caos, da contestação e dos passos rumo à revolução. Dessa forma, quando explica que a sociedade não pode ser entendida como fixa (o termo é suturada, o que já implica que o começo é uma ruptura e não uma pacificação) e sim como dinâmica, repleta de antagonismos, mais do que um diagnóstico, isso é um desejo. Talvez desejo seja uma palavra ainda fraca, porque ele parece indicar que as coisas não chegaram ao estágio planejado. Não é assim. O que esse diagnóstico explica é que se houver pacificação na sociedade, é tarefa do militante produzir caos, pois só assim as coisas estarão obedecendo sua natureza e não um arranjo do poder, que silencia os antagonismos. Pensar dialeticamente significa, portanto, produzir, através de sua prática (o que significa produzir teoria, no caso dos intelectuais) as condições que confirmem sua própria visão de mundo. É simples no fim das contas: Laclau explica que a sociedade é puro antagonismo e é o poder que procura silenciar sob a aparência de unicidade as oposições dinâmicas que correm sob a superfície pacífica das águas. Cabe ao militante, a todos que desejam a revolução, mostrar que não é assim, que essa paz é forçada, que é silenciamento das diferenças e, ainda, incitar que essas vozes se produzam e apareçam. Ao mesmo tempo em que diagnostica uma situação, o teórico da dialética altera a realidade para produzir o mundo que deseja. Laclau não é um crítico do marxismo, portanto. Ele é um teórico que soube ampliar seu alcance, mirando o mesmo alvo, mas tornando o caminho entre as intenções e a revolução mais fácil de se alcançar e compreender. O mais impressionante nesse livro, a meu ver, é a explicação para as falhas em diversos momentos, mostrando que apesar de todos os recursos e vontade envolvidos no trabalho para a revolução, ela nunca chegou realmente. Isso aconteceu porque enquanto se estava voltado para a prática (leninismo), havia inúmeros detalhes da realidade que não podiam se encaixar nessa visão estrita da dialética clássica. Era preciso arrumar termos mais abrangentes, capazes de lidar com a complexidade e as modificações da história. O curioso é que Laclau recebe críticas como se fosse um pós-marxista, ou seja, um crítico. Não deixa de ser curioso que boa parte do mundo acadêmico seja incapaz de perceber a matéria mesma com que está lidando, se apegando a termos e não a sentidos. Curioso, mas não tão surpreendente assim, afinal, quem estuda o tempo todo meios de destruição do sentido, acaba sendo vítima uma hora ou outra daquilo que busca. É por isso que basta o autor deixar de usar o termo revolução, fazer uma crítica da ideia de proletariado como classe messiânica e de dialética (trocando o termo por antagonismo, mais adaptado à realidade multifacetada que quer explicar) para que muitos se percam e o declarem um inimigo. Os termos mudam, mas a posição no arranjo global para a construção da revolução continua o mesmo: trata-se de encontrar meios mais seguros e eficientes de se alcançar uma outra sociedade, o comunismo. Agora precisamos lidar com as consequências reais dessa proposta, é isso que pretendo fazer na parte final do texto. Quando praticada, essa proposta de sociedade de Laclau/ Mouffe gerou consequências inesperadas. Dissemos que o objetivo final é purificar a política, excluindo todos aqueles que não corroborem seu pensamento do debate e, em última instância, da existência, mas os efeitos de tais práticas foram absolutamente imprevistos pela dupla. Em primeiro lugar, essa purificação da política fez com que aqueles que participavam da política real, ou seja, que eram ouvidos e tinham papel importante, diminuísse. A bem da verdade, em países como o Brasil e a Grécia, assistimos a um desvairado aumento do Estado, com políticas assistencialistas, numa tentativa tola de colocar sob a dependência do partido a grande maioria da população, pois ela não se encaixava nessa política purificada e estava sendo excluída dos processos decisórios. O cidadão comum tinha sua importância atomizada, tornada inexistente mesmo; era preciso estar associado a algum grupo militante, a uma ONG, a um partido político, se desejasse participar da vida política. Portanto, como o discurso de inclusão vai sendo paulatinamente desvelado por suas práticas, resta a esses governos atuar sobre o restante da população através de políticas assistenciais, tentando gerar empatia e dependência. Isso é caro e pouco efetivo, porque quando o dinheiro acaba, a população não tem o menor remorso de se voltar contra a mão que a amparava/controlava até então — a recente história do Brasil mostra isso com todos os elementos. E não podemos esquecer que uma das respostas às chamadas “jornadas de julho”, as manifestações inicialmente convocadas por partidos de esquerda que fugiram ao controle e acabaram desembocando no impeachment de Dilma, em 2016, tiveram como resposta da então presidente a proposta de criar conselhos populares, bem ao estilo venezuelano, que seriam uma espécie de poder, capaz de influenciar diretamente a política e até mesmo modificar decisões do congresso. Isso, dito dessa forma pode gerar mais dúvidas: qual a relação disso com a diminuição da participação popular na política? Não seria uma forma de ampliar essa participação? Acontece que esses conselhos populares são um novo nome para os sovietes, instrumento fundamental que permitiu aos bolcheviques tomar de assalto a política e submeter toda a população a suas intenções com a desculpa de estar realizando exatamente o que era sua vontade. Com o decreto que instituía tais conselhos, o PT pretendia submeter o congresso à sua vontade, declarando que estava levando a democracia a seu limite, fazendo do povo um poder decisivo e decisório, mas só quem participaria desses conselhos seriam seus militantes, isso sem contar que o método de decisão seria a votação por maioria, o que sempre lhes daria a vitória, por ter grupos organizados. Trocando em miúdos, diante do evidente esvaziamento da política, pois a população não participa dessa democracia identitária, feita para acomodar movimentos sociais e dar-lhes poder, o governo Dilma trocaria a forma de manter-se no poder, usando do discurso de inclusão total da população. Mas a verdadeira consequência está clara: a população é excluída e o sistema começa a deixar suas mazelas aparecerem muito rapidamente. Mas há uma segunda consequência. O jogo se torna o da política identitária e mesmo que vagarosamente, vão surgindo reivindicações que não podem se encaixar no controle da esquerda. A ascensão da direita, que todos os intelectuais de esquerda não perdem oportunidade de rotular como fascismo revivido (eles não tem outra opção, pois dentro de seu universo existencial só existem dois polos possíveis: comunismo ou fascismo, é sério, faz parte de sua herança teórica) acontece dentro desse ambiente, com todas as características afirmativas da política identitária. Grupos sociais e identidades sofrem com a mesma definição vaga de classes sociais para o marxismo. Isso, como tentei ressaltar no texto, é essencial: faz parte do plano para arregimentar cada vez mais militantes em suas causas. A falha desse plano aparece justamente aí: como tudo se torna uma identidade e clama por ter sua voz ouvida e respeitada, era de se esperar que o conservadorismo sofresse também uma mutação e voltasse, agora como algo parecido com a identidade e tentasse participar do jogo político. Eis um retrato de nossa política nos termos de Laclau, que desorienta a esquerda, pois ela nunca havia estado tão próxima de uma vitória sobre as “forças do mal”. Mas dentro do próprio ambiente que havia expulsado o conservadorismo (pensemos não apenas em política, mas também no cristianismo), ele ressurge, agora como uma alternativa viável e inteligente, como uma opção que precisa participar e falar, discutir os caminhos da sociedade, ou seja, se torna uma identidade, com a diferença de que não está submetido ao centralismo do poder, que engloba todos os outros movimentos sociais e faz com que a esquerda tenha poder político como nunca antes nem sonhou. É muito difícil, mais uma vez pensando dentro dos termos de Laclau/ Mouffe, resistir a essa ascensão do conservadorismo. Eles não tem armas contra movimentos identitários a não ser tentar controlá-los, como fazem com todos os outros. Trata-se do verdadeiro retorno do reprimido, de um atavismo difícil de combater, pois verdadeiramente enraizado na sociedade, uma manifestação espontânea. É por essas razões que a esquerda assistiu em vários países o retorno do conservadorismo e não foi capaz de impedir que ocorresse no Brasil. Sua “natureza” clama pelo reconhecimento do conservadorismo, o que se choca com sua intenção totalitária de bani-lo para sempre. Dessa forma, sem pudor algum vários intelectuais se voltaram contra o povo, numa atitude francamente elitista, revelando sua verdadeira natureza e o desprezo que sentem por aqueles que não pensam como eles. Um exemplo: a obra de Márcia Tiburi, que qualifica como fascista e autoritária qualquer manifestação popular que não seja balizada por sua ideologia. Em alguns de seus livros aparecem explicações sobre as “verdadeiras e sadias manifestações populares”, que são sempre contra o poder, contra a autoridade, contra os valores ocidentais. Ela consegue elogiar, na esteira de seus heróis frankfurtianos, o lumpen proletariado como verdadeiro grupo social revolucionário, imbuído do espírito contestador. Claro que esse lumpen jamais é o real, onde a violência e a disputa pelo ponto de prostituição, a boca de fumo, etc, é violenta e mesmo os intelectuais da esquerda são desprezados e hostilizados; esse grupo social é sempre o imaginário, aquele que se manifesta apenas através dos intelectuais do partido. Tenho insistido muito que as críticas que os autores recebem são injustas. Digo isso dentro do âmbito do progressismo, evidentemente. Os autores fazem críticas importantes a toda a história do movimento revolucionário e seus autores, procurando mostrar que lhes faltava uma série de conceitos que permitiriam uma abordagem mais firme da sociedade para construir o mundo que sonham. Veja só: embora descartem a profecia do proletariado como a classe escolhida para fazer a revolução, em nenhum momento os agentes ativos são os indivíduos. Somente movimentos sociais, partidos políticos, etc, ou seja, entidades coletivas tem voz e existência nesse mundo. O indivíduo, por herança marxista (e que remonta a Hegel), é um anacronismo e não se deve insistir em sua importância. Mesmo o partido, essa entidade que deve assumir o controle do Estado e garantir a perpetuação dos antagonismos na sociedade através de forte intervenção, não sofre crítica alguma dos autores. O racionalismo na política (expressão de Oakeshott, para explicar o progressismo) é visível, pois se trata de incitar o antagonismo, de fazer com que cada pedacinho da sociedade, da cultura, das relações familiares e sociais, revele as relações de poder implícitas em suas práticas e o quanto de violência existe ali. E se trata de uma intervenção na sociedade pretendendo modificá-la até se atingir uma outra organização social. Esse pensamento, embora desconhecido da grande maioria, é dominante dentro do progressismo hoje. Não é possível falar das forças progressistas sem entender que hoje estão orientadas por políticas identitárias, não mais de classes sociais. O sonho de uma sociedade planejada chegou a seu limite, com a criação de meios que incitam conflitos e a enfraquecem tornando-a eternamente frágil e dependente do Estado que, dominado por essas pessoas, promove cada vez mais o conflito, as disputas identitárias, fazendo da sociedade cativa do partido, o moderno príncipe.

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    Ernesto Laclau

    Foi um teórico político argentino, considerado pós-marxista. Pesquisador e professor da Universidade de Essex, recebeu o título de Doctor Honoris Causa de várias universidades: Universidade de Buenos Aires, Universidade Nacional de Rosário, Universidade Católica de Córdoba, Universidade Nacional de San Juan e Universidade Nacional de Córdoba. Entre seus livros mais citados, destacam-se Hegemonia e Estratégia Socialista: por uma democracia radical e plural e A Razão Populista. Foi diretor da revista Debates y Combates.

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    Ernesto Laclau