No final de 1994, Jocenir é preso em meio a uma situação obscura e confusa. "Analisando hoje, percebo quanta estupidez e arbitrariedade cometeram contra mim." Obrigado a conviver com a massa carcerária da cadeia pública de Barueri, começa, segundo ele, "uma caminhada de sofrimento, terror, angústia, e também aprendizado, descoberta, amor e ódio." E é assim cada uma das páginas que compõe este livro quase todo escrito nos anos em que o autor cumpriu pena. Homem de sensibilidade aguçada, encontrou na privação da liberdade espaço para escrever. No começo foram cartas, suas e de seus companheiros., depois versos que preenchiam cadernos e "circulavam por quase todos os pavilhões." Certo dia, na sua passagem pela Casa de Detenção de Sào Paulo, recebeu a informação de que um rapaz queria conhecer seus cadernos, aquela altura já famosos entre os detentos do Carandiru. O rapaz em questão é Mano Brown, líder do polêmico grupo de rap Racionais MC s, que transformou alguns versos de Jocenir na música "Diário de um detento." Esta, inserida no CD Sobrevivendo no Inferno, de 1997, passou a ser referência do magnífico trabalho do grupo, além de dar origem ao premiado videoclipe dirigido por Maurício Eça e Marcelo Corpanni. Ilustrações à parte, o livro contém a força da música, pois como esta, nasceu do contato direto com a realidade das prisões. Com o intuito de “traduzir o cárcere com um lápis”, Jocenir expõe o interior de um sistema penal corrompido e injusto, que se presta quase unicamente a trancafiar em suas celas jovens primários oriundos das camadas mais pobres da população. O autor, às vezes de forma emocionada, denuncia o enorme estrago que o tráfico causa dentro das prisões brasileiras. “A droga corrói o pouco de humanidade que esses jovens trazem ao chegar da rua.” Muitas situações e reflexões dão corpo a este livro: a rebelião abafada seguida de uma cruel sessão de torturas, o esforço para salvar a vida de um companheiro endividado com um traficante, a descrição de um velho viajante do mundo, de 74 anos, cumprindo pena numa prisão de segurança máxima, o contato inusitado com o famoso médico Drauzio Varella, etc. O autor avisa que não quer denunciar nada e ninguém. Para ele escrever é acima de tudo a tentativa de compartilhar uma experiência. “Quero desapertar minha alma, desabafar.”
Diário de um detento: o livro -
Jocenir
Produção independente
2016
182 páginas
6h 4m
ISBN-10: 858791703X
Português Brasileiro
Edições (1)
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