A conveniência do presente constrói o passado. João Goulart, por exemplo, foi um presidente vacilante e mal-assessorado. Mas, depois de ser derrubado pelo golpe de 1964, a esquerda cobriu-o com o manto do martírio. Tornou-se um líder reformista capaz de livrar o Brasil de arcaísmos feudais e se desvencilhar definitivamente do subdesenvolvimento. Já a direita justificou o golpe com outro mito - seJango não caísse, o Brasil viraria uma Cuba do Sul. Na redemocratização, a esquerda armada também foi drasticamente revisada. Pleiteando espaço na política eleitoral, os guerrilheiros deixaram de ser revolucionários defensores da ditadura do proletariado e formaram a mais corajosa frente democrática de sua geração. Recentemente, porém, um revisionismo muito mais amplo começou a ser empreendido. De repente, o regime que torturou milhares e matou centenas foi redimido como uma “ditabranda", muito mais benevolente do que as ditaduras vizinhas. Essa revisão ignora o fato de que o golpe, planejado para durar menos de dois anos, estendeu-se por mais de duas décadas. Ignora o fato de que violou progressivamente o Estado de direito em direção ao Estado de exceção. Ignora o fato de que a comunidade de segurança da ditadura se tornou um poder paralelo irresponsável, inimputável, ocupado por figuras diagnosticáveis como psicopatas - e que acabaram condecoradas com a “Medalha do Pacificador". O mito da ditabranda permitiu o que até há pouco era improvável: que políticos enaltecessem torturadores. Felizmente, há um mito maior do que o da ditabranda. O maior dos mitos. O mito de que o brasileiro quer a volta da ditadura. Uma pesquisa Datafolha de 2014 nos mostra que 62% dos brasileiros acreditam que a democracia é sempre melhor que qualquer outra forma de governo, 64% defendem os direitos humanos para todos, inclusive para criminosos, 73% são contra a tortura e 80% rejeitam qualquer forma de censura.
Dossiê Super Interessante - 21 Mitos Sobre a Ditadura Militar - As verdades e mentiras sobre o período mais obscuro da história do Brasil
não informado
abril
2016
68 páginas
2h 16m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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