"A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. "
Leitura muito interessante onde Foucault começa com um levantamento histórico que desagua nos dispositivos políticos de poder sob os corpos e a limitação da liberdade. Foi uma livro que começou de forma muito complexa, mas sabia que essa era uma característica do autor e acredito que logo consegui compreender sua escrita de uma forma de me auxiliou a continuar a leitura de forma mais tranquila.
Achei muito interessante o começo que traz essa imagem de como era visto e vivido o sexo durante os séculos e senti que a passagem deles é bem fluída e bem compreensível entre os capítulos assim como as modificações que tornam o sexo tabu, que modificam e marcam o lugar social. É interessante ter a visão dessa forma, ampla por ser um livro tão curto, mas também de forma suficientemente clara para o objetivo do livro. É também diante dessas passagens que começamos a ver com mais clareza a distinção entre as classes sociais e o distanciamento que ocorre como inicio exatamente do jogo de poder que envolve o sexo e os corpos tidos como nobres.
"E, antes de mais nada, uma transposição, sob outras formas, dos procedimentos utilizados pela nobreza para marcar e manter sua distinção de casta; pois a aristocracia nobiliárquica também afirmara a especificidade do seu próprio corpo. Mas era na forma do sangue, isto é, da antiguidade das ascendências e do valor das alianças; a burguesia, para assumir um corpo, olhou, ao contrário, para o lado de sua descendência e da saúde do seu organismo. O "sangue" da burguesia foi o seu próprio sexo."
Assim, Foucault também traz o peso da linguagem ou do não falar para o jogo politico que modificou o sexo e o tornou parte politica da sociedade, como o silencio é uma arma politica que começa a delimitar o que pode ser dito até que nada seja dito e assim, nada exista. Como também demonstra a impossibilidade de domar totalmente o sexo pelo discurso ou proibição.
"O discurso veicula e produz poder; reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo. Da mesma forma, o silêncio e o segredo dão guarida ao poder, fixam suas interdições; mas, também, afrouxam seus laços e dão margem a tolerâncias mais ou menos obscuras."