As ondas
Escolhi ler A vida tranquila, de Marguerite Duras, por ser um livro curto, pois eu estava cheio de trabalho a ser feito (correção de redações, preenchimento de diários de classe, montagem de cronogramas e folhas de ponto e por aí vai); por ser uma autora de quem gosto, mas não necessariamente pela qual sou apaixonado; e pelo título, que me pareceu algo relacionado a Sêneca, esse sim um de meus autores/filósofos favoritos. No entanto, A vida tranquila acabou por se revelar o contrário do que eu havia imaginado: uma leitura densa, intrincada, cheia de labirintos e meandros, em que personagens acabam se misturando uns aos outros em meio a digressões e reminiscências e epifanias dignas de Clarice Lispector e Virginia Woolf. Resumindo (mas qualquer informação além disso pode ser considerada um spoiler, pois a autora constrói a narrativa aos poucos, por meio de flashbacks e digressões, fazendo com que cada ação de um personagem desencadeie outras ações de praticamente todos os outros personagens): em uma fazenda afastada, mora uma família aparentemente unida, composta pela narradora e seus irmãos, seus país, sua cunhada e um agregado, em torno de qual gravitam os raros personagens secundários, interagindo em uma teia complexa de sentimentos ocultos e emoções encobertas, que vão desde a apatia e a indiferença até a loucura, o incesto e o assassinato. Lembrando diversas obras, até mesmo algumas que seriam lançadas anos (décadas) após (mas não posso citá-las, pois com quase certeza você já deve ter lido alguma delas), A vida tranquila é para ser lido aos poucos, com enorme paciência, indo e voltando as páginas, imaginando cada cena e cada fala de seus personagens. Então, talvez a pergunta seja justamente essa: é para você esse tipo de leitura? Um adendo: observei que a etiqueta de preço do livro se encontrava ainda colada na contracapa e vi que o livro custou 10 reais quando o comprei em 2012 (pois é... todo esse tempo esperando para ser lido). Qual não foi minha surpresa ao pesquisar seu preço atual em um site de sebos: de 90 a 150 reais. Fiquei imaginando por que alguns livros têm seus preços aumentados estratosfericamente com o decorrer de anos, enquanto outros simplesmente valem uma fração do que valeriam à época em que foram lançados... Raridade? Especulação? Fama do autor? Importância literária? Sabe Deus...



