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    Marx e Engels como historiadores da literatura (Biblioteca Lukács) -

    György Lukács

    Boitempo Editorial
    2016
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-13: 9788575595176
    Português Brasileiro
    4.5
    2 avaliações
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    Marx e Engels se ocuparam a fundo dos problemas da arte e da literatura, mas não chegaram a publicar escritos abordando o tema de maneira sistemática. Nesta obra, o filósofo húngaro György Lukács realiza um trabalho magistral de destrinchar e examinar o tratamento que os fundadores do marxismo dedicaram ao tema da estética. Referência fundamental para pensar o imbricamento entre estética e política, os escritos reunidos em Marx e Engels como historiadores da literatura revelam a percepção inaugural que o pensador húngaro tem da estética marxista. Ao se debruçar sobre as análises que Marx, Engels e Lenin fazem da literatura e da arte, o livro debate o papel do artista e da estética na sociedade iluminando uma discussãodensa que envolve, entre outras questões, a estética nas obras de pensadores importantes como Schiller, Hegel e Theodor Vischer. Nas palavras de Hermenegildo Bastos, que assina o prefácio do livro, “A certeza de que na obra de Marx há in nuce uma estética contrapôs Lukács aos marxistas contemporâneos dele. Em vez de acrescentar à obra de Marx uma estética elaborada por outro pensador, - como Kant, por exemplo -, cabia aprofundar as geniais observações feitas por Marx sobre a arte e literatura.” O livro é composto de quatro artigos escritos entre 1931 e 1940 em que Lukács procura demonstrar que, embora de um modo não sistematizado, nas reflexões de Marx e Engels estão presentes os traços essenciais do fundamento de uma estética de cunho primordialmente realista. O primeiro artigo apresenta pormenorizadamente a discussão de Marx, Engels e Lassalle em torno da peça teatral Sickingen, composta por Lassalle e enviada por ele para apreciação de Marx e Engels. O segundo faz um panorama histórico da atividade de Engels como crítico literário, desde os anos de estudante até os anos da maturidade. O terceiro artigo analisa a fundo a crítica de Marx à decadência ideológica da burguesia no seu tempo após 1848. O quarto e último artigo inspira-se em Que fazer?, de Lenin, analisando a contraposição entre tribuno e burocrata e aplicando-a ao campo artístico, em especial ao da literatura. Esta primeira edição brasileira, traduzida a partir do original por Nélio Schneider com revisão técnica e notas da edição feitas por José Paulo Netto e Ronaldo Vielmi Fortes (coordenadores da Biblioteca Lukács na Boitempo), conta ainda com um apêndice inédito disponibilizando a própria correspondência entre Lassalle, Marx e Engels sobre a peça Sickingen.

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    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino29/09/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Dentre a imensa fauna marxista, com todas as apresentações e propostas possíveis, acho que Lukács se destaca. Mesmo deixado um pouco de lado ultimamente, apenas por sua influência decisiva sobre os frankfurtianos, já deveríamos olhar esse filósofo húngaro mais detidamente. No entanto, sua importância não se resume àqueles que influenciou e sim a sua própria obra e os caminhos que soube descobrir para o advento do socialismo. Lukács, que eu saiba, foi o primeiro a tentar sistematizar uma reflexão sobre a literatura dentro do marxismo. E o fez com enorme competência. Esse pequeno livro serve de introdução ao tema dentro do marxismo e ajuda a situar o leitor em relação a essa importante corrente de interpretação da arte hoje em dia. Além disso, a partir desse texto podemos refletir sobre o conceito marxista de obra de arte e como isso ajuda a elucidar uma questão importante em nosso país nos últimos tempos. Me refiro à polêmica sobre a exposição Queermuseu do Banco Santander e ao debate que se iniciou a partir de seu cancelamento. As críticas de Marx e Engels à literatura poderiam ser resumidas ao seguinte ponto: a arte que não promove a consciência de classe está, mesmo que inconscientemente, à serviço da burguesia e sua dominação ideológica. Naturalmente que existem gradações nessa afirmação, como o próprio Marx, ao elogiar Balzac, procurando mostrar que ele fazia o serviço de denúncia das contradições do capitalismo, mas não chegava a sua fonte. O mesmo se pode dizer de outro autor que ganhou a aprovação da esquerda, Charles Dickens. No caso desses autores, mesmo não sendo declaradamente de esquerda (no caso de Dickens sequer colocar a questão já seria meio absurdo), o tema e a maneira como o desenvolvem fazem supor uma pseudocrítica social. Ao menos a descrição da miséria, que Dickens sabe fazer como poucos, está ali para alimentar o imaginário da esquerda marxista e fazer pensar que se trata de uma denúncia. Embora o caso não seja esse, evidentemente. Não vou me alongar sobre a discussão a respeito de Dickens, mas é um caso claro de falta de compreensão de um autor, ou de uma tentativa de forçar um novo entendimento a ponto de se modificar sua classificação no futuro. Há uma passagem muito significativa, me parece, onde Lukács diz que “notar tudo e amar a vida é um paradoxo, uma contradição dialética, que, no entanto, por muito tempo foi capaz de exercer um efeito frutífero e criativo. Somente quando ela se aprofunda em uma alternativa excludente, surge o dilema trágico para os escritores, começa o período trágico da arte.” (p. 180). Ou seja, o escritor, como todos mais envolvidos com o pensamento, deve exercer sua atividade em nome de expor esse ponto nevrálgico na realidade. Balzac, apesar de seu grande talento, de suas descrições apuradas, ainda não havia sido capaz de transpor essa barreira. Mas há outro ponto interessante nessa passagem. A afirmação de que amar a vida e ao mesmo tempo denunciar sua violência, suas injustiças não pode ser considerado pensamento, não é uma postura válida. O trecho tem o fedor do ressentimento que alimenta o socialismo; crítica que Nietzsche já sabia fazer mesmo sem conhecer os marxistas de hoje. Não é possível amar a vida, na visão de Lukács, porque tudo se resume à luta de classes, à mais-valia, à contradição entre capital e trabalho, não havendo espaço para mais nada que não seja fomentar a revolução, a superação dessa luta. É um ponto importante, porque quando Lukács diz arte, tem isso em mente. E quando critica um autor, novamente é a partir desse critério. Fica evidente que tudo o que se deve fazer é lutar para a concretização da revolução. A obra de arte é uma ferramenta para a revolução, nada mais. É um critério curioso, porque a avaliação sobre o que é revolucionário e ajuda a criar consciência de classe parece um pouco maleável demais. É fato que tanto Marx quanto Engels fizeram críticas avassaladoras a grandes nomes e pouparam outros que não sobreviveram à posteridade; mas apelar para algo que seja inerente à arte é ceder, segundo eles, ao imaginário da burguesia, que fez surgir a “aura” (uso o termo de Walter Benjamin) para explicar algo que não tem sentido racional algum na arte. O critério marxista procura introduzir algo de mais concreto nesse sentido. Ora, isso se explica porque se voltarmos à “Ideologia Alemã” onde são as condições materiais de existência que definem nosso modo de vida e a visão de mundo, veremos que Marx e Engels excluem completamente o que chamam de idealismo (e sua crítica aos outros socialistas é justamente por supostamente se deixarem contaminar por ideias que não tem correspondente na vida material das pessoas). Esse ponto de vista, dizer que tudo na existência humana remete a algo concreto, rechaçando qualquer noção contrária como ideologia da classe dominante, permite aos autores abolir de seu horizonte categorias como beleza, profundidade, etc, tão comumente associadas à análise da arte. Tudo não passa de ideologia, resta apenas aquilo que conduz ao desenvolvimento da consciência de classe. Antes de me referir ao caso da exposição, é preciso lembrar aquilo que Eric Voegelin descobre sobre as origens do pensamento revolucionário. Ele tem origem em seitas gnósticas que se permitiam qualquer absurdo, porque estavam imbuídas da salvação e, por essa razão, não podiam estar erradas em suas suposições e atitudes. A salvação futura servia como absolvição dos pecados cometidos agora, nessa vida. Segundo o filósofo, essa mentalidade corresponde diretamente ao revolucionário moderno. Ele se permite de tudo, não adianta avisarmos sobre as consequências reais de suas ações, porque se acredita dotado de uma salvação futura e tudo o que faz deve apenas ser julgado em relação a esse futuro. Outro elemento decisivo é a crença do revolucionário da imanência, ou seja, não há um paraíso no céu onde ele almeja viver. Mesmo que projete para o futuro distante, seu paraíso deve acontecer necessariamente na terra, logo, suas ações contribuem para seu advento. Se a arte, para entrarmos no tema da exposição olhando através dos instrumentos fornecidos por esses autores, só pode ser assim denominada se provocar reflexões e contestar os valores estabelecidos, é óbvio que podemos começar a entender o choque de concepções no caso. De um lado, havia pessoas que entendiam que a arte eleva o espírito de alguma forma, que não necessariamente deve ter uma utilidade prática. De outro, pessoas que acreditam que a arte deve promover o debate e contestar a suposta ideologia dominante. Isso significa, como já destaquei, que pode ser horrível, que pode ser uma lata contendo merda, desde que sirva para contestar os valores dominantes. Essa é a explicação, ao menos num primeiro momento, de por que pessoas saíram em defesa daqueles rabiscos. E também o que os autores pretendiam com tais obras. Isso posto, Engels insistia que uma análise verdadeiramente dialética da arte, deveria atentar sobre o conteúdo da obra e como ele revela as contradições do capitalismo, contribuindo para desenvolver a consciência. A tal exposição atendia perfeitamente a esses critérios. O que eles consideram como consciência era plenamente contemplado ali; havia, inclusive, um espaço para que as crianças tocassem umas às outras, na tentativa de desenvolver o entendimento sobre as relações de gênero. O script todinho estava montado. Não é de estranhar que a esquerda em bloco tenha lamentado a reação da sociedade dita reacionária. Para eles isso é arte em estado bruto. Para reforçar: a arte deve contestar e ajudar a derrubar a ideologia da classe dominante, inclusive a religião e os valores familiares, etc, essa era a intenção da exposição e para a esquerda esse foi e continuará sendo o único conceito possível de arte. E, para entender a referência a Voegelin, para a esquerda não há limites no caminho para a revolução, pode-se usar de tudo, até mesmo de incitação à pedofilia, blasfêmia, satanismo, zoofilia ou qualquer outra coisa que esteja à mão. Tudo é justificável pela pureza do paraíso que está sendo construído dessa maneira. Como se diz, “de boas intenções...” Lukács ainda procura estabelecer diferenças entre a arte sob o capitalismo e sob o socialismo. Lembrando que ele cita a famosa passagem em que no comunismo todos poderão ser poetas e tudo o mais, porque a divisão capitalista do trabalho será extinta (talento, vocação, inclinação são todos termos burgueses, como se sabe, e não se pode questionar se todas as pessoas terão capacidade de compor versos e pintar quadros, ou pescar). No comunismo não haverá a noção de autor criador, mas sim de obra socialmente construída, colaborativa. Novamente, Benjamin ajuda a elucidar esse ponto. Há um texto onde procura mostrar que na URSS o conceito de autor estava sendo abolido. E Lukács trabalha no mesmo sentido: “(...) suas raízes residem no ser social de artistas singulares, nos resquícios da divisão capitalista do trabalho, que, como vimos, produziu a separação entre o artista e a vida da sociedade, a falsa ‘especialização do caráter artístico’. Essa divisão do trabalho foi destruída desde a base pela vitória do socialismo — mas isso não significa que seus vestígios no ser e na consciência tenham sido liquidados em toda parte e de forma cabal.” (p. 199). Quando comenta temas complementares, não se pode deixar de notar algo se tornou o padrão na esquerda: se algo não dá certo é exclusivamente por interferência ou resquício do capitalismo. É assim que justifica a presença absurda da burocracia na URSS. Termo que tem o significado que conhecemos normalmente, mas também algo quase metafísico, que representasse a essência do capitalismo e ainda persistiria no comunismo apenas por atavismo. Essas passagens são bastante curiosas, porque não há qualquer explicação do sentido dessas afirmações. Seguindo o rastro de Lenin, faz a crítica da burocracia, mas não consegue deixar claro sua intensa relação com o capitalismo ou porque não deveria existir sob o comunismo (embora a resposta padrão seja conhecida de todos: não haveria necessidade de burocracia, porque seria um regime de participação direta). Mas isso realmente não está claro no texto. De modo que, dada a importância da obra de Lukács, que pretendo estudar com profundidade de agora em diante, não deixam de soar ingênuas essas afirmações. A defesa das posições de Stálin, a defesa absurda da noção de que autoria é algo que veio com a ascensão da burguesia, ou mesmo a repetição automática de que sob o comunismo todos poderiam ser poetas, não pode deixar de chamar a atenção. Nada disso desabona o pensamento do autor, no entanto. Lukács, como já disse, muda o rumo da reflexão e sua teoria sobre os gêneros literários e sua relação com a característica da sociedade é algo de relevante.

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    György Lukács

    Foi um dos mais influentes filósofos do século XX, além de crítico literário e político. Pioneiro na teorização marxista da Estética e da Ontologia, trabalhos de sua maturidade que diferem muito de seus de juventude, dedicado à consciência, reificação, etc.

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    György Lukács