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    Bichos-papões anônimos -

    Pascal Bruckner

    Rocco
    2001
    126 páginas
    4h 12m
    ISBN-10: 8532512429
    Português Brasileiro
    3.7
    32 avaliações
    Leram51Lendo2Querem27Relendo0Abandonos0Resenhas2
    Favoritos1Desejados27Avaliaram32

    Balthus Zaminski é um bicho-papão muito especial. Bonito, inteligente, rico, sensível. Só que, como todo bicho-papão que se preze, adora comer criancinhas. Transforma-se até em um sofisticado cozinheiro, criando receitas e descobrindo os segredos da arte de preparar os pirralhos: o peso e a idade ideal de um bebê para um saboroso guisado, as diferenças de sabor entre um menino e uma menina, entre um loiro e um moreno, os melhores pedaços de uma criança e quais devem ser preparados como fricassê, assado ou ensopado. Enfim, um expert no assunto. Só que depois que seu pai morreu, Balthus ficou entregue aos cuidados de Carciofi, um antigo empregado que ganhou plenos poderes para educar o pupilo. E o tutor nunca aceitou o regime alimentar do rapaz. Este até que tentou mudar seus hábitos: fez dieta vegetariana (aaaargh!), psicanálise, entrou para Os Papões Anônimos – uma associação muito parecida com Alcoólicos Anônimos –, arranjou uma namorada. Tudo em vão. Parece que deixar de ser papão é mais difícil do que abandonar o cigarro. A narrativa de Pascal Bruckner em Bichos-papões anônimos é tão saborosa e chocante como seus conselhos sobre a arte de preparar bebês. Com um pé no surrealismo, desenvolve um conto à maneira das histórias infantis, mas sem preocupações moralistas ou didáticas. Mesmo assim, o autor do premiado ensaio A tentação da inocência e do instigante Lua de fel, transformado em filme por Roman Polanski, não esquece suas críticas amargas ao individualismo contemporâneo, ao medo e à fraqueza, como formas de recusar a maturidade, à confusão entre liberdade e capricho. A sátira ferina do escritor à sociedade também está presente no segundo conto, O apagador, que nos remete a um tema brilhantemente questionado no romance Ladrões de beleza: a formosura e a juventude podem ser consideradas uma afronta merecedora de punição? O protagonista, Paul Folcone, é um químico velho, feio e infeliz, que odeia tudo aquilo que seja belo e feliz. Um dia, por acaso, descobre uma fórmula capaz de apagar a beleza. E começa a usá-la nas crianças de seu bairro, apagando seus rostinhos sorridentes. Quando a receita falha com um menino, chega a hora de Folcone reavaliar seus valores e sua vida. Um fio de esperança na compaixão humana mostra um lado terno e menos cético do brilhante romancista e ensaísta.

    Resenhas (2)Ver mais
    Gabriel Perissé picture
    Gabriel Perissé28/10/2009Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Medo de bicho-papão

    É para ter medo. Bicho-papão existe e come criancinha. Pascal Bruckner conhece o esquema do bicho e o que ele gosta de papar. Com requinte. O livro não traz esperanças. Ser bicho-papão é uma fatalidade. Encontrar-se com ele, uma infelicidade. Todo o cuidado é pouco! Gabriel Perissé www.perisse.com.br

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    3.7 / 32
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    Pascal Bruckner profile picture

    Pascal Bruckner

    é um escritor consagrado, com mais de 15 livros importantes publicados e traduzidos em vários países. Analista de temas de impacto no cotidiano das sociedades pós-modernas, hipermodernas ou da modernidade tardia, ele só poderia figurar na seleta lista de palestrantes do ciclo Fronteiras do Pensamento, com apoio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Bruckner fez parte do chamado grupo dos “novos filósofos", junto com Alain Finkielkraut, Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann, uma turma de pensadores, “filhos de maio de 1968", que atacou o marxismo, o estruturalismo e os totalitarismos de esquerda e de direita num tempo em que as ditas utopias revolucionárias ainda incendiavam a imaginação de estudantes e de intelectuais dispostos a mudar o mundo. Um dos seus temas mais relevantes é o do culto à felicidade. Em A euforia perpétua, ensaio sobre o dever da felicidade (2002), ele investiu contra um dos pilares do senso comum pós-1968: o imperativo categórico, a obrigação de ser feliz, um imaginário que gera frustração e depressão. Essa perspectiva também é sustentada por outro filósofo francês, Gilles Lipovetsky, em A sociedade da decepção (2008), e pelo célebre romancista Michel Houellebecq em Extensão do domínio da luta (2002). Bruckner está em sintonia com o seu tempo e com a sua cultura. Se antes de 1968 as noções de dever e de sacrifício determinavam os comportamentos e produziam infelicidade, depois das revoltas estudantis que abalaram o mundo, impôs-se uma espécie de liberação total e de obrigação de satisfazer todos os desejos. A mídia passou a ter papel determinante na produção e consolidação dessa visão de mundo. Não ser feliz, conforme os padrões dominantes, tornou-se sinônimo de fracasso e de crise existencial. Bruckner usa a ficção e o ensaio para pensar sobre problemas contemporâneos. Não teme fazer uma ficção ensaística. Já ganhou importantes prêmios literários franceses como o Médicis (1995) e o Renaudot (1997). O que é a felicidade? Como encontrá-la? O que fazer com ela? Pascal Bruckner indica que as pessoas têm dificuldade para definir felicidade, o que as deixa confusas em relação ao que buscar, ficam apáticas depois de conquistar alguma das supostas marcas da felicidade e desenvolvem temores de todo tipo, tornando-se frágeis por medo de perder, de não estar à altura das expectativas sociais e por comparação com outras pessoas pretensamente mais felizes. A felicidade teria passado a ser um atestado de êxito na sociedade. Não ser feliz equivaleria a não ser bem-sucedido, a ser um fracassado. Outro tema recorrente de Pascal Bruckner é o amor. Em O Paradoxo Amoroso - Ensaio sobre as Metamorfoses da Experiência Amorosa (2011), ele sustenta que os amantes de hoje sofrem por excesso e não por falta. Quando tudo se torna possível e permitido, diariamente estimulado, a rotina e o tédio espreitam cada romance. Como renovar a experiência afetiva num universo de esgotamento das relações pela banalização dos rituais, dos limites e dos sonhos? Michel Houellebecq fala na sexualidade como um sistema de hierarquia social. Não é incorreto sugerir que para Pascal Bruckner a felicidade é um sistema implacável de distinção social com forte influência da mídia e da indústria cultural, temas que têm sido estudados pelos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS nas suas investigações de estudos culturais, imaginário e espetacularização da sociedade. O professor Francisco Rüdiger, por exemplo, é autor de O amor na mídia – problemas de legitimação do romantismo tardio (2013), obra na qual aborda a procura incessante das pessoas pelo bem-estar orientado, essa era do terapêutico, do desenvolvimento pessoal, dos manuais de autoajuda e do culto ao corpo perfeito e da obrigação de realizar-se inteiramente. De maneira sutil, Pascal Bruckner relança uma velha questão: tudo na vida se tornou, como denunciava Guy Debord, mercadoria? A felicidade é um produto a ser comprado e consumido?

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    Pascal Bruckner