Da Tranquilidade Da Alma - Série L&PM Clássicos -

    Sêneca

    L&PM
    2013
    138 páginas
    4h 36m
    ISBN-13: 9788525430021
    Português Brasileiro

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    Lucio Antônio de Oliveira19/06/2019Resenhou um livro
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    Solidão, Companhia e Virtude na Busca da Felicidade

    São três livros. Na ordem: Da Vida Retirada; Da Tranquilidade da Alma; Da Felicidade. São livros aparentemente fáceis de serem lidos, mas se não houver suficiente treinamento em filosofia antiga pode-se perder conceitos sutis em meio à agradável e fluida leitura. Sêneca, por exemplo, está muito cônscio das tradições que o precediam, dialogando especialmente com Epicuro por um lado e Platão, Zenão e Crisipo da perspectiva estoica. Há menção também há muitos elementos históricos da antiguidade, e outros sábios - inclusive Diógenes, Heráclito e Demócrito. Para quem esses nomes são novidade pode haver alguma perda. Além do mais, nos pareceu menos claro na exposição da doutrina estoica do que o Aprendendo a Viver. Evidentemente, vale-se de conceitos trabalhado em outras obras que aqui são mencionados de forma mais breve. Nossas críticas se restringiriam às nossas diferenças com o próprio estoicismo, o que não cabe aqui igualmente. Embora sejam livros distintos, apresentam alguma analogia de pensamento. No primeiro, Sêneca defende que pode haver grande utilidade na vida retirada, inclusive para o homem dotado de ação - como prescreve a filosofia estoica, que nos direciona a sempre praticar o bem ao próximo. A saber, o sábio que cuida de si mesmo em solidão pode se tornar, no mínimo, um bom exemplo para os demais, como que lhes inspirando à virtude. Mas, em situações favoráveis, pode se tornar um grande orientador de toda a sociedade, subtraindo-lhe os vícios e infundindo-lhe virtude. De fato, o sábio deverá julgar onde é mais útil, e até mesmo se as condições são favoráveis para a vida pública. Se julgar que sim, mas for impedido, deverá buscar uma forma de ajudar e, certamente, ser sábio e virtuoso é de grande valor. No segundo livro, temos a carta de Sereno que, embora se veja não dominado pelos vícios, não se vê também tendo dominado a si e, de fato, embora pratique o retiro para a meditação e ame a humildade e o fazer o bem (embora tenha, em alguns aspectos, algum apreço pela pompa), sente-se intranquilo, angustiado. Sêneca passa a analisar sua situação. Para o filósofo, trata-se de uma situação em que o indivíduo de ação não consegue satisfazer seus desejos e nem dominá-los e, então, se frustra. Busca a reclusão, mas ela é forçada e não produz o que ele deseja. Antes, o enfada e logo ele começa a invejar o sucesso alheio. Sobra-lhe a autocomiseração e, depois, a tentativa de experimentar novidades até que se alcance o tédio e, por fim, a morte. É preciso, pois, buscar a verdadeira tranquilidade. Aqui, segue-se uma série de recomendações morais. Sêneca propõe a vida retirada útil, o ócio criativo, o 'otium cum dignitate'. Também recomenda um conhecimento de si e objetivos realistas e bem definidos. Recomenda as boas companhias, a companhia de pessoas nobres. Também lhe instrui ao desapego para com os bens materiais, bem como a alternância entre vida pública e privada, de modo que uma cure os males da outra. Há, evidentemente, uma instrução estoica de 'resignação alegre' diante dos infortúnios e uma realista percepção de que os males lhe podem ocorrer e da percepção de que a nossa própria vida nos é uma dádiva da qual não podemos reclamar. Por fim, no último livro, Sêneca orienta Galião à busca de uma vida virtuosa, seguindo, assim, a razão que, por sua vez, é adequada à natureza. Isso inclui a moderação nos prazeres, que não podem ser nossos guias. É preciso ser moderado e desapegado, não dando às riquezas ou a quaisquer coisas que nos escapem pela fortuna o fundamento da felicidade. A felicidade deve ser o próprio desfrute das virtudes. Sêneca, aqui, gasta um tempo distinguindo a virtude do prazer, observando que este é volúvel e aquela não, bem como esse é insaciável e provoca a desarmonia na alma, ao passo que a virtude a harmoniza e nos faz experimentar tranquilidade. A última parte desse livro é especialmente interessante, pois Sêneca lida com a acusação de incoerência entre sua vida e seus dizeres, bem como aconteceu aos filósofos que o precederam. Para responder, corrige algumas concepções erradas, como a de que ele estivesse pregando a pobreza, e não o desapego. Mas, no mais, diz que toda essa crítica é maledicência de quem tenta encobrir suas próprias culpas achando algum pequeno deslize nos mais nobres. O fato é que os filósofos recomendam o que deve ser, não o que eles mesmos são, embora Sêneca os defenda próximos aos seus discursos.

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