Em 1981, Foucault profere no Collège de France um curso que marca uma inflexão decisiva em seu pensamento e no projeto de uma história da sexualidade esboçado em 1976: o estudo da experiência sexual na Antiguidade, o que vai possibilitar seus novos desenvolvimentos conceituais. O foco é estabelecer que a imposição de uma escrupulosa e interminável hermenêutica do desejo é invenção do cristianismo.
Subjetividade e Verdade - Curso no Collège de France (1980-1981)
Michel Foucault
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Ver maisCasamento e sexualidade na Antiguidade
Em 1980, Foucault inicia sua pesquisa acerca das técnicas de si. O curso "Subjetividade e verdade" vai dar início a essa extensa pesquisa, que resultará em outros quatro cursos ("Maldizer, dizer o verdadeiro", "A hermenêutica do sujeito", "O governo de si e dos outros" e "A coragem da verdade"), além da série de livros intitulados como "História da sexualidade", com exceção da Vontade de saber. O que está em causa nessa série de pesquisa é entender "como, em diferentes momentos e diferentes contextos institucionais, o sujeito foi estabelecido como um objeto de conhecimento possível, desejável ou mesmo indispensável" (p. 268). Para tal empreitada, Foucault vai ter como fio condutor da sua pesquisa o que ele irá chamar de técnicas de si, a saber, "os procedimentos, que sem dúvida existem em toda civilização, que são propostos ou prescritos aos indivíduos para estabelecerem sua identidade, mantê-la ou transformá-la em função de certos fins, e isso graças a relações de domínio de si sobre si ou de conhecimento de si por si" (Ibidem). Para além do "conhecer a ti mesmo" (Gnõthi Seauton), é preciso saber o que fazer de si mesmo, ou seja, é preciso trabalhar sobre si, é preciso se governar. Foucault toma Alcebíades como ponto de partida para abordar a questão do "cuidado de si" (epiméleia heautoû) na antiguidade grega. Essas técnicas de si, que estão presentes em todas as civilizações, sofrem um série de modificações desde Sócrates. Nesse curso, Foucault investigará "as técnicas de si da Antiguidade através do filtro do casamento e da sexualidade" (p. 286). Na Grécia clássica e na Roma republicana, o casamento era um ato privado, que dependia apenas da família. As regras eram estabelecidas por cada família, por suas necessidades econômicas e sociais. Ou seja, não era uma instituição jurídica como conhecemos hoje. Tampouco era algo popularmente aderido. Além disso, a instituição matrimonial era pouco aderida, sobretudo pelas elites greco-romanas. Isso acontecia porque, como um ato privado entre famílias, a prática matrimonial era bastante limitada, já que atendia apenas a objetivos e táticas privadas. Era, portanto, um sistema limitado de alianças que tinha por objetivos transmitir bens e perpetuar uma casta. Dessa forma, a estratégia matrimonial só tinha algum sentido para quem tinha bens e um nome para ser transmitido, ou seja, o casamento era uma prática de elite. A adesão do casamento só irá se popularizar no século lll antes de nossa era, principalmente após o período augustal e sua nova legislação matrimonial. As leis augustais teve um papel importante para a publicização dessa transação que era até então privada e, também, para a modificação dos princípios morais que a cercavam. A ética dos aphrodísia (dos prazeres, das atividades sexuais) também irá se modificar nos códigos de conduta dos estoicos e depois, mais radicalmente, com a concepção de carne cristã. Para os estoicos era fundamental o domínio desses aphrodísia. Temos aqui certa mudança do autodomínio que encontramos na antiga moral. Até então, não estava em questão o domínio do desejo, mas mostrar que você possuía certo domínio sobre ele. Na nova moral não se trata apenas do domínio que você tem sobre o seu desejo, sobre essa epithymía, mas a própria anulação dele. Ou seja, trata-se de arrancar de si a epithymía. Não é como Sócrates que, mesmo desejando, conseguia resistir a esse desejo. Estamos mais próximos de Epicteto, "que ao ver uma bela mulher ou um rapaz bonito não sente mesmo desejo algum" (p. 239). Vemos esse mesmo código moral se estender nas condutas cristãs, porém o discurso dos aphrodísia desaparecem. A concepção de carne e concupiscência cristã tomam seu lugar nessa nova forma de ascese. . Os cursos ministrados por Michel Foucault no Collège de France tinham por função expor uma pesquisa original. Era uma forma de dar notícias sobre o que estava sendo pesquisado. O curso foi transcrito pelas gravações feitas por Jacques Lagrange e pelos dossiês, concedidos pelo companheiro de Foucault, Daniel Defert. Segundo Frederic Gros, o responsável pelo estabelecimento dos cursos, não houve grandes dificuldades nas transcrições, já que Foucault lia escrupulosamente os dossiês antecipadamente redigidos para cada curso. Não havia muita improvisação.
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