Explicações nos pormenores de Nietzsche sobre a sua insurgência contra Wagner. Eis aqui presente, nessa edição que contém duas obras ("O Caso Wagner" e "Nietzsche Contra Wagner"), as motivações que levaram Nietzsche a se afastar de Wagner. Ao seu próprio e característico modo, Nietzsche explana as razões da polêmica com Wagner, abordando as questões artísticas e filosóficas que o levaram apontar Wagner como um negador da vida, desmerecedor daquela seu encanto de outrora.
Nietzsche inicia (em "O Caso Wagner: um problema para músicos") sua escrita pontuando que o filósofo deve exigir de si mesmo a superação em si seu tempo, ou seja, tornar-se atemporal. Vejo que assim o faz para embasar os aspectos que culminaram na sua mudança de visão para com Wagner.
O filósofo ataca veementemente a pessoa e a produção de Wagner: "Wagner é realmente um ser humano? Não seria antes uma doença? Ele torna doente aquilo em que toca - ele tornou a música doente". Para Nietzsche, portanto, a arte de Wagner é doente. Wagner, em sua produção artística, negaria a vida, seria a decadência do arte. O convencimento e encanto que conseguiu teria se dado, entre outros fatores, pelo fato de que a arte fornece uma lente de aumento, de modo que tudo acaba ficando mais robusto - até mesmo o indigno Wagner. O músico seria um grande ator, e através de sua interpretação, teria conseguido convencer os jovens incautos sobre o efetivo peso de sua produção musical. E, para Nietzsche, o teatro teatro seria uma arte indigna ("No teatro nos tornamos povo, horda, mulher, fariseu, gado eleitor, patrono, idiota - wagneriano"). A música, esta sim, seria uma arte notável e gloriosa. Fazendo as vezes de um ator, atuando em sua música, Wagner teria contribuído para a decadência de sua produção.
Em "Nietzsche Contra Wagner: dossiê de um psicólogo", há a reunião de passagens de Nietzsche onde o filósofo explica de maneira mais pontual suas objeções contra Wagner e as motivações mais explícitas de seu afastamento de Wagner. Na passagem "Como me libertei de Wagner", Nietzsche explica que "foi já no verão de 1876, durante o primeiro Festival, que me despedi interiormente de Wagner. Eu não tolero nada ambíguo; depois que Wagner mudou-se para a Alemanha, ele transigiu passo a passo com tudo o que desprezo - até mesmo o antissemitismo".
Uma obra essencial para compreender as razões (profundas) do afastamento de Wagner por Nietzsche. A filosofia nietzschiana se faz evidentemente presente em todas as passagens desse pequeno livro. O filósofo do martelo destruindo um antigo ídolo. Leitura necessária para os estudioso de Nietzsche.
A edição conta ainda com interessantes "bônus", dentre os quais algumas cartas de Nietzsche sobre os dois livros, e ainda uma entrevista com Curt Paul Janz (especialista em estudos da vida e obra de Nietzsche).
Vale conferir!