Tive meu primeiro contato com a obra do Mario Benedetti durante uma viagem ao Uruguai. Comprei dois livros dele, La borra del cafe e La tregua. Apaixonei-me verdadeiramente pela escrita do autor. Desde então, sempre que tenho oportunidade, adquiro livros dele.
A leitura mais recente que fiz dele foi PRIMAVERA CON UNA ESQUINA ROTA. Talvez seja o livro de Benedetti do qual eu mais gostei. O livro retrata um período importante triste da ditadura uruguaia.
Cada capítulo é escrito por um personagem, e o leitor tem a oportunidade de observar o ponto de vista de cada um sobre a situação vivida naquele contexto.
Santiago está preso no Uruguai por ter participado da Guerrilha Urbana. Nos capítulos sobre ele, o próprio personagem fala da dor e da angústia de viver preso, isolado e longe dos familiares e amigos, sem contato praticamente algum com eles.
A esposa de Santiago, Graciela, e a filha Beatriz, além do pai dele, o Don Rafael, são obrigados a deixar o país, vão para a Argentina tentar uma nova vida. É bastante interessante como Benedetti constrói a história através dos relatos, pensamentos e angústias de cada personagem. Do olhar inocente de Beatriz, passando pela falta de crença de Don Rafael na vida e nas coisas até as mudanças internas e a inquietação de Graciela.
A esposa de Santiago não é mais a mesma, tem dúvidas sobre o sentimento que ainda guarda pelo marido. Ela começou a se envolver com Rolando, melhor amigo do seu esposo, que também foi para o exílio com eles. Os dois engataram um relacionamento. Ela confessou tudo ao sogro, que achou por bem não revelar nada nas cartas para Santiago. Era melhor uma conversa olho no olho quando, pois ele não suportaria lá de dentro essa notícia.
Passam-se alguns anos e esse romance é guardado em segredo inclusive da menina.
Sendo ele próprio também um exilado, Benedetti introduz entre os capítulos a sua própria história, de como foram seus exílios durante o tenebroso período. É como se fosse um parêntese da ficção para se conhecer uma história real, do próprio autor, sobre tudo aquilo.
O livro se encerra com Santiago em liberdade e viajando para a Argentina para encontrar os seus, mal sabendo o que lhe espera. Ele vai com o coração cheio de alegria, mas de alguma maneira sabendo que nada será mais como antes.
Graciela, Don Rafael e até mesmo Rolando o aguardam no desembarque. Todos sabem que têm um reencontro e ao mesmo tempo um acerto de contas com aquele passado.