Uma alcatra não tem história -

    Girotto

    cja edições
    2016
    193 páginas
    6h 26m
    ISBN-13: 9788594980021
    Português Brasileiro

    Romance policial passado em Natal com doses de violência mostra as relações de poder que ocorrem assim que morre um engenheiro de classe alta envolvido numa trama onde nada é o que parece cabe ao policial Djalma desvendar a trama.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover

    Similares (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (2)Ver mais
    Jaime Azevedo picture
    Jaime Azevedo17/01/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Carne de papel

    Quem devora livros sabe o sabor de meio quilo de celulose. O cheiro inebriante do papel, a textura quase macia do offset, o som das páginas contra o vento… Não é de se estranhar a confusão recente envolvendo papelão e proteína (de Joesley e sua turma) em um país com índices tão baixos de leitura: de alguma maneira os brasileiros precisam consumir mais livros, nem que seja junto com feijão, arroz e um pouco de molho inglês. Acontece que alguns autores tem a capacidade de antever essas transformações sociais e dietárias criando produtos proféticos. Do título à embalagem (uma bandeja de isopor apropriada para a venda de carne) Uma Alcatra não tem História cumpre o requisito. A carne é dura. E fraca. Girotto é um churrasqueiro rigoroso, por isso não poupa o comensal carnista dos detalhes sórdidos que a literatura policial exige: temos cabeças decepadas, prótese peniana exposta e sangue em profusão. Mas a causa é nobre, quase um filé mignon - ambientar uma história policial em Natal, cidade do Sol e da carne de sol, fundindo geografia e violência em uma narrativa cheia de reviravoltas e poucos mocinhos, mas com vilões em profusão. O grande protagonista é o detetive Djalma Rosa (forte candidato a estrelar uma franquia de livros sobre o crimes em solo potiguar), que investiga duas mortes ocorridas no Campus Universitário e precisa dar conta, em paralelo, da própria vida: a mulher balzaquiana, a amante jovem e grávida e seus traumas da infância de menino pobre. Vilfrido é o parceiro estabanado e politicamente correto que complementa o lado impulsivo do chefe e rende outra subtrama interessante enquanto ambos lutam também contra a corrupção da própria instituição que deveria zelar pelo cumprimento das leis (algo que soa como um clichê mas confere realismo à descrição de qualquer organização atuante em qualquer área no Brasil). Dentro da paisagem urbana do livro o Sol é uma presença constante - sintomático em se tratando da Noiva do Sol de Cascudo. E Natal é, junto com Djalma, a protagonista da história.Mas a Natal do livro é uma cidade imaginada, uma prima ficcional do lugar real que existe para satisfazer às necessidades narrativas do escritor. Quem conhece a cidade vai se localizar mais facilmente dentro da Alcatra, mas ser daqui é opcional: quantos e quantos romances policiais não se passam em Nova York, Boston, Chicago ou San Francisco e vamos lendo sem estranhar? É quase uma lei sagrada da literatura policial o uso do lugar como personagem, e o livro cumpre a legislação com rigor e fúria criativa, utilizando o espaço para temperar o churrascão violento que serve sem pressa. Faltou apenas uma ida efetiva à praia para completar o pacote, um banho de mar, um passeio de bugre... A linguagem é simples e direta, como convém a uma obra do gênero, mas ainda assim rica literariamente, precisa. A leitura é fluida e a profusão de diálogos agiliza o processo de virar as páginas. Cada personagem tem sua fala particular, com nuances próprias e gírias regionais, um trabalho de pesquisa e elaboração que transparece no texto. Os capítulos seguem cada personagem alternadamente, com cortes cinematográficos no andamento da trama. De olho na criação de um universo, Uma Alcatra não tem História referencia a obra anterior do autor, O Espetáculo do Mundo, através de uma personagem, uma marvelizada discreta. Vamos ver como as coisas se desdobram no futuro. Você gosta de um filé bem passado, sem molho? Então passe longe de Alcatra. Aqui a carne é dura e bem assada, com tempero forte e chega sangrando ao prato. Fique atento: o autor se garante no açougue da literatura.

    1 curtida

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 3
    • 5 estrelas33%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas33%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%