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    Risco no Disco -

    Ledusha Spinardi

    Luna Parque
    2016
    60 páginas
    2h 0m
    ISBN-13: 9788569476115
    Português Brasileiro
    4
    25 avaliações
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    Favoritos2Desejados43Avaliaram25

    Um dos livros de poesia mais cativantes da virada dos anos 1970 para os 80 e que marca a estreia da poeta Ledusha. Seus versos saíram do livro e se tornaram slogans de uma geração, como o poema "new-maiacovski": "prefiro toddy ao tédio". Com humor e força singulares, 'Risco no Disco' continua atual.

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    Ana Ribeiro picture
    Ana Ribeiro11/10/2017Resenhou um livro
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    Uma poética de retalhos, humor e corrosão

    Risco no disco é a 2a edição do livro de estreia da escritora Ledusha, pseudônimo de Beatriz Spinardi, e faz parte da coleção 2a edição, onde são editados apenas livros que tiveram uma primeira edição e foram esgotados. Entre a primeira e a segunda edição passaram-se 35 anos, e a diferença entre elas é sutil: na primeira edição a capa tinha um formato semelhante à capa de um disco de vinil atravessado por um risco; na segunda, reproduz apenas afotografia recortada da primeira. A poesia de Ledusha apresenta uma mescla de melancolia com pitadas de humor. Como afirmou Gilberto Vasconcellos no prefácio do livro: “alto astral, a poesia de leda é de um humor incrível e um pouco melancólica”. É com esse senso de humor que o leitor será conduzido a participar do jogo proposto no livro. A brincadeira estabelecida pelo discurso irônico começa desde o título provocativo: risco no disco. Um risco num disco, como se sabe, não é uma coisa nem um pouco agradável aos ouvidos. Pressupõe ruído, desconforto, interrupção, descontinuidade na sintaxe da obra. São vários os poemas que apresentam essas quebras rítmicas, muito comuns na literatura dos poetas da geração marginal, da qual Ledusha é herdeira – aspecto bastante recorrente na poesia contemporânea como um todo, aliás m poema que pode ilustrar essa quebra na sintaxe dos versos é “Amor, a quanto me obrigas”: me desencontro nessa paisagem infernal de vozes agudas enquanto búzios incendeiam os próprios cílios empastelados de tragédia e argentinos. penso nos versos de holderlin que esqueci sobre a mesa do escritório. Vale dizer que a descontinuidade, o estranhamento, não está restrita apenas quanto à disposição dos versos na página, ou das palavras no papel. Risco no disco é uma obra equilibrada, pois tanto a forma quanto o conteúdo expressam o espírito fraturado do poeta e da obra como objeto em si. Ao tratar da poesia de Frank O'Hara, Sergio Alcides afirma que esse autor “soube incorporar à sua escrita a espontaneidade da conversação, da gíria e dos temas 'baixos' de uma cultura industrial, como as pin-ups da propaganda, os astros de filmes B, os refrigerantes e até um intranscendente cheesebúrger”. Não seria exagero dizer que o mesmo se pode afirmar sobre a poesia de Ledusha, pois o que se vê nesse livro é que ela consegue incorporar nos seus poemas os mais variados fatos e acontecimentos do cotidiano, expressos com a língua corrente e coloquial. E o faz com simplicidade e beleza, causando esbugalhar dos olhos de quem os lê. Em “Sem-pique de produções” ela diz: “se um valete de copas chegasse / como anunciou o baralho / num átimo dissesse / vamos / eu não ia / mas dava um realce na barra / e afogava Balzac na pia”. No poema “De leve”, o efeito de humor resulta do trocadilho “lobiswoman”, que subverte a noção de gênero - temática social bastante cara as mulheres, que é a questão do feminismo. Como na língua portuguesa não existe palavra feminino correlata para lobisomem, a poeta inventa uma. Pode-se dizer que a poesia de Ledusha é híbrida e forma um baralho poético repleto de atravessamentos. Pois só a palavra parece não dar conta do que se quer dizer. Afetações diversas são incorporadas a fim de expandir os efeitos de sentido. São elementos que vão desde uma fotografia de um filme a recortes de letras de canções, referências de outros textos são convocadas a todo instante. Apesar das interferências, o fluxo não para. Quem se aventurar na leitura de Risco no disco irá se deparar com uma poética leve, irreverente e descompromissada com padrões normativos. Os elementos estilísticos costuram uma espécie de bricolagem – algo semelhante a uma colcha de retalho. Vejamos como isso aparece no poema “Felicidade”. nada como namorar um poeta marginal incendiado nada como um mingau de maisena empelotado de tanto amor acumulado uma casinha em botafogo um quarto uma eletrola & depois da praia sonhar que a bossanova voltou pra ficar eu você joão girando na vitrola sem parar Nesse poema, é notável o diálogo estabelecido com ícones da cultura musical brasileira. Ou seja, ao enunciar o sonho de retorno da Bossa Nova através dos versos “que a bossanova voltou / pra ficar eu você joão / girando na vitrola sem parar”, Ledusha faz todo um movimento de recuperação discursiva, ao se apropriar, explicitamente, do texto do outro. Imediatamente os versos conduzem o leitor a estabelecer conexão direta com Caetano Veloso, João Gilberto e Antônio Carlos Jobim. Em meados dos anos 1967 e 1968, durante apresentações na Boate Sucata, Caetano Veloso já tornava pública a canção “Saudosismo”, na qual fazia referências ao álbum Chega de Saudade, de João Gilberto. Dizia Caetano: “Eu, você, João / Girando na vitrola sem parar”, “A felicidade a felicidade / A felicidade a felicidade”. De onde se pode depreender que até mesmo o título “Felicidade”, que dá nome ao poema de Ledusha, foi tomado de empréstimo da canção composta por Caetano. Lembrando ainda que em 1959, na canção “Fotografia”, Tom Jobim já havia cantado: “Eu, você, nós dois /Aqui neste terraço à beira-mar”. A melancolia ocorre por meio de doses bem pequenas, e se dá mesmo é pelo viés do humor corrosivo. Pode ser expressa por versos como “quipenélopesinforcounopróprio / desejo” e “Rio, butique do tédio”, ou em “esfaqueou a madrugada / com os olhos em chamas / saiu ventando dizendo / barbaridades / que ia sinforcar”. Além de poeta, Ledusha é compositora e jornalista. Nasceu em Assis, São Paulo, vindo para o Rio de Janeiro em meados da década de 70. Juntou-se ao time de poetas “marginais”, agrupados na coleção “Capricho”, composta por Francisco Alvim, Ana Cristina C., Pedro Lage e outros. A participação de Ledusha e dos demais poetas de sua geração na coleção Capricho permitiu que, pela primeira vez, estreitassem os laços com a indústria dos livros, procurando dar melhor trato, haja vista que “os livros de agora estão mais bem cuidados do que os das primeiras coleções, que tinham aspecto excessivamente improvisado, muitas vezes desleixados” (VEJA, 20/5/1981). A primeira edição do “Risco no disco” saiu de forma independente. Na década de 90, Ledusha escreveu no caderno Mais! do editorial Folha de S. Paulo, cuja coluna recebeu o nome homônimo do livro, “Risco no Disco”, lançado em 1981. Como compositora, escreveu canções em parceria com Francis Hime, Bebel Gilberto, Cazuza e Lobão, entre outros. São também de sua autoria os livros: Finesse e Fissura (Ed. Brasiliense), de 1984, 40 Graus (Ed. Francisco Alves), de 1990. A segunda edição de Risco no Disco, lançado em 2016, saiu por conta e risco da Luna Parque Edições, criada pelo casal de poetas e também editores, Marília Garcia e Leonardo Gandolfi, que trabalha com edição de livros em tiragens pequenas, em torno de cem e 250 exemplares, e em formatos de livros artesanais. Outro poema que traduz o espírito da bricolagem, pelos fragmentos que o poema evoca, é “Eletricidade”: Como numa amorosa cantiga hoje com aquele espanto da primeira dor acordei chorando rodando o apartamento uma entrevista de Godard na mão três fantasias na cabeça o teto tão baixo fui até o centro lírico ulisses devorador de milk shakes em passos rápidos dizia pro espelho das vitrines alô marina vlady imitando aquele jeito do cabelo alto-falantes das lojas me arrepiam se alguém tocar seu corpo como eu não digo nada por pouco não me sinto enamorada aí soprando um café de máquina com uma voz do rei na barriga caetano no coração um espelho caixa de contatos mistérios no elevador assobio uma canção me consola enquanto mamãe faz tricô penélope distraída preciso sair de casa dar um rolé nessa incompetência botar aspas nesse princípio do praser que sem espaço impossível ser poeta quando muito ressentido pois o mais não são nuvens e sim pensamentos encobertos por detalhes encalhados. Nesse poema, Ledusha invoca elementos da cultura musical e cinematográfica. Referências ao Rei Roberto Carlos, Godard e Caetano Veloso são explícitas. O sujeito poético se diz com “o rei na barriga e caetano no coração”. O verso, “assobio uma canção me consola enquanto mamãe faz” não deixa dúvida de que o intertexto é com a canção “Alegria, Alegria” - ícone do movimento tropicalista. A configuração do poema sugere que Ledusha está seguindo a mesma estética utilizada por Caetano. O poema é um verdadeiro milk-shake, cujo conceito pode ser estendido para toda a obra. Ledusha mistura o pop, o Rock, a Bossa Nova e tudo mais que vier. No último poema do livro ela dirá: “caso mme bovary com nelson rodrigues /e estamos entendidos”, assim como Caetano pode misturar Brigitte Bardot, Coca-Cola, fuzil e escola. No poema “new-maiakóvski” de um único verso: “prefiro toddy ao tédio”, bastante conhecido por ter sido estampado em camisetas usadas por Cazuza, Ledusha cria um efeito poético interessante utilizando duas palavras sem qualquer relação semântica. “Por que não?”, interrogaria Caetano.

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    Leda Beatriz Abreu Spinardi profile picture

    Leda Beatriz Abreu Spinardi

    "Spinardi considera-se uma alma carioca. Preferia ter nascido no Rio, onde viveu durante anos e publicou seu livro de estréia, Risco no Disco, de 1981. Apesar disso, mora em São Paulo, onde traduz livros e escreve poesia. Poeta com acento pop, Ledusha é identificada com os autores da chamada poesia marginal carioca, dos anos 70 e 80. Poemas dela foram musicados por gente do rock como Lobão e Cazuza, do pop mais recente, como Bebel Gilberto e Fernanda Porto, e também por emepebistas do porte de Francis Hime. O segundo livro de Ledusha, Finesse e Fissura, saiu em 1984. Depois disso, ela já publicou duas outras coletâneas: 40 Graus (1990) e Exercícios de Levitação (2002). Este título mais recente resultou de uma coluna de poemas, quase sempre em prosa, que a escritora manteve no jornal Folha de S. Paulo, entre 1996 e 2000. Reescritos e depurados, viraram livro. Com exceção do poema "Olhando as Ilhas", que é de 40 Graus, todos os textos ao lado foram extraídos de Exercícios de Levitação. Coerentes com sua origem jornalística, os poemas enveredam, quase sempre, pela crônica poética. É o caso de "Rombos" e "Há". Ambos lançam mão de enumerações para fazer pequenos levantamentos de tipos humanos — o primeiro de mulheres; o outro, de homens. Em "Cena Íntima" e "Retorno", paisagens externas se fundem a estados de alma da poeta para traçar instantes de encantamento ou de reflexão. Em todos os textos percebe-se o olhar penetrante de uma mulher. Às vezes, isso aparece de forma muito explícita, como em "Olhando as Ilhas" ou em "Veleiros Brancos". Em outros casos, a presença desse olhar é mais discreta, mas tenho a impressão de que ele é um dos eixos de toda a obra de Ledusha." Por Carlos Machado. Extraído daqui: http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet146.htm.

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