Cantoria na Floresta não é só para crianças
Olhar para a capa de Cantoria na Floresta, de Cristiane Quintas (com as ilustrações tão vivas de Rivaldo Barboza), nos dá uma sensação gostosa de alegria. Vemos bichos felizes, jacaré e sapo tocando seus instrumentos, celebrando a vida. A música, afinal, é a linguagem da harmonia. Mas, por trás dessa aparente festa, o livro esconde um grito de socorro muito real e urgente sobre o impacto da caçada e do desmatamento. Na vida real, a "cantoria" das nossas florestas está sendo abafada pelo som das motosserras e dos tiros. Quando o homem destrói o habitat natural para abrir espaço ou caça pelo puro prazer do lucro e do comércio ilegal, ele quebra o compasso da natureza. O livro joga luz nessa ferida de forma brilhante e sensível quando traz este desabafo emocionante de um dos personagens: "Cururu, obrigado pelo aviso. Vou correr antes que o mal aconteça, Eu não quero virar bolsa de couro O que é que o homem tem na sua cabeça Não quero ser espécie em extinção Para que a humanidade não me esqueça!" Esse trecho é um soco no estômago disfarçado de rima infantil. Ele humaniza o bicho de uma forma que nos faz pensar: qual é o limite da nossa ganância? A vaidade humana de querer uma "bolsa de couro" ou um adorno custa a vida e a existência de uma espécie inteira. O questionamento "O que é que o homem tem na sua cabeça?" é a pergunta de um milhão de dólares que a própria Terra nos faz todos os dias. Comparar a leveza da história com a crueldade do desmatamento e da caça nos mostra que estamos silenciando a música da floresta. Cantoria na Floresta não é só para crianças; é um lembrete urgente para que a humanidade mude de postura antes que a única forma de lembrar desses animais seja em páginas de livros ou em museus.
