Poemas de Péricles Prade, escritor nascido em Timbó/SC Ilustrações de Rodrigo de Haro
Pequeno Tratado Poético das Asas -
Péricles Prade
Um voo
Há algum tempo deparei-me com este belo título aí em cima e quis lê-lo. Uma edição bonita, que comprei no sebo por R$ 1,50 (talvez o dono do sebo não curtisse poesia, eh) de um poeta desconhecido até então por mim. Péricles Prade é catarinense, nasceu em Timbó. Pra quem não sabe, Timbó, essa pequena cidade, também é berço de outro gigante da poesia catarinense (e nacional!): Lindolf Bell. E foi com muita alegria que concluí a leitura desse livro. Como bem observa Fábio Brüggemann no prefácio do livro, é invejante a capacidade de Prade de construir um projeto poético próprio, ou seja, com unidade. E é bem isso que o leitor encontra neste "Pequeno Tratado poético das asas": uma série de poemas interligados, unidos pela metáfora céu & terra. O título, contendo a acadêmica palavra "tratado", evoca um estudo, uma compilação baseada na observação rigorosa. E não deixa de ser isso: aqui o poeta é um observador delicado, que vasculha os mais íntimos recônditos (do céu, da terra, e da palavra "céu" e da palavra "terra"), a vigiar o pássaro que em breve alçará voo: PREMONIÇÃO Na véspera do sacrifício move-se o pé da bailarina gigante Na introdução de seu livro, Prade fala da figura do pássaro como "símbolo perfeito das relações entre o céu e a terra". Fala da infinide do tipo de pássaros, e lembra que eles encantaram muitos homens, citando Buda e o poeta Saint-John Perse, entre outros. A citação de Perse na introdução, bem como utra citação em dos poemas do livro, nos levam a aproximar esses dois poetas. Ambos se apoiaram na mitologia, ambos rompereram em sua poesia a dimensão da realidade, buscando elevar o espírito, transpor dimensões. Poetas transcedentais. Que caminho melhor para transceder do que por meio das palavras? e que metáfora melhor para essa busca do que o voo de um pássaro? Voo que é a transição do céu para terra, como o canto é a transição do silêncio para o som. Céu & Terra; Som & Silêncio: dualismos sobre os quais a alma do poeta se debruça: SEMELHANÇA Voo e gêmea adivinhação canto Acudam-me Saint-John Perse e sua ancestral intuição E mais São João da Cruz Buda e Tao que de tão leves a eles se assemelham Como Perse, Prade se mostra um poeta místico, busca na mitologia as mil imagens do pássaro. Baseia-se em várias culturas, especialmente as orientais, que tem este animal como sagrado símbolo da transição entre mundos. E essa transição se dá pelo voo, esse movimento de asas, mecanismos indecifráveis. A graça de tudo é o mistério das asas. Um pássaro é apenas uma palavra. Como o amor é apenas uma palavra, a morte, a dor. Palavras. Mas é no voo, na sincronia das asas que a palavra expande. E aqui voltamos ao primeiro poema do livro. Ponto de partida. Onde o leitor sai do chão, do silêncio, para contemplar essa definição: DEFINIÇÃO Se não supõe o voo O pássaro é só palavra Entre o Céu & a Terra Fica a sugestão para que conheçam esse tratado. Alcem esse voo.
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