Em A história de Olga – Três continentes, duas guerras mundiais e uma revolução: a saga de uma mulher pela história do século XX, a jornalista Stephanie Williams remonta a história da avó materna que viveu alguns dos fatos históricos mais marcantes do século XX. Baseada em uma pesquisa que se estendeu por mais de uma década, a autora reproduz, episódio por episódio, o curso da vida de Olga Edney. Nascida Olga Yunter, no ano 1900, em um remoto povoado ao sul da Sibéria, Olgusha, como era chamada pelo pai, teve uma infância feliz. Ela passava seus dias no encalço dos quatro irmãos mais velhos, acompanhava as grandes festas da família, era envolvida nas crendices da ama Filipovna e via o pai ir e vir em excursões pelos confins da Rússia. Enquanto isso, seguia estudando, planejando inscrever-se na Universidade de São Petersburgo, como fez a irmã Lydia. Os sonhos de Olga começaram a ser ameaçados na adolescência, por volta de 1917, com a Revolução de Outubro. Ainda estudante, ela ajudou os irmãos a defender a região onde moravam e, sem perceber, virou também uma contraventora diante do partido bolchevique de Lenin. Com a cabeça a prêmio, ela foi orientada pelo pai a mudar-se para Vladivostok, onde poderia ingressar na universidade e estaria mais protegida. Fugiu com apenas algumas poucas roupas e pedras preciosas. O tempo de fartura havia ficado definitivamente para trás e a situação piorou ainda mais quando Vladivostok virou o próximo destino dos vermelhos, como eram chamados os comunistas. Quando isso aconteceu, Olga, junto com a ama Filipovna, já tinha fugido novamente para o norte da China. Nunca mais veria sua família. Depois de um longo período de dificuldades em Tientsin, Olga conheceu Fred Edney. Britânico, bonito e bem-humorado, ele era funcionário de uma empresa de tabaco. Casaram-se em 1923. Nesse mesmo período, enquanto seguiam os confrontos na Rússia e Olga não tinha notícias da família, na Alemanha, Hitler ganhava cada vez mais força. Apesar do prenúncio de uma nova guerra mundial e da desavença entre chineses e japoneses, por alguns anos, Olga teve tranqüilidade. Fred estava bem colocado, ganhava bem e eles haviam tido a primeira filha, Irina. Olga organizava festas, tinha conforto e fazia o trabalho comunitário que tanto gostava. A vida ordenada em Tientsin, porém, estava prestes a passar por mais uma transformação. E Olga, por novas provações. Com base em documentos, relatos de parentes e conhecidos, a autora reconstitui também os eventos que balançaram a vida de Olga durante a Segunda Guerra Mundial e anos seguintes. Ao longo da pesquisa, Stephanie conhece descendentes dos amigos da avó e até mesmo primos de segundo e terceiro graus. A curiosidade sobre a vida da avó russa foi despertada por frases soltas, histórias que não faziam muito sentido. A avó, a quem visitava de tempos em tempos na Inglaterra, não revelava tudo facilmente, mas deixava escapar algumas pistas e mostrava fotos intrigantes. Stephanie gastou 10 anos reunindo cartas, diários, fotografias e documentos oficiais para escrever a impressionante história da avó, que permeou acontecimentos marcantes do século XX.
A História de Olga -
Stephanie Williams
Edições (1)
Ver maisMais que um relato histórico.
Costumo começar as minhas resenhas com um trecho do livro resenhado que sintetize a história. Dessa maneira, tenho como prosseguir com o texto. Mas dessa vez não. Não acho que um trecho tenha condições de se igualar ao livro, descrevê-lo vagamente. Pois o que é apresentado na história possui conteúdo para ser de certa forma, didático e sensível. Moralista e sentimental. Os relatos históricos a respeito de um conflito em caráter mundial ou regional podem ser relatados de várias maneiras. Inclusive em diários, dos quais retratam não somente o conflito, mas como ele afetou a vida das pessoas que o vivenciaram. Como reagiram ao perder suas casas e pertences. Olga Yunter foi uma das milhões de pessoas que perderam com o conflito armado. Nascida em família burguesa no ano de 1900, em um remoto vilarejo da Sibéria, conhecido com Yelan. Presenciou o século mais violento da história, que marcou conflitos mundiais e revoluções que demarcaram as relações internacionais atuais. O século XX é considerado o mais brutal de todos. É constrangedor e desgostoso pensar que a humanidade interviu mais vezes de forma militar, que pacificamente. Que o número de anos em que as sociedades estiveram em conflito é superior àqueles que permaneceram em paz. A história é dividida de forma temporal, separada em anos e expõe o relato da autora, neta da protagonista, mantendo-se neutra ao máximo, tentando demonstrar as reações e fatos vívidos por Olga. O livro salienta como não somente Olga, mas aqueles que a rodeavam reagiram aos conflitos simultâneos, à falta de alimentos, as invasões, a separação entre famílias e principalmente, as atrocidades que enlaçam as guerras e submetem as pessoas. Muito desses conflitos desencadearam-se por motivos fúteis, dos quais poderiam ser resolvidos diplomaticamente. Olga precisou recomeçar em lugares diferentes por três vezes. Foi envolvida no conflito pela primeira vez quando os bolchevistas invadiram Troitskosavsk – atual Kyakhta. Auxiliou seus irmãos na defesa da cidade contra os bolchevistas e no conflito contra o comandante do Exército Branco, participando das revoltas contra o regime czarista. Sentiu-se ameaçada e foi obrigada a deixar a cidade, mudando-se para Vladivostok e dali para o norte da China, em Tientsin. Com a invasão japonesa, novamente Olga se viu compelida a se mudar para Xangai, enquanto a Segunda Guerra Mundial ameaçava eclodir na Europa, no ano de 1937. Dois anos depois, Alemanha invadiu a Polônia e deu início ao conflito. Revoltas e greves despontavam em todos os lugares da China e o comunismo se alastrava pelo país. Novamente Olga observou a si mesma sem condições de continuar vivendo na cidade e gravitou em torno de vários países, até se fixar definitivamente na Inglaterra, nos anos de 1950, onde viveu um período de relativa paz. O livro foi escrito depois de a autora, Stephanie Williams ter concluído um período de pesquisas que durou dez anos sobre a vida da avó. Olga era uma pessoa reservada, que apenas intitulava sua vida de forma vaga, excluindo detalhes relevantes. Ela era a mais nova de cinco irmãos, Vasya, Volodya, Kolya, Lydia e Annya, que tiveram destinos diferentes durante a Revolução Russa. Perdeu o contanto com eles e consequentemente, nunca mais os viu. É interessante deixar explícito a perseverança da autora em conseguir as informações para escrever o livro. Suas pesquisas duraram mais de dez anos e envolveram vários documentos, livros e cartas, publicados ou não, em busca de complementos que preenchesse os fragmentos incompletos. Dessa forma, Stephanie conseguiu mais que a publicação de um livro: reunir sua própria família separada pela guerra e espalhada por três continentes. “A fuga de Olga salvou não apenas a ela mesma”. Lydia teria dito, “mas o resto da família. Ela seria a primeira a ser presa e depois eles viriam atrás de todos nós.” – trecho retirado de A História de Olga, pág. 350.
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