Antropólogos e missionários parecem, à primeira vista, trilhar caminhos distintos, se não opostos. Afinal, enquanto os primeiros são vistos como aqueles que procuram compreender e explicar aspectos essenciais de um determinado povo ou sociedade a partir da lógica da cultura analisada, os outros, ao colocarem em prática o projeto expansionista e aliciante da fé cristã, são pensados como agentes que procuram influenciar diretamente a visão de mundo dos habitantes das regiões por onde atuam. Entretanto, se forem consideradas as atividades de missionários que se tornaram antropólogos e que recolheram e organizaram dados fundamentais para a realização de pesquisas antropológicas, não será difícil constatar as intensas trocas e contribuições entre tais áreas, tampouco perceber certo grau de proximidade entre os dois trabalhos. Este livro, que reúne textos de proeminentes estudiosos brasileiros e argentinos, dedica-se à fronteira muitas vezes tênue entre o fazer etnográfico e o fazer missionário, abordando questões essenciais desses dois ofícios. A partir da leitura da obra, é possível contemplar convergências não apenas no ato de missionários e antropólogos se lançarem mundo afora perseguindo alteridades distantes do universo europeu, mas também, sobretudo na época em que a antropologia se consolidava como disciplina a partir da segunda metade do século XIX, entre as formas de serem pensadas e descritas as sociedades indígenas a partir das inquietações que marcavam o pensamento ocidental da época.
