Século XVII. Xogunato Tokugawa. Japão. Cristãos escondem-se e guardam sua fé, escombros de outrora, na clandestinidade. Aquele que delatar um padre infiltrado recebe 300 moedas de prata, quantia superior a que Judas recebeu delatando a localização do Cristo. Aquele que der abrigo à missionários está sujeito à morte. Possíveis cristãos devem pisar ou cuspir na imagem de Jesus, provando sua indiferença. Aquele que não o fizer, será morto. O cristão que o fizer, porém, mata uma parte de si.
É nessa atmosfera de medo que os padres Rodrigues e Garpe desembarcam no Japão. A missão era encontrar um sacerdote desaparecido, um tal de Ferreira, cujos boatos diziam ter apostatado e viver agora como camponês, isso é, negara Cristo e abandonou a fé. Contudo, não tiveram informações do paradeiro do antigo mentor e logo ficou claro que a única forma de serem uteis era cuidando dos fieis remanescentes nas aldeias. Mas não demora muito para que Rodrigues seja capturado e subjugado a uma intensa tortura metafísica. Ele deve negar sua fé... se quiser sobreviver.
O título do livro é bastante apropriado, pois de fato existe um silêncio de mil faces que domina as páginas desse livro. Existe um silêncio inicial, imposto pelo governo opressor que abafa a adoração do povo com a expectativa de punição. Existe o silêncio do mar e da natureza, que reflete também um possível abandono e passividade de Deus diante dos sofrimentos daqueles camponeses miseráveis. Por fim, existe um silêncio que não se entende muito bem o que é: se é a mudez do céu ou a surdez do homem.
Shusaku, com uma narrativa bem sóbria, constrói uma historia envolvente com conflitos raramente externos. Em sua maioria, o ''apocalipse'' é interno e a dor é na alma, quase sempre nascidos de um questionamento da fé do Padre, o que acaba por promover toda uma reconstrução de sua identidade. Trata-se de uma ficção histórica profunda e envolvente sobre um período pouco falado da história do Japão feudal, que apesar de passado, incita diversos questionamentos para a atualidade.
NOTA: 9,5