Certas obras clássicas soam como uma bela ópera aos meus ouvidos. Nos últimos tempos, um dos grandes nomes da literatura posicionou-se firmemente em meu imaginário como o seu principal maestro. Afinal, além de dialogar com nossos sentimentos mais profundos, um bom livro é justamente aquele que lhe leva para lugares distantes, ensinando-lhe os principais fatos históricos, enquanto tece poeticamente a sua visão de vida em um sublime e insubstituível enredo, destacando-se em uma valsa tocada somente uma vez. É sempre um prazer falar sobre os clássicos de grandes escritores como Victor Hugo. Afinal, a sua prosa nada mais do que ensaística prende o leitor devido à sua beleza gótica e sombria em meio à poesia das desenfreadas emoções humanas tentando estabelecer uma miserável conexão entre o belo e o grotesco. Há não muito tempo, a minha primeira reação após ler "O Corcunda de Notre Dame" – livro o qual me deixou sem chão –, foi pesquisar sobre a sua vida, e claro, as suas demais obras.
Além de escritor, Hugo fora estadista, dramaturgo, poeta e ativista pelos direitos humanos com uma forte presença política; o que fica bem explícito ao longo da leitura do livro em questão. Ainda muito jovem, devido a um prefácio na sua peça teatral chamada “Cromwell”, fora encaminhado como líder do movimento romântico em seu país (França). Criado no espírito monárquico tornou-se farorável à democracia liberalista. Fato este refletido em sua escrita e sua visão ímpar sobre os desvios da vida humana, levando-nos à cerne das discussões sobre o que é ser um ser humano em meio ao avanço político e criminal.
"O Homem Que Ri" (L'homme qui Rit) foi uma das maiores surpresas que tive neste ano de 2018. Romance histórico o qual retrata o contexto político social na Inglaterra entre os séculos XVII e VXIII. Trocista em diversos aspectos no desenvolvimento do enredo, acabamos por estudar a degradação humana frente à miséria – já que seu personagem principal é uma linha tênue entre a desigualdade e sobre o que é de fato a definição de humor.
De leitura irresistível, somos apresentados primeiramente a dois personagens os quais refletem a necessidade de ligação emocional entre duas almas mesmo que ambas não falem a mesma língua:
“Ursus e Homo eram ligados por estreita amizade. Ursus era um homem; Homo, um lobo. Seus espíritos haviam-se combinado. Fora o homem que batizara o lobo. Provavelmente, fora também ele que havia escolhido o seu próprio nome; tendo achado Ursus bom para si, achara Homo bom para o animal. A conexão entre esse homem e esse lobo servia às feiras, às festas da paróquia, às esquinas da rua onde os passantes se aglomeram e à necessidade que o povo experimenta, em todos os lugares, de ouvir patacoadas e de comprar elixires milagrosos. O lobo, dócil e graciosamente subalterno, era agradável à multidão. As domações agradam. Nosso supremo contentamento consiste em ver desfilar todas as variedades da domesticação. É o que faz com que haja tantas pessoas na passagem dos cortejos reais.”
Saltimbanco de coração e conhecedor da medicina, do ambiente político e da alma humana por tratar-se de um filósofo, mora em uma humilde cabana sob rodas puxada por seu lobo de estimação, fazendo números pelas ruas inglesas e tratando de feridos. Tudo muda quando ele é surpreendido por uma criança que bate à sua porta na calada da noite carregando um bebê órfão nos braços o qual havia acabado de salvar. Relutante em abandoná-las em meio à forte nevasca, acaba por adotá-los, sem perceber primeiramente dois pequenos detalhes: O garoto tinha o rosto desfigurado e a bebê era cega. O rosto de Gwynplaine, vítima de uma cirurgia clandestina a qual tinha como principal propósito transformá-lo em uma criatura circense para o agrado dos reinos vigentes e das grandes elites acaba por enriquecer justamente o pobre ambulante. Em um dos saltos temporais mais convincentes e respeitosas da literatura, as duas crianças crescem somente para se apaixonarem – o que permite com que tanto Ursus quanto os leitores os observem como um casal fadado às suplicias da inocência romântica relutante em aceitar o lado sombrio da vida. “O Homem Que Ri” torna-se o principal número do grupo, pois a desfiguração de Gwynplaine consiste em um grande sorriso o qual o jovem não consegue desfazer em seu rosto, o que leva a multidão a simplesmente encará-lo como um monstro satírico, independente da apresentação que este esteja a fazer com seus colegas de trabalho. Gwynplaine tornar-se uma tragédia cômica o qual chama atenção até dos poderosos reis e príncipes, o que causa uma grande reviravolta na trama, pois até mesmo os poderosos não conseguem levar o pobre rapaz a sério, mesmo quando surgem suspeitas de que o próprio faz parte da realeza.
Toda a obra é construída em meio a uma simples indagação: Qual o verdadeiro sentido do riso? Quando o bom humor é bem vindo? Em uma situação inaceitavelmente absurda a qual remete o riso, o que podemos definir como trágico? O personagem principal do livro de Victor Hugo é um dos mais ricos no quesito de reflexões. Dea, o grande amor de sua vida, ocupa uma posição poética a qual abrange a minha questão favorita de toda a obra: Diante de um ser o qual temos contato diário e somente a ação de observá-lo remete a várias indagações sobre o que devemos achar engraçado ou não, devemos fechar os olhos ou desejar sermos cegos – para só assim amá-lo e respeitá-lo? O comportamento de Gwynplaine, o qual não consegue livrar-se do enorme sorriso, diante de inúmeros momentos de amor, glória, ira e humilhação - fazendo com que o mesmo perdesse totalmente o destino de sua vida -, catapultou-o como um dos personagens mais fatais, questionadores e emblemáticos da literatura clássica.
Enquanto nações são construídas e garotos tornam-se homens, O Homem Que Ri continua a dar a sua famosa risada sem som mesmo diante do choro de Pagliacci - o que tiraria miseravelmente a fortuna de sua existência...