Que livro! Já é o terceiro que leio deste autor - infelizmente não publicado ainda no Brasil, e é difícil dizer qual é o melhor. Inclino-me a achar que é este (talvez porque a gente sempre ache que o último é o melhor, com aquele gosto de coisa boa recente, recém deglutida e ainda não digerida pairando sobre as papilas gustativas literárias no cérebro). A história é o que a sinopse diz, mas tem muito mais. Quando ouvi falar que seria lançado (foi lançado em 11/01, comecei a ler no mesmo dia) e vi a comparação com "It", já torci o nariz, porque... bem... ninguém se compara com King, muito menos com It! rsrs. Mas.... após a leitura, entendi a conexão. O modo como a história é contada, lembra bastante a dinâmica de It, porque a história se divide em acontecimentos ocorridos em 1965 e 1980, com os mesmos mocinhos e vilões (ora mais jovens, ora mais velhos) e o confronto é revelado aos poucos, ora no passado, ora no presente. Tudo envolto com muita imersão em conflitos internos, o que torna as personagens bem consistentes. O bônus é que temos 2 clímaxes da história, um seguido do outro, mal dá para recuperar o fôlego após a narrativa do embate mortal ocorrido em 1965 e já vem o capítulo seguinte, com a nova luta, em 1980!
Eu, pessoalmente, fiquei um pouco agoniada pela impressão de que as revelações foram lançadas com uma lentidão terrível - aquela coisa de passar o livro quase todo a beira de descobrir a conexão entre tudo, e ver aquele capítulo acabar, iniciando outro em outro tempo e com enfoque em outro personagem, sabendo que a revelação que você achou que ia ter, só se dará dali a um, dois ou três capítulos quando o fio da narrativa sob aquele ponto de vista fosse retomado. É de fazer o leitor respirar fundo e rezar para não esquecer as emoções daquele capítulo ao mergulhar no próximo, porque dali um ou dois terá de retomá-lo, como se estivesse fresquinho na memória! Dá agonia, mas a gente precisa tirar o chapéu quando o autor consegue manipular a gente como marionetes, sem deixar pontas soltas e a sensação de que o final não fez valer tudo aquilo...
Outra coisa, li em inglês e tive um pouco de dificuldades com a parte descritiva da coisa. Os horrores descritos com detalhes escatológicos pelo autor canadense (talvez pelo inglês dele ser um tiquinho diferente do americano em vocabulário e expressões) se tornaram um pouco difíceis para eu formar imagens mentais. Mas não muito, nada que atrapalhasse a experiência da leitura. O livro tem umas ilustrações bem legais, mesmo o ebook, o que é um bônus.
Houve momentos que eu gritei internamente "too much! too much!" porque o autor misturou tantos terrores, tantas possibilidades de coisas aterrorizantes (pistoleiros, sequestro de crianças,uma anaconda comedora de gente, comunidade remota de fanáticos religiosos, um orfanato abandonado onde crianças obviamente haviam sido torturadas no passado, monstros inimagináveis e imensos aterrorizando a floresta, fantasmas? possessão? um lovecraftiano monólito misterioso lançando seu poder sinistro no breu da floresta,,, etc etc etc) que o cérebro dava piruetas tentando puxar uma ponta só para desenrolar o fio da meada da narrativa, porém o final não desapontou e não fiquei com a impressão de que o autor deixou pontas soltas.E o que ficou de inexplicado e somente sugerido, faz parte do terror.
Achei incrível, irônica e de um mau-gosto delicioso, ainda que um pouco repulsivo a "mera coincidência"(?) da semelhança da comunidade religiosa de Little Heaven com culto Templo dos Povos, de Jim Jones.
E os três anti-heróis... improváveis, porém cativantes.
Como eu queria que alguma editora lançasse os livros do Cutter por aqui!