É inevitável, ao abrir Os Retirantes de José do Patrocínio, sentir um peso... não apenas pela tragédia da escravidão que o autor se propõe a denunciar, mas também pelo cansaço literário que já venho carregando. Sinceramente, depois de mergulhar em tantas páginas de literatura regional, com o Nordeste quase sempre resumido à seca, à miséria ou, no caso deste livro, à opressão brutal do cativeiro, a gente começa a se perguntar: será que essa vasta e complexa região só existe para ser palco de sofrimento? É uma exaustão crônica, sabe... E, ao iniciar a leitura, quase antecipo a dor.
Patrocínio, apesar de focado na causa abolicionista e não no clima, cria a narrativa nesse ciclo de "dor e destino". A Parte I é a materialização dessa violência. A história começa nos atirando no cativeiro, onde a rotina é feita de um trabalho que corrói os ossos e do som metálico do chicote que ecoa como a única música da senzala... O nosso casal protagonista, que são um caráter impar, vivem com uma união e afeto tão fortes, que são a única barricada contra a destruição da alma imposta por aquela condição.
Mas a grande virada, o que realmente me deixou em alerta, e também aos nosso protagonistas, foi um ato de crueldade específico... o feitor, ameaça o que resta de humano nos pombinhos: a estrutura de família. Sim... casal descobre que a venda de um deles e a separação do casal é a sentença final, o ponto de não retorno. É nesse momento que a "retirada", no caso, a a fuga desesperada, se torna a única saída... O casal se concentra na preparação secreta, na coleta de víveres, e naqueles olhares de adeus dados na calada da noite, onde a dificuldade do caminho e a imprevisibilidade, até de um sucesso, é preferível à certeza do inferno que eles vivem.
Honestamente, a história é bem pesada... a negação de qualquer vida digna é sufocante... muito no espírito do que Euclides da Cunha faria anos depois ao dissecar "Os Sertões"... No fundo, ambos os autores expõem um "sertão" onde o homem é subjugado por forças maiores: em Euclides, a terra e a História; em Patrocínio, o sistema e a maldade humana. É o retrato de um Brasil onde a tragédia é a regra, não a exceção.
Mas é exatamente por essa repetição que a gente anseia por uma fresta, um respiro... Neste cansaço, a gente busca um personagem que seja mais que um arquétipo do sofrimento. O casal protagonista, João e Luísa, são nobres, mas previsíveis em sua função de mártires da tese abolicionista... Por isso, eu diria que o personagem mais interessante para focar na Parte I é, ironicamente, o escravizado mais velho. Ele tem aquela sabedoria silenciosa de quem já viu tudo e, por isso, tem o peso de ter perdido a ilusão há muito tempo. Ele não é o motor da fuga, mas sim a memória viva da opressão, o que torna a fuga do casal ainda mais crucial. Gostar dele é admirar a sua capacidade de sobreviver à própria esperança, um tipo de força muito mais rara e complexa que a força da revolta.
A primeira parte, então, nos deixa essa dupla sensação: a indignação necessária contra o sistema que Patrocínio nos obriga a confrontar, e um desejo profundo de que a literatura brasileira que retrata o Nordeste um dia se retire desse ciclo vicioso de tragédia, e nos mostre outros "sertões", onde a luz existe não como castigo, mas para permitir que e a vida floresça fora da dor. A história começa com a fuga da escravidão, e eu anseio por uma fuga semelhante, mas dessa temática.