Desde o título, o argentino Eduardo Gudiño Kieffer - um dos expoentes da literatura latino-americana dos anos 70 - provoca o leitor. Para Te Comer Melhor desperta curiosidade e não faz feio ao desfazê-la: enquanto o verdadeiro sentido da frase vai se revelando, somos apresentados à história de Sebástian, um artista de 24 anos afligido pela incompreensão do mundo a seu redor.
A partir de seu suicídio, os últimos anos de vida do protagonista são remontados pelo olhar dos que conviviam com ele. Robbie e Flor de Irupê são comuns, retratos de como duas almas, aparentemente opostas, podem se encontrar em meio à vida cotidiana da cidade grande. Ana é sensível e delicada, sua única culpa é amar demais e não ser correspondida, pelo menos não na medida certa.
Já Merdalhim e Merdalhão, seus dois companheiros imaginários, expõem suas inquietações e conflitos. São muitos, também, os diálogos com Cecília, a presença feminina em sua consciência, companheira idealizada e irreal. Esses momentos de aparente loucura, entretanto, trazem lucidez ao leitor, que passa a compreender que tipo de tormentos essas personagens internas representam.
As cenas estão sempre mudando de direção e comando. Vão dos pensamentos do protagonista para seus amigos. Merece destaque Flor de Irupê, uma moça do interior da Argentina que, após destruição de sua casa por uma enchente, vai tentar o sucesso como cantora na Buenos Aires de “rios asfaltados”. Conquista pela fala simples e ingênua – quase como a de uma criança – que dá real intenção a todas as frases e traz um toque de leveza ao enredo.
Gudiño abusa das sinestesias, criando imagens inusitadas para dar colorido e um quê de confusão aos pensamentos do jovem “corroído, doente, (...) já quase morto de palavras”. Seus medos soam palpáveis, facilmente compartilhados por qualquer pessoa que já tenha se sentido sufocada pela realidade.
Publicada originalmente em http://migre.me/5WBGy