Naturalmente, se observa o efeito do narrador em 2° pessoa em vistas de estabelecer uma espécie de contato mais direto com o leitor, como se o texto fosse escrito a você, o que, em tese, aproximaria mais o leitor da narrativa intensificando os efeitos construídos por esta. Porém, aquilo que o próprio Butor chamou de forma intermediária entre a primeira pessoa e a terceira pessoa, pelo menos aqui, funciona mais como um tensionamento entre os tipos de pessoa, como se estivesse no limite entre eles. Na segunda pessoa temos a subjetividade de uma primeira pessoa aliada ao distanciamento da terceira pessoa (aquele que observa). A onisciência não é tão marcada como a terceira, mas o suficiente para que estejamos nos confins dessa mente em ebulição. É dessa forma que se constrói o romance de Michel Butor, A Modificação (1957).
A própria matéria do livro parece solicitar esse tipo de tensionamento. Na aparente trama banal (um homem que se desloca de Paris à Roma para dar cabo de uma decisão de vida, uma modificação) figura-se um intenso experimentalismo psicológico. O experimentalismo de Butor, antes mesmo dos experimentalismos mais vertiginosos dos livros posteriores, é sistemático, rigoroso, tal como seu estilo. Vejamos em alguns pontos.
A travessia desse personagem, um protagonista sem nome mas que nomeia fantasiosamente os passageiros que viajam com ele , é literal e figurada. A ponte que liga Paris e Roma, bem como a unidade espacial do livro, é o trem, que também dispara sua decisão ou melhor, os devaneios que sucederão essa decisão , a modificação de que fala o título. Todo o livro se passa nesse trem, pelo menos no domínio do presente, do olhar. Embora, por meio deste olhar, se alcance os outros lugares (o passado com a esposa, com a amante; o futuro possível com a amante, com a esposa), esse personagem sem nome sempre retorna ao olhar: numa necessidade de fugir de suas reminiscências, conjecturas. Para tanto, usa dos outros transeuntes como joguetes, ele joga com as possibilidades: quem são, o que fazem, como se chamam. Não só passa o tempo (doloroso, dilatado), como foge de si próprio, da hesitação que parece corroê-lo, dessa modificação a se dissipar, ou melhor, a se tornar outra.
Mas esse olhar não se limita ao humano, mas aos objetos, a história deles os apostos ajudam a construir esse prolongamento dos objetos , suas possibilidades. Desse olhar, do presente, de um dado mais objetivo, o aspecto que mais impressiona é a luz. Quando o personagem observa suas minúcias, suas alternâncias, matizes. A luz se modifica pelo movimento do trem, pelo movimento do seu próprio olhar, da passagem do tempo, enfim, Butor, de qualquer uma das formas enfatiza a beleza dessas passagens de luz pelos rostos, pelos objetos, como se estivesse a pintar um quadro.
Os períodos longuíssimos a maioria dos parágrafos é escrito sob um único período , apoiado em apostos extensos, parece prolongar extensivamente a decisão desse protagonista, a sua modificação, mas também alongar seu sofrimento, dilatar não só o tempo, mas a angústia de sua decisão, principalmente das consequências dessa decisão. Nesse sentido, o protagonista parece estar completamente decidido: pegou o trem com uma certeza, mas a consequência dessa tomada de decisão, faz com que hesite, trema.
As estratégias para evitar reflexão, o olhar, as conjecturas, os detalhes, são estéreis a ele, o tempo se impõe.
O tempo do livro, ou melhor, os tempos do livro é o procedimento literário que nos prospecta ao inevitável: a modificação se tornará outra modificação? No decorrer dessa viagem, o personagem nota que sua relação com Cecília parece estar completamente refém de Roma, ele enxerga Roma com os olhos rejuvenescidos de Cecília: Roma tomou para ele a forma de uma mulher (Michel Leiris). Como sua amante está ligada intimamente a Roma, levá-la à Paris, não promoverá o efeito contrário? Ela, então, não estaria dissociada de Roma e relacionada a Paris? São perguntas que começam a ecoar.
Esse entrelaçamento entre passado, presente, futuro, isto é, o que viveu com as duas mulheres, o que poderá viver com uma delas e como a outra ficará, é o limite que esse presente mais imediato (essa viagem de trem rumo à escolha) pode suportar. A motivação é dupla: para o personagem, essa decisão em largar a esposa Henriqueta e ficar com sua amante Cecília, é o que o angustia e lhe fragmenta em vários tempos simultaneamente; para o romancista, é o que faz estruturar o romance desse modo, sua forma, intercalando esses tempos e sinalizando o presente através do olhar embaciado. Efeito claro: esse realismo psicológico desse personagem fica tateável, se aproxima do funcionamento mental humano. O paralelismo narrativo surge motivado pela própria narrativa, bem como adensado por sua função.
Em um primeiro momento, o passado surge de forma gradativa, do mais próximo possível (a noite anterior a viagem, seguida da tarde etc.) ao mais distante, gradativamente; assim como o possível futuro (o que fazer quando chegar a Roma, como abordar Cecília?), mas logo essa intercalação dupla ganha contornos menos nítidos, mais caóticos. Os tempos se entrecruzam.
A questão temporal parece ser ainda mais propositiva. Pensemos, brevemente, de maneira esquemática. 1. Paris liga-o ao trabalho (do qual não gosta) e a Henriqueta, a uma vida que quer abandonar, em suma, ao passado; 2. O trem é o presente imediato, a travessia que liga os tempos possíveis (passado/Henriqueta e futuro/Cecília); 3. Roma liga-o a Cecília, sua amante, o possível futuro que o rejuvenesce quando tornado presente, é ele mesmo quem chama de liberdade futura.
O bilhete para essa viagem fora comprado com a decisão já tomada, largaria sua esposa pela amante. Porém, na imensidão do presente, da sua viagem, suas reflexões são tantas, que sua decisão se tornará outra, afinal, o personagem percebe que, ao escolher Cecília e levá-la à Paris, era como se a relação de ambos estivesse fadada ao fracasso, como se o casamento inevitavelmente se tornasse a mesma coisa do que seu atual. Em suma, como se seu futuro, sua liberdade, fosse condenado a um novo passado. Se ele decide por manter as coisas como estão, é justamente pela possibilidade dessa liberdade futura, afinal, com Cecília ainda como amante e ainda em Roma, mesmo que fadado ao envelhecimento (afinal, um amor finito, ele conclui), ele ainda pode possuir Roma (tão importante a ele) jovialmente.
Muito se falou sobre seu circuito fechado, sobre essa estrutura cíclica do livro: as duas modificações (a que ele recusa, e a que ele decide por fim = anula a modificação), o trem com passagem de volta comprada. Isso parece exemplificado (figurativamente) em um objeto diegético da história, objeto que assume função de leitmotiv ao longo da narrativa: o livro que o personagem compra.
Este livro, cujo título e autor ele desconhece, foi comprado por alguma razão íntima, inconsciente. Ao longo da narrativa, ele nunca é aberto, mas sempre retorna, quase sempre ao final das partes. Se tivesse decidido ler, suas elucubrações mentais teriam provocado essa modificação? O livro não só não é aberto, como ao fim, se torna outra saída para seus devaneios: o personagem decide transformar essa história, essa travessia modificadora em literatura, isto é, em outro livro.
Voltamos ao tempo para pensar neste objeto: o livro, objeto diegético é como o passado, lhe lacera e ele o mantém ali; o livro a ser escrito é como o futuro, uma possibilidade, tal como o binômio Cecília-Roma, está sempre ali. Ou seja, trazer, para sua incapacidade de transformar positivamente sua vida, uma compensação literária cuja substância lhe será fornecida pelo relato do seu malôgro (Michel Leiris).
Qual seria, então, a verdadeira modificação do romance? A manutenção da sua vida. Viver entre duas cidades, entre duas mulheres, podendo, assim, transitar entre o passado e o futuro. Se o tempo se fissura sob o domínio do olhar, é para que ele possa continuar existindo enquanto tal: um presente de futuros possíveis, pois só assim poderá suportar seu passado (o presente que lhe lacera).
O olhar não foi suficiente para manter o tempo intacto, o tempo é impassível. João Bénard da Costa pode iluminar essa conclusão: Mas todas as viagens têm que acabar e nunca há o tempo que ao tempo pedimos e que do tempo esperamos. Independente da escolha, da modificação, entre passado, presente e futuro, esse protagonista sem nome continuará no limite entre um tempo que já foi e um que nunca será, ele está condenado a isso.