O livro dos segredos 1, 2 e 3
Eis alguns trechos: “...Saber que tudo deu em nada é o começo de uma nova jornada. Saber que ‘tudo o que conquistei se perdeu’ é o início de uma nova busca por algo que não se pode perder. Quando a pessoa está completamente desiludida com o mundo e com todos os sucessos que ele pode oferecer, só então pode se tornar espiritual... Tem que te conciliar com seu inconsciente. E esta meditação com a escuridão absorverá completamente toda sua loucura. Prova-a. Pode prová-la inclusive em sua casa. Cada noite, permanece uma hora com a escuridão. Não faça nada; simplesmente olhe fixamente a escuridão. Terá uma sensação de fusão, e sentirá que algo está entrando em ti e que você está entrando em algo. Permanecendo, vivendo com a escuridão durante três meses, uma hora ao dia, perderá toda a sensação de individualidade, de separação. Então não será uma ilha; voltar-te-á o oceano. Será um com a escuridão. E a escuridão é tão oceânica, nada é tão imenso, nada é tão eterno, e nada está tão perto de ti, e a nada tem tanto medo e temor. A escuridão é a mãe de tudo. Pensa: quando não havia nada, o que havia? Não pode pensar em outra coisa que a escuridão. Se tudo desaparecer, o que haverá ainda? Haverá escuridão. Ao andar, ao comer, ao estar sentado, ao fazer algo, recorda: a escuridão te encheu, está cheio dela. Por fim, faça o mesmo com os olhos fechados e veja sua escuridão interna. Então abre os olhos de repente e sente-a fora. Deixe a escuridão interna o absorver. Tornaste-te um vazio infinito no que algo pode cair e não voltar. Agora é como um abismo. Muitas religiões usaram a luz porque é mais cômodo, mais fácil. A escuridão é difícil, mais incômoda. Se for aventureiro, valente, escolhe a escuridão. Se tiver medo e não quer seguir um caminho árduo, escolhe a luz. Ambas pertencem a um fenômeno que em um ponto se apresenta como luz, e em outro ponto como escuridão. Ao princípio te parece vazio; isso é só uma aparência, porque sempre estiveste cheio do ego. Em realidade, está sentindo a ausência do ego; por isso se sente vazio. Primeiro desaparecerá o ego, e logo desaparecerá a ausência do ego. Só então estará realmente vazio. E estar realmente vazio é estar realmente cheio. Esse espaço interno que se cria com a ausência do ego é o divino. O divino não tem que vir de nenhuma outra parte; já é isso. Não pode percebê-lo, não pode vê-lo, não pode tocá-lo, porque está cheio do ego. Impede-lhe isso uma barreira transparente do ego. Quando o ego cessou, a barreira cessou. Já não está a cortina. Não tem que vir nada; o que tem que vir já está aí. Recorda isto: que nada novo vai vir a ti. Tudo o que é possível já está aí, já é real. Assim não é uma questão de obter; é só uma questão de descobrir. O tesouro está aí, só que abafado; desentope-o. Se conhecer alguma vez o que é o vazio, amá-lo-á. É enlevado. É a experiência mais bela possível para a mente, para o homem, para a consciência. Não perguntará como viver com o vazio. Está perguntando-o como se o vazio fora algo como um sofrimento. Isso é o que lhe parece com o ego. O ego sempre tem medo do vazio, de modo que perguntas como viver com ele como se fora um inimigo. O vazio é seu centro mais íntimo. Toda a atividade está na periferia; o centro mais íntimo é tão somente um zero. Todo o manifesto está na periferia; o centro mais profundo de seu ser é o vazio não manifesto. Esse vazio é a fonte. Não peça que se encha, porque quando pedir que se encha criará mais e mais ego: o ego é o esforço por encher o vazio. E inclusive este desejo de que agora algo deve descender sobre ti - um deus, uma divindade, um poder divino, alguma energia desconhecida - é outra vez um pensamento. Algo que pense sobre Deus não será Deus; será simplesmente um pensamento. Quando não há nenhum desejo, nenhum futuro, e quando você não está, esse vazio é a existência mais plena. Nesse vazio, a existência inteira te é revelada. Volta-te ela. Uma vez que conheceste o tesouro interno, uma vez que te puseste em contato com seu centro mais profundo, então pode entrar em atividade, então pode fazer o que quiser, então pode viver uma vida mundana corrente, mas esse vazio permanecerá contigo. Não pode esquecê-lo. Entrará em ti. Ouvirá sua música. Independentemente do que esteja fazendo, a ação estará só na periferia; por dentro permanecerá vazio. E se pode permanecer vazio por dentro, atuando só na periferia, tudo o que faz se torna divino, tudo o que faz adquire a qualidade do divino, porque já não provém de ti. Agora vem diretamente do vazio original, um nada original. É como se você fosse só um instrumento da totalidade... A mente cria limites. Se não pensar, entra no ilimitado. Pode simplesmente fechar os olhos e imaginar que sua cabeça se tornou infinita. Já não tem limites. Continua e continua e não tem limite. Sua cabeça se tornou todo o cosmos, sem nenhum limite. Se você pode imaginar isto, de repente os pensamentos cessarão. Se você pode imaginar que sua cabeça é infinita, não haverá pensamento. O pensamento só pode existir em uma mente muito estreita. Se sua mente não estiver muito educada, resultar-te fácil imaginar. Se ela está educada, então a criatividade se perdeu, então sua mente é tão somente um espaço de armazenamento, um banco. E todo o sistema educativo é um sistema bancário. Vão depositando e jogando coisas em ti. Usam sua mente para a armazenagem; então não pode imaginar. Então, tudo o que faz é simplesmente repetir o que te foi ensinado... A felicidade é como a luz, a tristeza é como a escuridão. A luz vem e se vai, a escuridão permanece – é eterna. A luz surge algumas vezes, a escuridão está sempre presente. Se você penetrar na tristeza, sentirá todas essas coisas. De repente, vai perceber que a tristeza existe como um objeto, você está observando e testemunhando e, repentinamente, começa a se sentir feliz. Uma tristeza tão linda! – uma flor da escuridão, uma eterna flor de profundidade. Como um abismo que não tem fundo, tão silencioso, tão musical – não há o menor ruído, a menor perturbação. Podemos ir caindo e caindo nele, infinitamente, e podemos sair dele totalmente rejuvenescidos. É um repouso. Quando você fica triste, você acredita que alguma coisa ruim lhe aconteceu. Isso é uma interpretação que você faz de alguma coisa ruim que lhe aconteceu, e então você começa a tentar fugir disso de fato; você nunca medita sobre isso. A própria palavra triste lhe trás uma conotação errada. Trata-se de interpretação sua. Para mim, a vida em sua totalidade é boa. E quando você compreende a vida em sua totalidade, só então você pode celebrar, do contrário não. Celebração não está condicionada a determinadas coisas: ‘Quando eu estiver feliz, então eu celebrarei’, ou ‘Quando eu estiver infeliz, eu não celebrarei’. A celebração é incondicional; eu celebro a vida. Ela trás infelicidade – ótimo, eu a celebro. Ela trás felicidade – ótimo, eu a celebro. A celebração é minha atitude, não condicionada a aquilo que a vida trás. Celebração é gratidão por tudo que a vida lhe dá. Celebração é uma gratidão, um reconhecimento. Celebre, seja qual for a situação. Se você está triste, então celebre por estar triste. Tente isso. Apenas faça uma tentativa e você ficará surpreso – acontece. Você está triste? – então comece a dançar porque a tristeza é tão linda, uma flor silenciosa do ser! Dance, divirta-se e de repente você vai sentir que a tristeza está desaparecendo, que uma distância é criada. Pouco a pouco você esquecerá a tristeza e estará celebrando. Você transformou a energia... As pessoas que exigem a perfeição são muito desamorosas e neuróticas... Uma pessoa adulta é aquela que pode estar feliz consigo mesma. Sua solidão não é sentir-se solitário; seu estar só é meditativo... Mas nossa mente funciona de uma maneira totalmente suicida. Quanto mais desventurado é o presente, mais pensa no futuro e quer assegurá-lo. E quanto mais vá ao futuro, mais desventurado será o presente. Então está em um círculo vicioso. Este círculo se pode romper, mas a única maneira de rompê-lo é viver o momento presente tão profundamente que este momento se torne à eternidade em sua profundidade. O futuro vai nascer dele; seguirá seu próprio curso, não precisa preocupar-se por ele. Se começar a viver na insegurança e não pedir segurança, a ansiedade desaparecerá quando cessar essa exigência. A exigência está criando a ansiedade. Aceita a realidade como é, na sua total insegurança, e aprende a viver nela com um coração que cede, com um ego entregue. Quando está presente sua totalidade, não há necessidade de decidir, não há alternativa. E um iluminado é total dentro de si mesmo, vazio total. Isso não significa que seja indeciso. É absolutamente decidido, mas nunca decide. Tenta me compreender. A decisão acontece em seu vazio. Assim é como atua todo seu ser; isso é tudo. Se ele está caminhando e uma serpente cruza em seu caminho ele salta de repente; isso é tudo. Não decide. Não consulta a um professor e a um guia. Não vai consultar livros na biblioteca a respeito do que terá que fazer quando uma serpente cruza em seu caminho. Simplesmente salta. E, recorda, esse salto vem de seu ser total; não foi uma decisão. Seu ser total atuou assim; isso é tudo. Não há nada mais... O que é a preocupação? Há duas alternativas e não há forma de decidir entre elas, e a mente segue: um momento deste lado, noutro momento daquele outro lado. Isto é a preocupação. Preocupação significa que tem que decidir e está tratando de decidir, mas não pode decidir. Assim é que está preocupando-se, desconcertado, te movendo em círculos viciosos. Um iluminado nunca está preocupado. É total. Tenta compreender isto. Não está dividido, não está partido, não há dois seres nele. Mas em ti há uma multidão: não só dois; há muitas, muitas pessoas vivendo em ti, muitas vozes, uma multidão. Um iluminado é uma profunda unidade, é um universo... A palavra coragem provém da raiz cor - cor quer dizer coração -, portanto, ser corajoso significa viver com coração... Não procure explicações. E isto é o que chamo maturidade mental: quando alguém chega a um ponto em que olha a vida sem fazer perguntas, e se inunda nela com coragem e sem medo. O ego é um muro sutil a seu redor. Não permite que entre ninguém dentro de ti. Sente-se protegido, seguro, mas esta segurança é como a morte. A única forma de não ter medo é aceitá-lo. Então, a energia que se desprende se converte em liberdade. Mas se o condenar, se o reprimir, se esconder o fato de que tem medo, se te defender, se te proteger e se colocar na defensiva, surge a culpabilidade... Um homem realmente vivo sempre se sentirá inseguro. Que segurança pode ter? A vida não é um processo mecânico, não pode ser segura. É um mistério imprevisível. Ninguém sabe o que vai passar no momento seguinte. Porque se soubesse o que vai passar a vida seria falsa, tudo estaria escrito de antemão, e tudo estaria determinado de antemão. A coragem é arriscar o conhecido pelo desconhecido, o familiar pelo não familiar, o cômodo pelo incômodo, uma árdua peregrinação a um destino desconhecido. A gente nunca sabe se será capaz de consegui-lo ou não. É apostar, e só os jogadores sabem o que é a vida...”