Sir Winston Churchill é mais conhecido por ter sido o líder do Império Britânico durante e após a Segunda Guerra Mundial ou como símbolo do conservadorismo anglo-americano do que por ser escritor e historiador. Não um mero escritor, mas sim Nobel de Literatura e foi uma de suas mais famosas obras a que me dediquei a ler durante dois anos.
La Segunda Guerra Mundial, em sua versão espanhola, é o conjunto “resumido” de 1500 páginas de uma coletânea de seis volumes das memórias do primeiro-ministro britânico antes, durante e alguns anos depois do grande conflito que marcou o século XX. Não é um livro fácil, porém o tempo que gastei seria menor se eu tivesse me dedicado apenas a ele; li muitos livros quando, de pouco e pouco, ia percorrendo suas centenas de páginas recheadas de reflexões sobre como o mundo fracassou, em meros 21 anos de outra guerra, em preservar a paz.
E é justamente a isto que o primeiro livro – como a obra é dividida – tenta responder: por que a Europa de 1918 abriu caminho para Hitler e para outra guerra? Por que as potências europeias foram pegas de surpresa? Por que a França caiu? Churchill, então, se propõe ao leitor explicar os erros que os “três grandes” da Europa cometeram entre 1918 e 1939. Aqui ele critica seu próprio partido pelo isolacionismo e pela utopia desarmamentista que colocou o Reino Unido em desvantagem frente ao poderio prussiano. A França e a URSS seguiram mais ou menos o mesmo caminho, virando as costas para a crescente ameaça alemã desde 1933, sendo os soviéticos ainda mais irresponsáveis, visto que Hitler jamais escondeu seu desprezo pelo comunismo.
O resultado de tal descuido internacional todos sabemos: em 1938 a Alemanha já era novamente, vinte anos depois do armistício, poderosa o suficiente para começar outra guerra. O mundo livre estava contra a parede. Hitler obrigou as democracias ocidentais, humilhantemente, a assistirem perplexas como ele diluía a Checoslováquia e Áustria em seu novo Reich. E pior: ao tratarem hipocritamente o Reino da Itália na questão da Etiópia, os líderes da Europa Ocidental empurraram para os braços do nazismo o desconfiado Mussolini, cujo desprezo por Hitler era evidente nos anos 1930. Uma Itália, mesmo que fascista, poderia ter sido um contrapeso às demandas hitlerianas. Não havia mais a se fazer, apesar da ilusão de Chamberlain de que se podia negociar com Hitler e que “haveria paz em nosso tempo”.
Em questão de meses, um novo conflito explodiria na Europa e França e Reino Unido, pegos de surpresa, foram incapazes de salvar a pobre Polônia e, no caso francês, a si mesma. Em 1940, relata Churchill, os britânicos estavam sozinhos contra o Terceiro Reich. Por quase exatos um ano, o povo britânico e suas colônias lutariam bravamente contra um exército e uma força aérea que pareciam imparáveis e invencíveis. Desesperado, Winston buscaria nos EUA, antiga colônia do Império, a ajuda tão importante para sustentar a guerra. É importante notar que ao longo da obra Roosevelt e Churchill criariam grandes laços de amizade, sendo dessa forma uma versão pessoal da aliança entre as duas potências.
Em 1941, então, a História cobraria da URSS um preço alto por virar as costas para o problema alemão. Não bastasse ter abandonado as democracias ocidentais, Stálin, o todo-poderoso czar do comunismo, ainda ajudaria Hitler a derrotar os poloneses e dividir alguns espólios do Leste europeu. Churchill, obviamente, não poupa aos seus aliados soviéticos críticas; não ao povo soviético, o qual lutou tão bravamente contra os invasores fascistas, mas sim ao governo desumanizado do Kremlin, o qual se apegou à ilusão de que Hitler cumpriria sua parte nos acordos. Ao longo do livro Churchill mostra os altos e baixos do seu relacionamento com os comunistas russos, os quais, durante os anos da guerra, tiveram um noivado forçado com o capitalismo anglo-americano.
Não vou aqui resumir a guerra, pois isso é de conhecimento de muitos. Ao longo das centenas de páginas restantes contou Churchill sobre as lutas de sua pátria contra alemães, italianos e japoneses; sobre as reuniões com os outros líderes europeus e americanos sobre o futuro do mundo e da Europa no pós-guerra; da sua luta para salvar algumas pequenas nações da Europa do domínio stalinista e, claro, suas perspectivas para o mundo no futuro. Explicando suas reuniões, Churchill nos explica como nasceu a ONU, o Conselho de Segurança da ONU e porque eles são assim, criados com o único intuito de impedir que os vencedores começassem outra guerra entre si. Apesar dos pesares, creio que a ONU cumpriu, ao menos em partes, a que foi proposta: unir as potências sob o diálogo e a proximidade, coisa que a Liga das Nações foi incapaz de cumprir.
A que tipo de leitor essa obra é indicada? Bom, obviamente, aos amantes da História e da Política que, criticamente, devem ler o que – importante frisar - um político escreveu sobre sua caminhada nesse período sombrio de nossa História. Churchill é uma figura amada e odiada, inclusive acusado de ser o responsável de muitas mortes. Seus críticos o acusam de ter prolongado a guerra ou até mesmo deixado morrer milhões de indianos de fome durante a luta contra o Japão. São temas que pretendo me aprofundar no futuro, porém não tiram, ao meu ver, a beleza, a unicidade e a importância do livro. Sim, é uma obra única: nenhum líder da Segunda Guerra Mundial – e poucos na História – escreveram memórias de como eles lideraram suas nações durante a guerra. Não há historiador no mundo que pôde ver, ouvir e fazer o que Churchill viu, ouviu e fez. Justamente por isso o livro me chamou muita atenção e, anos depois, ao ler a última página, sinto que a jornada valeu muito a pena.
Odiado e amado, Churchill, sem dúvidas, foi um escritor brilhante. Foi o último cavalheiro do Império no qual o Sol nunca se pôs, mas a guerra poria um fim... não há melhor guia para conhecer intimamente a Segunda Grande Guerra.