Reli para participar de um grupo de leitura e é, definitivamente, meu livro favorito da Ferrante fora da tetralogia. Acho que só agora consegui entender boa parte da estranheza que ela propõe e como é difícil montar o quebra-cabeça criado pelo enredo. E é um livro ótimo para discutir, aliás, é bonito como os livros de Ferrante provocam esse sentimento para fora, como se fizesse parte da experiência de leitura falar à exaustão a respeito deles. F-errante, parece que o movimento dos livros dela é o (de) vagar.
A relação mãe-filha é o assunto principal de Um amor incômodo e é o livro em que ele é mais explorado. Penso muito no que Contardo Calligaris diz sobre isso: nem toda relação entre mãe e filha é horrível, mas as que são, são muito horrorosas. Entre Delia e Amalia é horrorosa porque não houve uma separação. A grande questão em jogo, a meu ver, é a simbiose entre os corpos das duas. Delia não sabe o que é ser uma mulher separada do corpo da mãe, tanto que as identidades das duas se confundem quando a mãe morre. Sabe-se pouco sobre quem é Delia antes dessa morte, basicamente só que ela seguiu uma profissão relacionada a quadrinhos. O processo de luto vai envolver lidar com a perda mas principalmente saber o que fica nela que foi da mãe.
Ao mesmo tempo, Delia não sabe quem foi Amalia. Esse duplo aparece o tempo todo no enredo e fica muito claro quando se fala nas roupas. Delia convive com a culpa por ter fantasiado que entregou a mãe à violência do pai quando era criança e isso a impediu de saber um pouco mais sobre Amalia. O tom de suspense que o livro adquire é mais pela tentativa de Delia agora explorar quem era a mãe do que a descoberta dos acontecimentos em si. Mas, aí vem novamente a dicotomia, ela sabe, desde a saída, que é impossível saber quem era a mãe porque suas memórias de infância são traiçoeiras.
A forma como Ferrante vai construir sua obra já se encontra presente em Um amor incômodo e é impressionante como esses temas sempre surgem de forma circular mas nunca repetitiva. Algo que é próprio desse livro é a forma onírica como ele é contado. Eu sou uma pessoa normalmente distraída e muitas vezes me perdia durante a leitura porque é como se Delia realmente estivesse em um movimento de ser levada pelos acontecimentos e as únicas formas de autonomia que visualizamos é em relação às suas memórias. Só que elas não dão nem sinal de quando vão aparecer e a releitura foi muito proveitosa nesse sentido, perceber como um fato do presente levava a outro do passado que sempre tinha a ver com violência.
E é evidente que Ferrante estava muito influenciada pela teoria da sedução e o conceito de fantasia em Freud. O livro é um prato cheio para quem quiser se debruçar sobre esses temas.