Livro com 70 poemas. Bilíngue (inglês).
Cavalo & catarse -
Djami Sezostre
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Ver maisO indomado e telúrico cavalo em catarse de Djami
“Cavalo & Catarse” (Penalux, 2016, 188 p.), o mais novo livro de Djami Sezostre, é uma bela publicação de poesia. Bilíngue (os 70poemas vêm também traduzidos para o inglês) e quase minimalista, traz em si o melhor de um escritor maduro – Djami é autor de dezenas de obras poéticas – que se redescobre num novo trabalho. As repetições, características do livro em questão, a recorrência morfológica e epistemológica, torna a obra transparente, em que mais se mostra do que se esconde. Naturalmente, como todo labor poético, há sempre mais de uma via de interpretação. Mas ao leitor cabe mais prazer e menos armadilhas nessa senda. Para começar, todos os poemas do livro têm o mesmo título – Cavalo & Catarse – seguido de um subtítulo. A significação de “cavalo” e “catarse” vem no último poema: “Cavalo e catarse Z em transe O que é uma pradaria? E um cavalo, o que é um cavalo? E um cavalo em catarse, o que é? Cavalo catarse nos cerrados.” Aqui, o autor se debruça sobre a terra e seus elementos, tornando seu eu-lírico um ser telúrico, selvagem por excelência, mas em catarse, algo que só um ser humano pode vivenciar. Esse aparente conflito incomoda o leitor mais atento ao longo de toda a obra, mas “cerrados” desfaz o mal-estar: “cerrados” é um útero de mãe, um aconchego. Dele, Djami faz menção em outros poemas, como em “Seer”, onde se proclama o “fauno dos cerrados”, poema existencialista por excelência. Estilisticamente, o autor usa mão da repetição de palavras para desafiar a lei da gravidade poética – a gravidade num sentido de ser grave. Ele remexe tanto os mesmos termos que o poema fica leve, mínimo; ele nomeia e renomeia sensações. Como em “Cavalo e catarse: Gaia”: “Eu fui lá muitas vezes para Saber o que eles faziam e Eles faziam o que eles faziam Eu fui lá muitas vezes para Saber o que eles faziam e Eles faziam o que eles faziam Eu fui lá muitas vezes para Saber o que eles faziam e Eles faziam o que eles faziam Quando eram quando eram heras” O arremate do poema conduz o leitor a outra característica do livro: o jogo com palavras de grafia semelhante. Se aqui temos “eras” e “heras” (que poderia ser “eras”), temos ainda dois exemplos em que o autor usa o termo “via láctea”. Um deles é o poema homônimo que segue: “Também eu vi A mulher pobre Que pedia um Olhar e ninguém A mulher pobre Que pedia um Olhar e ninguém A mulher que Pedia e ninguém Via láctea a mulher” Aqui, novamente temos o recurso da repetição, acrescido da supressão por etapas de termos. Um trabalho singular de artífice. Outro poema que une os dois elementos estilísticos já descrito com o alinhamento dos versos (todos do mesmo tamanho) encontra-se em “Cavalo e catarse: Crisálida”: “Aquilo pode ser tudo Menos o que falaram Que era e não hera e” [...] Se desejássemos pintar “Cavalo & Catarse”, que tem capa P&B, teríamos de pintá-lo de azul, cor recorrente em poemas como “Ópio”, “Azul nix” e “Sol e Estrela”: “Era um/ murmúrio azul/ A voz azul/ O eco azul/ Um azul alado”. Os temas são diversos: puxados mais para o ser poético, mas sem, de maneira alguma, recair numa metalinguagem pedante, flerta ainda com o sexo, como em “O sexo das Novilhas” e “Hímen”; infância (“O Triângulo de Minas Gerais” – “E quem sabe/ Onde fica a/ Infância”); amor romântico (“Amor de luas”) e até uma homenagem, incorporada ao texto do próprio poema, ao movimento modernista em “Pau-Brasil” (aqui, a cor é, de novo, o azul). Um tema recorrente, porém, é a morte. É como se Djami não se conformasse com ela, com a sua perfídia, e botasse na boca de seu eu-lírico as afrontas que com ela houvera de aprontar. “Cavalo e catarse O sétimo céu Não formulei nada para a cena da morte E como não formulei nada melhor não gravar a cena da morte Para não grafar a morte A personagem vai morrer sem preparação corporal E sem construção de personagem Vai morrer naturalmente ao debruar da vida” Nesse poema, trata-se também de uma paixão: a representação fílmica e/ou teatral, tema de outros poemas do livro. Ver duas ou três artes assim coladas, poesia e cinema ou teatro juntas, causa alegria ao leitor apaixonado pela vida e morte que elas celebram. No livro todo, há um único poema rimado (“O fauno de Rio Parnaíba”). Djami, em todos os outros, utiliza-se de outras técnicas de sonoridade, como a aliteração pelas repetições já mencionadas. Justamente por isso, o título do prefácio de Francesco Napoli chama-se “Tudo é música em Djami”. Como se trata novamente de um fauno e de um lugar, pode-se inferir que o poema em questão foi escrito com muito carinho pelo autor, e por isso é único. Aliás, à parte as semelhanças, cada um deles traz a sua marca. Por isso “Cavalo & Catarse” é um livro tão especial.
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