A autora de "A cama na varanda" reune novas, e polemicas, consideracoes sobre sexo, amor romantico, casamento e fidelidade, entre outras questoes.
A autora de "A cama na varanda" reune novas, e polemicas, consideracoes sobre sexo, amor romantico, casamento e fidelidade, entre outras questoes.
Analise e tire suas próprias conclusões, pois guardarei as minhas em segredo pessoal: “…Há quem questione se o amor à primeira vista pode ser duradouro. Na realidade, não faz muita diferença ser à primeira, à sexta ou à décima vista. A questão é outra: se entre a pessoa real e a imaginaria que se formou dela existe grande distancia. Se existir, em pouco tempo o namoro ou casamento se torna insuportável… Porém, isso não acontece somente no amor à primeira vista. Pode ocorrer em qualquer experiência amorosa, desde que se enxergue o outro através da névoa do mito do amor romântico… Ao contrário da paixão, em que ninguém consegue raciocinar, o amor romântico prevê uma vida a dois estável e duradoura. Geralmente ele está associado ao amor à primeira vista, ao casamento e à maternidade e também a crença de que o verdadeiro amor é para sempre. Desde o inicio se intuem as qualidades da pessoa, e a atração que se sente ocorre na mesma medida em que se supõe que ela vai tornar completa a vida do outro. Por isso, a atração sexual que se sente no amor romântico é mais tranqüila, bem diferente do tesão enlouquecido que se vive na paixão… Todas as expectativas e idéias do amor romântico são passados como a única forma de amor, e aprendemos a sonhar e a buscar um dia viver tal encantamento. Entretanto, são varias as mentiras que o amor romântico impõe para manter a fantasia do par amoroso idealizado, em que duas pessoas se completam, nada mais lhes faltando… Durante muito tempo o controle da sexualidade feminina teve a intenção de impedir o sexo antes do casamento. Sexo e reprodução estavam intimamente ligados… Quanto mais a mulher aceira que o prazer no sexo é natural e deve ser desenvolvido, mais o homem fica inseguro quanto a sua competência sexual. Isso faz com que prefira mulheres inexperientes para nunca ser comparado a outros homens… O argumento usado pelas mães, até alguns anos atrás, para controlar o namoro das filhas, era de que qualquer intimidade física antes do casamento faria o rapaz perder o interesse pela moça. Parece que não havia preocupação quanto ao depois. Aí já estariam casados e tudo teria que ser suportado… É evidente que sem independência financeira não existe autonomia. Mas não basta. Existem mulheres totalmente independentes sem autonomia alguma… No amor da amizade as trocas são desinteressadas e sinceras. No amor-paixão, sofre-se muito. Alias, em alemão, a palavra paixão significa sofrimento… É importante ressaltar que é moralista e preconceituosa a idéia de que o que diferencia a amizade do amor é a ausência de desejo sexual. Os amigos podem ter ótimas relações sexuais, se forem pessoas inteiras, livres da idéia romântica de buscar no outro a complementação. Por outro lado, é muito mais fácil superar a necessidade de complementação oferecida pela fusão romântica quando se ama profundamente os amigos… Ao entrar em uma relação amorosa, a dependência infantil reaparece com bastante força. No par amoroso é depositada a certeza de ser cuidado e de não ficar só… O sexo, quando vivido sem medo ou culpa, pode levar a uma comunicação profunda entre as pessoas. A maioria das mulheres se recusa a fazer sexo no primeiro encontro, mas não por falta de desejo. É a submissão ao homem, ou seja, a crença de que tem que corresponder à expectativa dele… O grau de intimidade que você sente na relação com uma pessoa não depende do tempo que você a conhece. Além disso, o prazer sexual também independe do amor ou do conhecimento profundo de alguém. Para um sexo ser ótimo basta haver muito desejo e vontade de curtir… Na Grécia Clássica (século V a.C.) a iniciação sexual de um jovem se dava com o seu tutor. E os cidadãos gregos respeitáveis tinham a mulher e filhos, embora as relações sexuais não fossem somente com a esposa. Havia as concubinas, as cortesãs e os efebos (jovens rapazes)… Quando é que vamos entender que só é possível um casamento funcionar bem e durar muito, se for como sempre foi: uma união por interesses políticos e econômicos? Essa novidade de se misturar romance e expectativa de satisfação sexual no casamento dificilmente vai dar certo. São ingredientes totalmente incompatíveis com a união estável, e durante séculos não se duvidou disso… Por desinformação, acredita-se que o casamento foi constituído por Deus. Ignoram que, no inicio da Igreja Católica, o horror ao sexo era tanto, que o casamento era visto como um sistema repugnante e poluído. Quem optava por não se casar era considerado superior. Não admitiam que no casamento pudesse haver um bem positivo ou que o afeto entre marido e mulher fosse belo e desejável. Até o século XIII, a igreja não intervinha na união conjugal entre os nobres. Era um contrato entre duas famílias. Caso a mulher não procriasse, era devolvida à sua família ou ia para um convento. Só a partir dessa época é que decidiram controlar o casamento, transformando-o num sacramento. Quem tem coragem de contrariar o que é sagrado?… Casamento não é confessionário. Quando tudo é conhecido, se não existe nada no parceiro que não se saiba, não há surpresa, não há nenhuma novidade, não há descoberta. O que existe, como conseqüência natural dessa vida tão sem emoção, é um profundo desinteresse… A poligamia – sistema em que é permitido ao homem ter mais de uma esposa de cada vez – existe em 84% das sociedades humanas… Na realidade, tanto os homens quanto as mulheres têm relações extraconjugais com a mesma satisfação. As mulheres que desejam viver essa experiência e não têm coragem é porque ainda estão influenciadas pela educação repressora que só ao homem facilita o prazer de variar de parceiro… A Revolução Sexual chegou trazendo mudanças. O sexo se abriu a discussões e as mulheres passaram a exigir o direito ao prazer: as casadas se desinibiram com os maridos, as solteiras já não se obrigavam à virgindade. Mas a prostituição não acabou. Houve épocas em que as prostitutas eram tratadas com respeito. A prostituição sagrada era comum na Antiguidade, e em alguns casos as próprias sacerdotisas eram meretrizes. Com o Cristianismo, os templos foram fechados e ela passou a ser comercializada, abrindo espaço para a exploração das mulheres. Elas trabalhavam em bordeis e casas de banho, sendo que só recentemente se tornou comum a prostituição individual. Sempre segregadas e desvalorizadas, as prostitutas não deixavam de ser consideradas úteis e necessárias. As moças de família precisavam chegar virgens ao casamento, ao contrario dos rapazes, que tinham que provar sua virgindade antes de se casar. Assim, ao mesmo tempo que contribuía para preservar a castidade da moça, a prostituta atestava que o rapaz era viril. Os casados também usufruíam de seus serviços: os maridos buscando fora de casa a satisfação das necessidades sexuais que não podiam obter com as esposas, e estas se mantendo respeitáveis, justamente por isso. Assim, as prostitutas ainda contribuíam para manter a moral hipócrita da sociedade… Independente do prazer que possam obter com as esposas ou namoradas, os homens adoram prostitutas. A parceira aceita cada vez menos ser simples objeto disponível para a satisfação masculina. Exige prazer e avalia o parceiro. Com as prostitutas é só pagar em dinheiro e pronto. O homem não deve mais nada… Qualquer atividade sexual que não levasse à procriação era considerada crime ou pecado. Na Inquisição o acusado de masturbação era tido como herege e condenado a morrer na fogueira. Sempre se falou mais da masturbação masculina, embora existam relatos de extirpação do clitóris, para impedir que a mulher se masturbasse… Entretanto, a masturbação faz parte da sexualidade normal… Foi o advento da pílula anticoncepcional que provocou uma verdadeira ruptura na historia da humanidade. O sexo foi dissolvido da procriação, e passou a se relacionar com o prazer. A mulher pôde então escolher se queria ter filhos ou não, e de quem. Além disso entrou decidida no mercado de trabalho. A luta pela igualdade de direitos com os homens ganhou força até então desconhecidas, tornando-se irreversível desta vez… Desejo sexual e amor são emoções distintas, que podem existir juntas ou separadas. Não há motivo para o sexo não ser ótimo quando praticado entre duas pessoas que sentem atração e desejo uma pela outra. Porém, é comum o medo de que, sem amor, quando a relação sexual chegar ao fim, a frustração e uma sensação de vazio tomem conta da pessoa. Sem duvida, isso vai ocorrer se existir pretensão de algo diferente do próprio prazer sexual. A frustração só ocupa o espaço de uma expectativa não satisfeita. O problema é que, como o sexo não é visto como natural, costuma-se misturar as coisas e se busca algo mais do que o prazer: continuidade da relação, namoro ou casamento. Aí a frustração não é pelo sexo e sim por um projeto que não se realizou… Homens inseguros necessitam testar o tempo todo seu poder de sedução. Na verdade, eles não desejam uma pessoa especifica, o que querem é conquistar alguém para se certificar que são machos… Se o movimento depois da penetração for mais lento e circular, de forma a tocar a parede do canal vaginal e pressionar o ponto G, a mulher atingirá o orgasmo mais facilmente. Outra dificuldade surge quando o homem tenta que a mulher tenha orgasmo no clitóris. Muitas vezes a estimulação dessa área é feita com movimentos rápidos e com força, afastando qualquer possibilidade de prazer, sendo desconfortável e até doloroso. É muito provável que, libertando-se dos modelos de amor, casamento e sexo, impostos pela cultura patriarcal, que transformou o sexo num meio de afirmação da masculinidade para os homens e de submissão para as mulheres, ambos comecem a usufruir livremente da troca de sensações de prazer, e o orgasmo se torne muito melhor e fácil de ser alcançado… Existe uma razão ainda maior para que no casamento o sexo se transforme em algo monótono e sem graça. É a ideologia da monogamia… Uma relação extraconjugal é sempre melhor do que o casamento sem graça de duas pessoas que desistem do sexo e ficam pressas uma à outra por dependência e medo da vida… Desde criança aprendemos uma mentira bastante limitadora: só podemos nos realizar afetivamente através de uma relação amorosa estável – namoro ou casamento. Além disso, para complicar ainda mais, existe o hábito de se confundir amor com tesão… Acreditamos que no amor temos que buscar no outro algo para nos completar. Isso é falso. Por causa dessa idéia é que existe tanta gente infeliz na vida… Na verdade, ninguém completa ninguém. Nossas dificuldades, limitações e mesmo nosso sentimento de desamparo não podem ser resolvidos através do outro, e sim atenuados dentro de nós mesmos… As relações amorosas do adulto funcionam mal porque a maioria tende a reeditar inconscientemente com o parceiro a relação típica da infância… Há no amor entre duas pessoas muito diferentes um inconveniente mais sério e bastante comum: a inveja. Há quem diga até que a inveja nasce imediata e espontaneamente da admiração. Será que quando admiramos e nos encantamos tanto por alguém oposto a nós, estamos realmente satisfeitos com o que somos?… A idéia corrente era a de que necessitar e gostar de sexo fazia parte da natureza masculina. Ao contrario do que ocorria com a mulher, que, segundo se afirmava, não ligava muito para isso, além de considerar inadmissível desvincular sexo de amor. Claro que essas teorias, criadas pelos homens, mascaravam seu objetivo real: limitar a liberdade e o prazer sexual das mulheres, para que continuassem passivas e inexperientes. Só assim os homens poderiam continuar seguros e confiantes numa área tão vulnerável como a sexualidade… Casamento e desejo sexual raramente caminham juntos. Todos sabem disso, mas da mesma forma que fazem com outros aspectos da vida a dois, fingem não saber… Quantas mulheres casadas, respeitadas e valorizadas socialmente, se prostituem com seus próprios maridos? O numero delas, que faz sexo com o marido sem nenhuma vontade, em troca do próprio sustento, é enorme… A prostituta é desprezada, mas não se preocupa em disfarçar seu objetivo. Simone de Beauvoir esclarece com uma frase a diferença entre as prostitutas e grande parte das mulheres casadas: ‘Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato… Para ter certeza da fidelidade da esposa, varias estratégias foram adotadas. As mulheres eram trancadas em casa, não podiam se comunicar com ninguém, e até cinto de castidade foram obrigadas a usar – o marido ia para a guerra e levava a chave. Quando nada disso adiantava, elas podiam ser apedrejadas, acoitadas e mortas, se fosse descoberto um adultério. Para o homem não havia essa exigência. Prover a família era o suficiente para ser considerado bom marido, mesmo que freqüentasse bordeis… Ao contrario do que os homens pensam, o clitóris não deve ser tocado para a mulher atingir o orgasmo ejaculatório… Muitas mulheres consideram o orgasmo vaginal qualitativamente superior ao orgasmo clitoriano… Muito desejo sexual pelo parceiro, liberdade e nenhuma pressa são fatores decisivos para que no ato sexual se experimentem sensações e emoções intensas… O homem pode aprender a ter vários orgasmos consecutivos, mas intensos e fortes, sem ejacular nem perder a ereção… Para haver uma relação amorosa gostosa entre duas pessoas, elas devem estar juntas somente pelo prazer da companhia um do outro, e não reproduzindo a mesma dependência emocional que tinham com a mãe quando eram crianças. Como conseguir isso? O primeiro passo é desenvolver a capacidade de viver bem sozinho. É descobrir o prazer da própria companhia… Será que vai demorar muito para chegar o dia em que cada um de nós terá vários parceiros? Um para ir ao teatro, outro para viajar, aquele para dançar, o especial para o sexo, claro, e assim por diante. Tenho forte intuição de que todos vamos viver muito mais alegres e satisfeitos…”

Regina Navarro Lins é uma psicanalista e escritora brasileira. Também é palestrante em assuntos como relacionamentos afetivos e sexualidade. Autora de doze livros sobre relacionamento amoroso e sexual, entre eles o best seller A Cama na Varanda, com mais de 50 mil cópias vendidas. Exerce ampla atuação na mídia, como colunista (blog no portal UOL, coluna semanal no jornal O Dia-RJ), cronista (na rádio Metrópole (Salvador), consultora (no Programa Amor & Sexo, Rede Globo) e colunista do quadro Sexo em Pauta, da GloboNews. Realiza palestras em todo o Brasil e atende casos particulares em consultório. Atende presencialmente no Rio, e à distância por Skype. Foi professora da cadeira de Psicologia e Comunicação, do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, quando criou a cadeira de Dinâmica de Grupo. Tem dois filhos, de casamentos anteriores e uma neta e, desde 2000, é casada com o romancista e dramaturgo Flávio Braga.
