ler Memórias de um Burro, aos 10 anos, foi meio estranho pra mim, porque eu fui esperando uma coisa leve, quase boba, e saí com um incômodo que não combina nada com a aparência do livro.
o Cadichon não fala como alguém que quer ensinar, ele só conta, e talvez seja exatamente isso que pesa porque não tem discurso bonito, não tem tentativa de transformar dor em lição. só tem acontecimentos. e, no meio deles, pequenas violências que vão sendo tratadas como normais.
o que mais me pegou não foi um momento específico. foi a repetição.
é perceber que ele erra, é punido, tenta de novo, erra de outro jeito, e continua. não tem grande mudança. não tem aquele momento clássico de “agora tudo vai melhorar”. a vida dele segue meio assim: dependendo de quem cuida, de quem manda, de quem decide.
e isso me deu uma sensação meio desconfortável, porque foge daquela ideia de justiça que a gente gosta de encontrar nas histórias. aqui, nem sempre existe.
tem uma coisa meio silenciosa no jeito que ele aceita certas situações. não é resignação bonita, nem força admirável. é mais falta de escolha mesmo. e isso é o que mais incomoda, porque parece real demais.
e, ao mesmo tempo, ele não deixa de ser leve. ele continua curioso, meio ingênuo, às vezes até engraçado. e isso cria um contraste estranho, porque enquanto ele segue tentando viver do jeito dele, você já está percebendo coisas que ele talvez nem perceba completamente.
não é um livro que me fez “sentir muito” de forma intensa. foi mais um incômodo contínuo, baixo, constante. como se ele estivesse o tempo todo mostrando pequenas coisas erradas que normalmente passam despercebidas.
e acho que o mais diferente nele é isso: ele não te guia emocionalmente. ele não força nada.
ele só mostra.
e te deixa sozinho pra decidir o que fazer com aquilo.