Em 2009 eu conheci o trabalho da autora americana Cassandra Clare. Li a série Instrumentos Mortais com a voracidade de uma leitora que estava órfã após o termino da saga Crepúsculo. Eu não poderia imaginar que estaria descobrindo uma das autoras mais talentosas dos últimos anos. A saga da humana Clary e os caçadores de Sombra é original, recheada de diálogos espirituosos e um romance proibido sedutor. A série é composta por cinco livros até o momento, os três primeiros já publicados no Brasil pelo selo Galera da editora Record. Quando a autora revelou que lançaria uma nova série que se passaria dentro do mesmo universo fantástico e que o cenário histórico seria a Londres da era vitoriana, eu simplesmente delirei. Cassandra Clare não faz nada pela metade, o que quer dizer que se ela iria ambientar sua estória na Inglaterra, ela faria isso com uma qualidade superior. E eu estava correta. A trilogia As Peças Infernais é, em todos os aspectos que importam uma leitura emocionante, capaz de despertar emoções fortes e um interesse genuíno do leitor por seus personagens.
Anjo Mecânico é o primeiro volume da trilogia e narra a chegada de Tessa Gray, uma americana órfã e de origem pobre à Inglaterra, onde embarca em uma aventura para salvar a vida do irmão e acaba descobrindo um universo sombrio e perigoso, onde os seus poderes recém-descobertos valem ouro. Tessa é uma personagem admirável pela persistência. Ela é altruísta e extremamente unida ao irmão, por quem se sente responsável. Tessa é firme. Aguenta e passa por cima. Essa é uma característica que eu admiro. Gosto do tipo de pessoa que ela representa. Introspectiva, entretanto com uma mente afiada. Muito observadora sagaz e amante dos livros. Como não gostar de Tessa?
Em seu caminho estão Will e Jem, dois caçadores das sombras determinados a ajudá-la. Jem é metade oriental, toca violino, é contemplativo e bem humorado. Embora ele tenha seus próprios demônios para derrotar, é uma pessoa muito confiável e sensata. Um observador cuidadoso dos seres humanos e suas motivações, ele é o melhor amigo de Will. Arrogante, enganador, e lindo. Esse é o Will. Algumas pessoas caem no erro de compará-lo à Jace, da série Os Instrumentos Mortais, mas é um equívoco que os mais perceptivos não vão cometer. Will é misterioso e fechado de uma forma que Jace jamais foi. O leitor começa e termina a leitura sem realmente conhecer o personagem. E pode ter certeza que ele prefere assim. Jem é delicado, calmo, mas tão determinado e feroz quanto Will. A amizade de ambos é uma das qualidades da obra, ninguém escreve laços emocionais como Cassandra Clare. E aqui também me refiro ao relacionamento dos dois com Tessa. E sim, em Anjo mecânico o terreno está sendo fertilmente preparado para um triângulo amoroso, e no próprio livro a protagonista leitora ávida se refere à obra de Charles Dickens, "Um Conto de duas Cidades", como um de seus livros favoritos. Quem já leu sabe que o clássico narra um triângulo amoroso difícil, doloroso e trágico. Tenho a impressão de que estamos indo pelo mesmo caminho em As Peças Infernais e, já tendo lido a continuação Clockwork Prince (Príncipe mecânico) posso afirmar sem spoilers que o nó da situação vivenciada pelos três personagens apenas se complica na sequência. Já que estamos falando de dois melhores amigos apaixonados pela mesma mulher.
O cenário nos transporta para uma Londres de "Jack, o estripador". Nevoeiros, sobretudos e chapéus longos. O posicionamento histórico nos mostra um dos grandes conflitos das mulheres caçadoras de sombras na época. Charlotte, a personagem responsável pelo instituto de Londres, luta contra o preconceito de outros caçadores e tenta ao máximo se destacar. Ao mesmo tempo conhecemos Jessamine, uma caçadora que ignora seus deveres e deseja apenas se casar e ser uma dama da sociedade. Ambas as personagens mostram dois lados da balança e o questionamento, ser ou não uma guerreira, e as complicações que ambas as posições atraem. Alguns personagens conhecidos dos leitores fazem aparições especiais na trama, como Magnus Bane, o bruxo bissexual que usa purpurina até nas ceroulas, e a família Lightwood.
A ação, que é marca registrada de Cassandra Clare, também se faz protagonista na estória. A cada capítulo novas revelações são feitas e os leitores acompanham ávidos os acontecimentos. Personagens de apoio fascinantes, diálogos inteligentes e divertidos, um romance arrebatador e uma protagonista carismática, que não tem medo de falar o que pensa e fazer as perguntas certas. Os anos de trabalho certamente elaboraram sua habilidade narrativa e o resultado é um livro que oferece o melhor que o gênero tem a oferecer. Se você quer conhecer personagens encantadores, uma trama comovente e ainda descobrir um pouco mais sobre o passado dos caçadores de sombras e seus inimigos, a série As Peças Infernais certamente é indicada.
BRILHANTE!
Aproveitem e depois voltem para me contar, não tenho dúvidas de que vão amar o livro tanto quanto eu.
O que estão esperando?