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    Crônica da casa assassinada - Edição crítica, coordenação de Mário Carelli

    Lúcio Cardoso

    ALLCA XX
    1996
    820 páginas
    1d 3h 20m
    ISBN-13: 9788489666177
    Português Brasileiro
    4.8
    6 avaliações
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    Lúcio Cardoso não é um memorialista, mas um inventor de totalidades existenciais. Não faz elencos de atitudes ilhadas: postula estados globais, religiosos, de graça e de pecado. O romancista, nesa obra-prima, lança-se à reconstrução admirável do clima de morbidez que envolve os ambientes (quem esquecerá o fundo esverdinhado da velha chácara onde há mofo e sangue?) e os seres (indelével, a figura de Nina, atraída pela vertigem da dissolução no própio eros). […] Lúcio Cardoso se encaminhava, nessa fase madurada da sua carreira de artista, para uma forma complexa de romance em que o introspectivo, o atmosférico e o sensorial não mais se justapusessem mas se combinassem no nível de uma escritura cerrada, capaz de converter o descritivo em onírico e adensar o psicológico no existencial. -- Alfredo Bosi

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    Sebo Por Todo Canto Livros01/10/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso

    Editora Record, 1979, Rio de Janeiro, 536 páginas. Trecho Predileto de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso, por Sandra Abrano Na pilha de livros que quero ler, coloquei os escritores brasileiros como prioritários. LÚCIO CARDOSO estava em minha lista há tempos. Bom, a fila andou e chegou a vez de CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA. Densidade é que não falta ao livro. E personagens carismáticos, alguns são sombrios outros estão submersos em mágoa. Técnica de escrita primorosa, registro de uma época e de uma classe social (a tal decadência de quem algum dia foi). Sensação de sufocamento, afogamento, little death too, prazer e falta de ar, ai, quantas sensações doloridas em uma única leitura. Diários, cartas, confissões, depoimentos, narrativas multiplicam as vozes que contam do amor, traição, mentiras, adultério, incesto e decadência, muita decadência. Há limite para o amor e para a dor? Trecho Predileto? Vários. Por ora, o trecho da p. 26: Sem pressa, com a mesma timidez de quem desobedece ditames de uma lei oculta, inclinei-me e levantei a ponta do lençol. Foi a primeira vez que vi o rosto de um cadáver, e aquilo deu-me uma sensação estranha como se uma música longínqua, em acordes muito finos, vibrasse em meu espírito. Ah, seria impossível expressão humana modificar-se com maior rapidez: nela, de linhas tão suaves e perfeitas, tudo havia sido vincado com violência, desde os cílios alongados, um tanto excessivamente, até a testa branca, larga demais, e a curva acentuada das asas do nariz, positivando um aspecto inesperado de semita. E em torno deste rosto, a rigidez estabelecera uma aura intransponível. Bem se via que a morte não era uma brincadeira, que o ser estabelecido originalmente, e toscamente modelado em barro pelas mãos de Deus, ali irrompia de todos os disfarces, para se instalar onipotente em sua essência mais verídica. Bem se via também que tudo se achava definitivamente dito entre nós. Inúteis as palavras que haviam sobrado, os afagos que não haviam sido feitos, as flores com que ainda pudéssemos adorná-la. Libertada, repousava em sua pureza final. Ah, e inútil também tudo o que não fosse fúria e submissão. Sem resposta, como se nós, criaturas, nada mais merecêssemos senão o luta e a injustiça, tudo terminava ali. E o que existira não passara de um sonho, de uma magnífica e passageira ilusão dos meus sentidos. Nada conseguiria mais romper o duro peso que se acumulava sobre meu coração, e diante daquela ruína, já tocada pela corrupção, eu custava a reconhecer aquela que fora o objeto do meu amor, e nenhuma lágrima, nem mesmo de piedade, subia-me aos olhos. Tão sem pressa quanto suspendera a ponta do lençol, inclinei-me e beijei o rosto daquela mulher -- como já o fizera tantas e tantas vezes --, mas sentindo que desta vez era inútil e que eu já não a conhecia mais. Sandra Abrano sobre CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA de Lúcio Cardoso.

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    Joaquim Lúcio Cardoso Filho  profile picture

    Joaquim Lúcio Cardoso Filho

    Lúcio Cardoso nasceu em Curvelo, Minas Gerais, a 14 de agosto de 1912 e faleceu em 28 de setembro de 1968 no Rio de Janeiro Devido ao assunto de seu primeiro romance foi agrupado entre os regionalistas; entretanto, sua produção tem muito mais afinidade com o grupo "espiritualista" de Cornélio Pena, Schmidt, Otávio de Faria, Vinicius de Morais. Cardoso era mais ou menos abertamente homossexual, o que se traduziu na sua obra como mais uma instância particular do tema geral da redenção possível de uma humanidade ontologicamente pecaminosa, que ele compartilhou com todos os seus colegas de movimento. Em 1966 recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, por conjunto de obra. Em um universo ontologicamente dilacerado, com uma prosa cuja poesia dá vazão ao desejo transgressivo, os personagens se desnudam em tensões recriadoras da objetividade do mundo. Ao lado de Clarice Lispector e Cornélio Pena, ele foi o principal nome do romance intimista brasileiro, e realizou, com Paulo César Saraceni, o primeiro longa-metragem do Cinema Novo, além de seus romances terem sido adaptados para as telas. Ao ter de abandonar a escrita por causa de um derrame cerebral, recusou o afastamento da criação, passando a pintar belos quadros, ainda que com os poucos movimentos que lhe restaram.

    25 Livros
    62 Seguidores
    Minas Gerais, Brasil

    Joaquim Lúcio Cardoso Filho