Birman é um dos maiores e melhores escritores de psicanálise deste país, muito me espanta que na graduação não tenha sido muito indicado pelos professores, seus livros são aulas para destruir todas as aulas, se o tivesse lido antes não teria implicado tanto com a psicanálise por tanto tempo.
Na introdução e primeiro capítulo o autor dá indícios do que se explicará pormenorizadamente por todo o livro.
No capítulo dois Birman explica que a hierarquização entre homens e mulheres tomou forma na Grécia antiga com a teoria dos humores, mas que havia um sexo único que mudaria de forma, a divisão dos sexos ocorreu mesmo só em tempos da revolução francesa em que teoricamente todos os cidadãos seriam iguais, ocorrendo aí um colapso na dita inferioridade da mulher. A partir do século XVIII a dita inferioridade feminina foi calcada em questões puramente biológicas.
Nos capítulos três e quatro o autor contempla o biopoder e a medicalização do feminino a partir do século XIX, de como as mulheres foram moldadas hierarquicamente à se sujeitarem exclusivamente ao papel de mãe rejeitando a própria sexualidade - incluindo aí terem seus clitóris cirurgicamente removidos. Toda a suposta cientificidade em relação às mulheres no século XIX foi calcada em questões morais presididas pelo cristianismo, qualquer mulher que ousasse sair do papel dona de casa-mãe seria uma anomalia e considerada doente pelos médicos da época - das histéricas às mulheres que viviam sua sexualidade em busca de prazer.
Nos capítulos cinco e seis Birman se atem mais detalhadamente como era vista a histeria no século XIX e como posteriormente Freud subverteu todas as questões da anatomoclínica para finalmente encontrar a cicatriz psíquica das histéricas, estas que por meio da linguagem na experiência catártica se viam livres do sintomas.
No sétimo capítulo o autor destrincha todas as imensas bobagens sobre a feminilidade dentro da teoria freudiana, desde o monismo fálico até a mulher ser inscrita na subjetivação através da castração. Pudera Freud ter vivido mais dez anos para aprender alguma coisa com a Beauvoir.
É no oitavo é último capítulo que Birman traz os detalhes do porque ter escrito esse livro, aqui ele prega uma releitura da feminilidade freudiana, de que esta sim era a questão originária e não o portador do falo e aqui ele se aproxima de Lacan, em que a imperfeição da feminilidade seria a origem psíquica primordial - também próxima da pulsão de morte. Ou seja, não seríamos mais subjugadas ao poder do falo de uma Eva nascida de um Adão e sim seríamos a Lilith primordial.