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    Duas narrativas fantásticas (Coleção Leste) - A dócil e O sonho de um homem ridículo

    Fiódor Dostoiévski

    Editora 34
    2009
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-10: 8573262710
    Português Brasileiro
    4.3
    4605 avaliações
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    Designadas pelo próprio autor como "narrativas fantásticas", as duas novelas aqui reunidas foram publicadas pela primeira vez nas páginas do Diário de um escritor, publicação mensal redigida por Dostoiévski entre 1876 e 1881. Em A dócil, um homem desesperado refaz, diante do cadáver da mulher, a história de seu relacionamento, tentando compreender passo a passo as razões que a levaram ao suicídio. Já em O sonho de um homem ridículo, o narrador, a ponto de acabar com a própria vida, adormece na poltrona diante do revólver carregado. Principia então um dos sonhos mais extraordinários da história da literatura, durante o qual Dostoiévski anuncia a possibilidade de uma vida utópica em outro planeta antes de seus habitantes serem contaminados pelo veneno da autoconsciência. Ambas as narrativas partilham da mesma "introspecção verrumante" que Boris Schnaiderman apontou no protagonista de Memórias do subsolo, livro com o qual estas obras mantêm grande afinidade. Tanto lá como aqui, o escritor russo submete a forma do monólogo a tal intensidade dramática, que o resultado ultrapassa as fronteiras daquilo que nos acostumamos a chamar de literatura.

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    Alane Sthefany23/03/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Duas Narrativas Fantásticas - Fiódor Dostoiévski

    A Dócil É uma novela escrita por Fiódor Dostoiévski, em 1876, que conta a história do envolvimento amoroso do dono de uma casa de penhores, um homem mais velho (considerado um ser mal), com uma adolescente de 16 anos (que é apresentada por ele - narrador personagem - como uma mulher dócil), com quem se casa, e que no final acaba culminando em uma tragédia. Apesar de apresentar diálogos entre os protagonistas, a narrativa é basicamente em primeira pessoa, descrevendo os pensamentos e sentimos conturbados do protagonista sobre seu relacionamento com essa jovem. 📚 O Sonho de Um Homem Ridículo É um conto do escritor russo Fiódor Dostoiévski de 1877. É dividido em cinco partes, também é contado por um narrador-protagonista, que teve uma revelação através de um sonho utópico. Ele relata suas experiências a partir do momento em que conclui que não há mais nada para viver, que ele é indiferente a tudo que acontece, e que possa vir acontecer, e também a todos. Ele decide portanto, cometer suicídio, e se tornar um nada. No entanto, um encontro inesperado com uma criança o faz mudar de ideia. [...] Foi meu primeiro contato com Fiódor Dostoiévski, e eu amei. No primeiro (A Dócil), eu achei o início um pouco arrastado, não estava entendendo muito, devido os personagens não serem apresentados por nomes (são omitidos dentro da história), no entanto, através de pronomes pessoais a todo momento (como: ela, eu ...), mas logo peguei o ritmo da leitura e me habituei. Muito bem escrito. Entretanto, o que me prendeu foi o segundo. Eu amei o segundo livro (O Sonho de Um Homem Ridículo), tanto, que eu já estou terminando de ler em outra edição (da Antofágica) do mesmo. Fiódor Dostoiévski tem uma mente brilhante, escritor sensacional, com certeza lerei mais obras dele 😍❤️ Trechos Preferidos ✍🏻📚 1. A Dócil - Fiódor Dostoiévski [...] eu sou uma parte daquela parte do todo que quer fazer o mal, mas cria o bem...” . Nós somos malditos, a vida dos homens é maldita em geral! (A minha, em particular!) . A docilidade, porém, atrapalhava. Quando uma criatura dessas se revolta, ainda que passe dos limites, é sempre evidente que ela só está violentando a si mesma, instigando-se a si mesma, e que ela é a primeira a não conseguir lidar com a sua pureza e a sua vergonha. É por isso que essas criaturas às vezes excedem a tal ponto a medida que você não acredita no seu próprio senso de observação. Já uma alma habituada à perversão, ao contrário, sempre vai abrandar, vai fazer sujeira pior, mas mantendo as aparências da ordem e do decoro, cuja pretensão é levar vantagem sobre os senhores. . Ao suportar o revólver, eu tinha me vingado de todo o meu passado sombrio. E, ainda que ninguém tenha ficado sabendo daquilo, ela porém ficou sabendo, e isso era tudo para mim, porque ela mesma era tudo para mim, toda a esperança do meu futuro que eu sonhava nos meus sonhos! Ela era a única pessoa que eu estava preparando para mim, já nem precisava de outra—e eis que ela ficou sabendo de tudo; ela ficou sabendo pelo menos que tinha se precipitado injustamente em se unir aos meus inimigos. . O pêndulo bate insensível, repugnante. Duas horas da madrugada. As suas botinhas estão junto da cama, como que esperando por ela... Não, é sério, quando amanhã a levarem embora, o que é que vai ser de mim? [...] 2. O Sonho de Um Homem Ridículo (Quase o livro inteiro) Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê. Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las. [...] Naquele dia eu quase não almoçara, e desde o começo da noite estivera na casa de um engenheiro, que recebia mais dois amigos. Eu não abri a boca o tempo todo, e pelo jeito eles se aborreceram comigo. Conversavam sobre algo polêmico, e de repente até se inflamaram. Mas para eles tudo era indiferente, eu via isso, e se acaloravam à toa. De repente desabafei-lhes isso mesmo: “Ora, senhores, para vós tanto faz”. Não levaram a mal, apenas começaram a rir de mim. É que falei sem nenhuma censura, e só porque para mim tudo era indiferente. Viram mesmo que para mim tudo era iidiferente e se alegraram muito. . Me irritei em consequência da conclusão de que, se eu já tinha decidido que nessa mesma noite me mataria, então, por isso, tudo no mundo, agora mais do que nunca, deveria me ser indiferente. Por que é que eu fui sentir de repente que nem tudo me era indiferente, e que eu tinha pena da menina? (...) Parecia-me evidente que, se eu sou um homem e ainda não um nada, e enquanto não me transformei num nada, então estou vivo, e consequentemente posso sofrer, me zangar ou sentir vergonha pelos meus atos. Que seja. Mas se eu vou me matar, por exemplo, daqui a duas horas, então o que é que me importa a menina e o que é que tenho a ver com a vergonha e com o resto do mundo? Eu me transformo em nada, num nada absoluto. E será que a consciência de que nesse instante eu vou deixar de existir completamente, e que portanto nada mais vai existir também, não poderia ter a mínima influência nem no sentimento de pena pela menina, nem no sentimento de vergonha depois da baixeza cometida? (...) Parecia-me evidente que a vida e o mundo agora como que dependiam de mim. Podia-se até dizer que o mundo agora como que tinha sido feito só para mim: dou-me um tiro e não há mais mundo, pelo menos para mim. Sem falar ainda de que, talvez, não vá haver realmente nada mais para ninguém depois de mim, e todo o mundo, assim que se extinguir a minha consciência, vai se extinguir no mesmo instante, como um fantasma, como um atributo apenas da minha consciência, e, porque vão sumir, talvez, todo esse mundo e toda essa gente — só eu é que existo. (...) Ocorreu-me de repente a estranha consideração de que, se eu vivesse antes na lua, ou em Marte, e lá cometesse o ato mais canalha e mais desonesto que se possa imaginar, e lá fosse achincalhado e desonrado como só se pode sentir e imaginar às vezes dormindo, num pesadelo, e se, vindo parar depois na terra, eu continuasse a ter consciência do que cometi no outro planeta e, além disso, soubesse que nunca mais, de jeito nenhum, voltaria para lá, então, olhando a lua da terra—tudo me seria indiferente ou não? Sentiria vergonha por aquele ato ou não? (...) Às vezes vejo o meu irmão em sonho: ele toma parte nos meus negócios, estamos bastante compenetrados, e no entanto, ao longo de todo o sonho, sei e lembro muito bem que o meu irmão está morto e enterrado. Como é que não me espanto com o fato de que, embora esteja morto, mesmo assim ele está aqui ao meu lado e se atarefa junto comigo? Por que o meu juízo admite tudo isso? (...) Eles agora caçoam de mim dizendo que isso, afinal, foi só um sonho. Mas por acaso não dá no mesmo, seja isso um sonho ou não, já que esse sonho me anunciou a Verdade? Pois, se você uma vez conhece a verdade e a enxerga, então sabe que ela é a verdade e que não há outra e nem pode haver, esteja você dormindo ou vivendo. Ora, que seja um sonho, que seja, mas essa vida que vocês tanto exaltam, eu queria extingui-la com o suicídio, e o meu sonho, o meu sonho—ah, ele me anunciou uma vida nova, grandiosa, regenerada e forte! (...) Nos sonhos, vocês às vezes despencam das alturas, ou alguém os corta, ou lhes bate, mas vocês nunca sentem dor, a não ser que vocês mesmos de algum modo se machuquem de verdade na cama, aí sim vão sentir dor e quase sempre acordar por causa dela. (...) Estou morto, completamente morto, sei disso e não duvido, não enxergo e não me movo, e no entanto sinto e raciocino. Mas logo me conformo com isso e, como de hábito nos sonhos, aceito a realidade sem discussão. (...) Eu jazia e, estranho -, nada esperava, aceitando sem discussão que um morto nada tem a esperar. (...) Esperava o não-ser absoluto, e por isso dei um tiro no coração. E eis que estou nos braços de uma criatura, não humana, é claro, mas que é, existe: “Ah, então há também uma vida além-túmulo!” . Sabia que há nos espaços celestes certas estrelas cujos raios só alcançam a terra depois de milhares e milhões de anos. . Um sentimento doce, invocatório, começou em êxtase a ressoar na minha alma: a força motriz do universo, desse mesmo universo que me deu à luz, pulsou no meu coração e o ressuscitou, e eu pude sentir a vida, a vida de antes, pela primeira vez desde a minha sepultura. (...) Serão possíveis tais repetições no universo, será possível que seja assim a lei da natureza?... E se lá está a terra, será possível que ela seja igual à nossa... exatamente igual, desgraçada, pobre, mas preciosa e para sempre amada, que gerou, até nos seus filhos mais ingratos, o mesmo torturante amor por si, como a nossa? (...) de repente o sentimento estranho de uma espécie de ciúme grande, sagrado, inflamou-se no meu coração: “Como é possível semelhante repetição, e para quê? Eu amo, eu só posso amar aquela terra que eu deixei, onde ficaram os respingos do meu sangue, quando eu, ingrato, com um tiro no meu coração, extingui a minha vida. Mas jamais, jamais deixei de amar aquela terra, e mesmo naquela noite, ao me separar dela, talvez a amasse com mais tormento do que nunca. Existe tormento nessa nova terra? Na nossa terra não podemos amar de verdade senão com o tormento e só pelo tormento! De outro modo não sabemos amar e não conhecemos amor diferente. Eu quero o tormento para poder amar. Eu tenho desejo, eu tenho sede, neste exato instante, de beijar, banhado em lágrimas, somente aquela terra que deixei, e não quero, não admito a vida em nenhuma outra!...”. (...) Ah, tudo era exatamente como na nossa terra, mas parecia que por toda a parte rebrilhava uma espécie de festa e um triunfo grandioso, santo, enfim alcançado. (...) E, finalmente, eu vi e conheci os habitantes dessa terra feliz. Eles mesmos se aproximaram de mim, me rodearam, me beijaram. Filhos do sol, filhos do seu próprio sol—ah, como eles eram belos! Eu nunca tinha visto na nossa terra tanta beleza no homem. Só nas nossas crianças, nos seus mais tenros anos de vida, é que talvez se pudesse achar um reflexo, embora distante e pálido, de tal beleza. Os olhos dessa gente feliz reluziam com um brilho límpido. Os seus rostos irradiavam uma razão e uma certa consciência que já atingiu a plena serenidade, mas esses rostos eram alegres; nas palavras e nas vozes dessa gente soava uma alegria de criança. Ah, imediatamente, no primeiro olhar que lancei aos seus rostos, entendi tudo, tudo! Essa era a terra não profanada pelo pecado original, nela vivia uma gente sem pecado, vivia no mesmo paraíso em que viveram, como rezam as lendas de toda a humanidade, os nossos antepassados pecadores, apenas com a diferença de que aqui a terra inteira era em cada canto um único e mesmo paraíso. Essas pessoas, rindo alegremente, se achegavam a mim e me afagavam; levaram-me consigo, e cada uma delas queria me apaziguar. Ah, não me fizeram nenhuma pergunta, mas era como se já soubessem de tudo, assim me pareceu, e queriam expulsar o mais depressa possível o sofrimento do meu rosto. Ora, e daí que foi só um sonho? O fato de que eles, sabendo tanto, não possuíssem a nossa ciência. Mas logo entendi que a sua sabedoria se completava e se nutria de percepções diferentes das que temos na nossa terra, e que os seus anseios eram também completamente diferentes. Eles não desejavam nada e eram serenos, não ansiavam pelo conhecimento da vida como nós ansiamos por tomar consciência dela, porque a sua vida era plena. Mas a sua sabedoria era mais profunda e mais elevada que a da nossa ciência; uma vez que a nossa ciência busca explicar o que é a vida, ela mesma anseia por tomar consciência da vida para ensinar os outros a viver; ao passo que eles, mesmo sem ciência, sabiam como viver. Os animais, que conviviam em paz com eles, não os atacavam e os amavam, tomados que estavam pelo seu amor. Às vezes me perguntava, espantado: como podiam eles, durante todo o tempo, não ferir alguém como eu e nunca despertar em alguém como eu sentimentos de ciúme e inveja? Alegravam-se quando lhes vinham filhos, novos participantes da sua beatitude. Entre eles não havia brigas e não havia ciúme, e nem sequer entendiam o que significava isso. Os seus filhos eram filhos de todos, porque todos formavam uma só família. Quase não tinham doenças, se bem que houvesse a morte; mas os seus velhos morriam serenamente, como que adormecendo, cercados de pessoas que lhes diziam adeus, abençoando-as, sorrindo-lhes, enquanto eles próprios recebiam delas sorrisos luminosos de boa viagem. Nunca vi dor nem lágrimas nessas ocasiões, havia apenas um amor multiplicado como que até o êxtase, mas um êxtase calmo, pleno, contemplativo. Podia-se pensar que eles continuavam em contato com os seus mortos mesmo depois da sua morte, e que a morte não rompia a ligação terrena entre eles. Sim, sim, o resultado foi que eu perverti todos eles! Como é que isso pôde acontecer—não sei, mas lembro claramente. O sonho atravessou um milênio voando e deixou em mim apenas a sensação do todo. Só sei que a causa do pecado original fui eu. Como uma triquina nojenta, como um átomo de peste infestando um Estado inteiro, assim também eu infestei com a minha presença essa terra que antes de mim era feliz e não conhecia o pecado. Eles aprenderam a mentir e tomaram amor pela mentira e conheceram a beleza da mentira. Ah, isso talvez tenha começado inocentemente, por brincadeira, por coquetismo, por um jogo de amor, na verdade, talvez, por um átomo, mas esse átomo de mentira penetrou no seu coração e lhes agradou. Depois rapidamente nasceu a volúpia, a volúpia gerou o ciúme, o ciúme—a crueldade... Ah, não sei, não me lembro, mas depressa, bem depressa respingou o primeiro sangue: eles se espantaram e se horrorizaram, e começaram a se dispersar, a se dividir. Surgiram alianças, mas dessa vez umas contra as outras. Começaram as acusações, as censuras. Conheceram a vergonha, e a vergonha erigiram em virtude. Nasceu a noção de honra, e cada aliança levantou a sua própria bandeira. Passaram a molestar os animais, e os animais fugiram deles para as florestas e se tornaram seus inimigos. Começou a luta pela separação, pela autonomia, pela individualidade, pelo meu e pelo teu. Passaram a falar línguas diferentes. Conheceram a dor e tomaram amor pela dor, tinham sede de tormento e diziam que a verdade só se alcança pelo tormento. Então no meio deles surgiu a ciência. Quando se tornaram maus, começaram a falar em fraternidade e humanidade e entenderam essas ideias. Quando se tornaram criminosos, conceberam a justiça e prescreveram a si mesmos códigos inteiros para mantê-la, e para garantir os códigos instalaram a guilhotina. Mal se lembravam daquilo que perderam, não queriam acreditar nem mesmo que um dia foram inocentes e felizes. Riam até da possibilidade de um passado assim para a sua felicidade, e o chamavam de ilusão. Não conseguiam nem sequer concebê-lo em formas e imagens (...) E, no entanto, se pelo menos fosse possível que eles voltassem àquele estado inocente e feliz do qual se privaram, e se pelo menos alguém de repente o mostrasse a eles de novo e lhes perguntasse: querem voltar?—eles certamente recusariam. Respondiam-me: “E daí que sejamos mentirosos, maus e injustos,sabemos disso e deploramos isso, e nos afligimos por isso a nós mesmos, e nos torturamos e nos castigamos mais até, talvez, do que aquele juiz misericordioso que nos julgará e cujo nome não sabemos. (...) Cada um tornou-se tão cioso da sua individualidade que não fazia outra coisa senão tentar com todas as forças humilhar e diminuir a dos outros, e a isso dedicava a sua vida. Surgiu a escravidão, surgiu até a escravidão voluntária: os fracos se submetiam de bom grado aos mais fortes, apenas para que estes os ajudassem a esmagar os que eram ainda mais fracos que eles mesmos. Surgiram os justos, que chegavam a essas pessoas com lágrimas nos olhos e lhes falavam da sua dignidade, da perda da medida e da harmonia, da sua falta de vergonha. Riam deles ou os apedrejavam. Sangue justo correu nas portas dos templos. (...) Por fim, esses homens se cansaram desse trabalho absurdo, e nos seus rostos apareceu o sofrimento, e esses homens proclamaram que o sofrimento é a beleza, já que no sofrimento existe razão. Eles cantaram o sofrimento nas suas cantigas. Eu andava no meio deles, torcendo as mãos, e chorava diante deles, mas os amava, talvez, até mais do que antes, quando nos seus rostos ainda não havia sofrimento e quando eram inocentes e tão belos. Passei a amar a terra por eles profanada ainda mais do que quando era um paraíso, só porque nela surgia a desgraça. Infelizmente, eu sempre amei a desgraça e a dor, mas somente para mim mesmo, para mim mesmo, enquanto que por eles eu chorava e tinha pena. Estendia-lhes os braços, me culpando, me amaldiçoando e me desprezando em desespero. Dizia-lhes que eu é que tinha feito tudo isso, só eu; eu é que lhes tinha trazido a perversão, a doença e a mentira! Implorava-lhes que me pregassem numa cruz, ensinava-lhes como se faz uma cruz. (...) Mas eles apenas riam de mim e passaram a me ver como um doido varrido. Eles me justificavam, diziam que tinham recebido apenas aquilo que eles mesmos desejavam, e que tudo o que havia agora não poderia deixar de haver. Por fim, anunciaram-me que eu estava me tornando um perigo para eles e que me trancariam num hospício se eu não calasse a boca. Então a dor entrou na minha alma com tanta força que o meu coração se oprimiu e eu senti que estava prestes a morrer, e foi aí... bem, foi aí que eu acordei. Naquele mesmo minuto decidi que iria pregar, e é claro que pelo resto da minha vida! Eu vou pregar, eu quero pregar — o quê? A verdade, pois eu a vi, eu a vi com os meus próprios olhos, eu vi toda a sua glória! E desde então é que estou pregando! É que agora vejo tudo isso claro como o dia. [...] todos seguem em direção a uma única e mesma coisa, pelo menos todos anseiam por uma única e mesma coisa, do mais sábio ao último dos bandidos, só que por caminhos diferentes. Isso é uma velha verdade. (...) Porque eu vi a verdade, eu a vi e sei que as pessoas podem ser belas e felizes, sem perder a capacidade de viver na terra. Não quero e não posso acreditar que o mal seja o estado normal dos homens. E eles, ora, continuam rindo justamente dessa minha fé. Mas como vou deixar de acreditar: eu vi a verdade—não é que a tenha inventado com a mente, eu vi, vi, e a sua imagem viva me encheu a alma para sempre. Eu a vi numa plenitude tão perfeita que não posso acreditar que ela não possa existir entre os homens. Assim, como é que eu vou me desencaminhar? Vou me desviar, é claro, várias vezes até, e vou usar, talvez, palavras alheias inclusive, mas não por muito tempo: a imagem viva daquilo que vi vai estar sempre comigo e sempre vai me corrigir e me dirigir. Ah, eu estou cheio de ânimo, eu estou novo em folha, eu vou seguir, vou seguir, ainda por mais mil anos! Sabem, eu queria até esconder, no começo, o fato de que eu tinha pervertido todos eles, mas foi um erro—aí está o primeiro erro! A verdade, porém, me cochichou que eu mentia e me guardou e me aprumou o passo. Mas como instaurar o paraíso—isso eu não sei, porque não sou capaz de transmitir isso em palavras. Depois do meu sonho, perdi as palavras. Pelo menos todas as palavras principais, as mais necessárias. Mas não importa: vou seguir e vou continuar falando, incansável, porque apesar de tudo vi com os meus próprios olhos, embora não seja capaz de contar o que vi. Mas é isso que os ridentes não entendem: “Viu um sonho, dizem, delírio, alucinação”. Eh! Que sabedoria é essa? E como eles se vangloriam! Um sonho? o que é um sonho? E a nossa vida não é um sonho? E digo mais: não importa, não importa que isso nunca se realize e que não haja o paraíso (já isso eu entendo!)—bem, mesmo assim vou continuar pregando. E no entanto é tão simples: num dia qualquer, numa hora qualquer- tudo se acertaria de uma vez só! O principal é — ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar. E no entanto isso é só—uma velha verdade, repetida e lida um bilhão de vezes, e mesmo assim ela não pegou! “A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade—é superior à felicidade”—é contra isso que é preciso lutar! E é o que vou fazer. E, quanto àquela menininha, eu a encontrei... E vou prosseguir! E vou prosseguir!

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    Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski

    Dostoiévski – foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos.É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita." A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados por isso de "romances de idéias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.

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    Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski