Madonna in a fur Coat -

    Sabahattin Ali

    Penguin
    2017
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9780241293850

    Edições (3)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover

    Similares (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (45)Ver mais
    Nátali Nuss picture
    Nátali Nuss02/06/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    My daydreams were in sharp contrast to real life

    Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que “Madonna in a Fur Coat” de Sabahattin Ali (1943) é um livro que vai te deixar arrasado(a). Digo isso porque ele pertence a uma categoria de romances que eu costumo chamar de “E se…?”, da qual também faz parte “The Great Gatsby”, a título de exemplo. Ou seja, romances que desde o começo te dão a sensação (ou são completamente claros) de que o final será trágico, mas que, mesmo assim, você se vê querendo ser provado do contrário, ou então se satisfaz, ao menos, em imaginar como teria sido SE tudo tivesse “dado certo” – seja lá o que “dar certo” signifique. E aí, ainda que em algum ponto da leitura você se convença de que estava certo o tempo todo sobre o drama inexorável da história, você acaba sendo pego de surpresa pelos “comos” que levam a tamanha infelicidade. Tudo isso dito como um prólogo preventivo, vamos lá: esse é um daqueles livros que eu pego para ler meio do nada, só porque vi algum comentário aleatório na internet que me convenceu o suficiente a pegar no Kindle e passar na frente de uma pilha infinita de livros físicos numa eterna lista de “por ler”. Para ser justa, é verdade que eu raramente me arrependo de tomar esse tipo de liberdade — e não foi diferente com esse. Mas deixa eu situar quem está perdendo algum tempo lendo minha resenha: estamos falando de um clássico turco dos anos 1940, mas que chegou muito recentemente por aqui. Nos EUA, foi publicado por volta de 2016, e no Brasil, por volta de 2023 (pela Tabla). Eu li, no entanto, a edição em inglês da Penguin. A ambientação do livro, por sua vez, divide-se em dois momentos — entre as décadas de 1930 e 1940 — e em duas cidades – Ancara e Berlim, mas com algumas menções também à Praga e Havran. Lembra que eu mencionei “The Great Gatsby” há pouco? É engraçado, porque não é só na minha categorização pessoal que eles se cruzam — há outras semelhanças. Primeiro, na presença — pelo menos num primeiro momento — de um narrador-personagem que observa o protagonista à distância. No caso de “Madonna in a Fur Coat”, esse narrador sequer tem o nome revelado, ao contrário do Nick na obra do Fitzgerald. Em segundo lugar, temos o tema da obsessão de um homem por um amor do passado, totalmente afogado em suas memórias. O homem em questão aqui é Raif Efendi, alguém que foi enviado a Berlim por seu pai para aprender a arte de fazer sabão e depois retornar à sua casa em Havran para se tornar gerente das fábricas de sua família. Tirando o pequeno detalhe de que ele não se interessa por fazer sabão e também não tem muitos outros interesses senão passar os dias lendo e vagando pelas ruas alemãs. Aliás, apesar da falta de propósito geral, ele aprende o alemão. De resto, as histórias – “The Great Gatsby” e “Madonna in a Fur Coat” – correm para rios bem diferentes. Isso vai ficando claro à medida que conhecemos quem é Raif, o protagonista, “the sort of man who causes us to ask ourselves: ‘What do they live for? What do they find in life? What logic compels them to keep breathing? What philosophy drives them, as they wander the earth?’’”. Raif é, em grande medida, alguém perdido entre aquilo que realmente é — e que talvez nem a si mesmo tenha sido revelado — e aquilo que sua família espera dele. Um solitário, no sentido mais cru da palavra. Mais do que introspectivo, ele é quase uma página em branco, uma pessoa sem propósitos definidos, o que o angustia ao longo de grande parte do livro. E é justamente por causa dessa angústia que ele se torna alguém extremamente passivo. Esse aspecto específico me lembrou uma frase que li no “O Tempo da Memória”, do filósofo italiano Norberto Bobbio (que, por acaso, eu estava lendo ao mesmo tempo que “Madonna in a Fur Coat”, mas para o Doutorado): “Sem nunca ter me sentido em paz comigo mesmo, tentei desesperadamente ficar em paz com os outros.” Isso é exatamente o que Raif faz em todo o tempo em que não está com Maria Puder: tenta desesperadamente estar em paz com os outros, corresponder às expectativas — por mais emocionalmente distante que esteja dessas pessoas. Raif, no fim das contas, odeia a si mesmo porque enxerga que todos ao seu redor — sobretudo sua família — não lhe atribuem valor algum. Sob essa ótica, aliás, é possível traçar algum paralelo com “A Metamorfose", do Kafka. Assim como Gregor, Raif é uma figura apagada no espaço doméstico e social — embora tenha uma existência interior intensa — e só parece ter alguma utilidade para a família na medida em que é útil financeiramente. Ah, e quem é essa Maria Puder, afinal? Bem, como eu disse, o livro tem duas partes. A primeira é narrada por esse narrador sem nome, que acaba de conseguir um emprego na mesma firma onde Raif trabalha como tradutor de alemão. Esse colega de trabalho chama a atenção do narrador pelo seu jeito ensimesmado e, depois, pela saúde frágil. O mistério o leva a tentar conhecê-lo melhor — por mais que Raif não demonstre nenhum desejo de reciprocidade. Sem dar muito spoiler, o importante é entender que isso nos leva à segunda parte do romance, que é como se fosse um diário dentro do livro: um caderno que chega às mãos do narrador que passa a lê-lo “conosco” — o diário (de um único dia) de Raif. É aí que Maria Puder entra em cena — a madonna in a fur coat. Maria Puder é, muito provavelmente, uma das primeiras espécimes da manic pixie dream girl da literatura. Digo isso porque nossa madonna representa toda a esperança que Raif tem de encontrar um propósito para sua vida — assim como todas as manic pixie dream girl costumam representar. A solidão de Maria é a solidão que Raif reconhece em si mesmo, e que, por muito tempo, ele idealizou como forma de dar sentido à sua própria existência. Esse livro é, essencialmente, um relato sobre o encontro de duas grandes solidões. E o diário/caderno é, por um lado, um registro desse encontro ocorrido há dez anos, e por outro, a explicação do porquê Raif se tornou quem é no presente do livro. Nesse caderno, descobrimos (nós e o narrador da primeira parte) que, um dia, em Berlim, Raif visitou uma exposição em uma galeria de arte e ficou absolutamente absorto por uma pintura em particular: uma madonna usando um casaco de pele. A princípio, ele ficou obcecado pela imagem, mas logo se informou que se tratava de um autorretrato — ou seja, a mulher retratada existia factualmente. A partir de então, ele passa a fantasiar encontrar essa mulher nas ruas de Berlim e também a visitar a galeria todos os dias só para olhar para a pintura por horas a fio. Não vou dar spoilers sobre como esse encontro se dá, mas, como é de se esperar, ele acontece. É curioso notar que Raif menciona, no caderno, ter tido anteriormente o sonho de ser artista — sonho que foi abandonado ao perceber que artistas precisam se expressar, e ele era incapaz de externar seus sentimentos e impressões. Talvez aí esteja a chave da conexão com a pintura: ele enxerga nela um espelho; a expressão da solidão que ele próprio não consegue verbalizar. Maria, como Raif, também tem uma relação um tanto disfuncional com o mundo ao redor. Ela tem um histórico de abandono — até mesmo por parte da mãe, que vive frequentemente ausente, em Praga – e trabalha cantando/performando em uma espécie de bar onde é constantemente tratada pelos clientes de maneira vulgar. Em síntese, é como se ela sentisse que está fadada a ser deixada para trás e, como mecanismo de defesa, tenta provar para si mesma que foi feita, de fato, para ficar sozinha. É evidente que isso acaba virando uma profecia autorrealizável: ela se sabota, sabota as relações, inclusive essa que começa a se formar com Raif. Apesar disso tudo, o amor entre eles acontece no cotidiano: nos passeios pelos jardins de Berlim, nas exposições, nas óperas, nos jantares — em grandes exercícios de flânear a dois. Infelizmente, eu realmente não poderia ir além disso na minha resenha, porque seria entregar demais a doce melancolia desse livro. O que posso dizer é que, por mais que você já vá esperando uma narrativa trágica, em diversos momentos vai se surpreender com a forma como o drama se entrelaça no destino desses personagens. E que este é, com certeza, um livro que vale a pena ser lido — não só pela história bem construída e belíssima, mas também por ser um clássico turco, e portanto um produto de fora do eixo hegemônico da cultura e tudo mais. Bem, convenhamos que essas descobertas sempre valem a pena. Eis algumas citações que eu destaquei (e escolhi depois, pois foram muitas): “But we ask in vain, if we fail to look beyond the surface – if we forget that beneath each surface lurks another realm, in which a caged mind whirls alone.” “Like me, she could see that we had arrived at an impasse and that we might be stuck there forever.” “From now on I would throw myself into my work, thereby freeing myself of the oppressive fears to which my idle life had condemned me.” “He was, I thought, too timid ever to dare to explore his soul, let alone express it.” “Only now did I begin to understand why it was not always through words that people sought each other out and came to understand each other.” “How easily people can read each other! [...] Even a fool could have a soul whose torments were a constant source of amazement.” “Surely I knew this pale face, this dark brown hair, this dark brow, these dark eyes that spoke of eternal anguish and resolve. I had known that woman since I’d opened my first book at the age of seven – since I’d started, at the age of five, to dream. I saw in her echoes of Halit Ziya Uşaklıgil’s Nihal, Vecihi Bey’s Mehcure, and Cavalier Buridan’s beloved. I saw the Cleopatra I had come to know in history books, and Muhammad’s mother, Amine Hatun, of whom I had dreamed while listening to the Mevlit prayers. She was a swirling blend of all the women I had ever imagined.” “She deeply resented having to live in company she had not chosen, and did not like. A life of forced smiles had made her suspicious.” “So I suppose this means that people can only get so close to each other and then they must drift apart, each time they try to take one step closer.” “We sacrificed it all and for what, why? Nothing at all! In attempting to possess something that was never there we lost something we already had”. “I’m just not in love with you. [...] I still feel the same emptiness inside – only it’s greater.” “Hadn’t I been granted all my heart desired? How empty my heart felt now! But also, how heavy!” “You did glance up at me once or twice… but do you want to know how? As if you didn’t want to see me. [...] Now and again, I joined you. We’d sit there together, looking at the painting. But still you didn’t recognize me.” “I have to warn you – my friends have always found me to be an unsettling and exasperating creature…” “I had yet to learn that nothing in this world can ever match the marvels that we conjure up in our own minds.” “For me, love is [...] desire that’s all-consuming. Desire that’s impossible to resist!” “That is why – that is the only reason why – I do not wish to live off my paintings. Because then I wouldn’t be doing what I wanted, but what people wanted of me.” “Once again, I had revealed myself to be a puppet of my imagination, a captive of the make-believe.” “Ever since boyhood, I’d feared wasting any happiness that came my way; I’d always wanted to save some of it for later.” “Too often I had allowed reason and experience to cloud my judgement, for my first impressions were largely correct.” “How can one person make another person so happy? What amazing powers we must have, hidden deep inside us.” “All my life, I’d shied away from human company, never sharing my thoughts with a soul. How pointless this seemed now, and how absurd!” “Every day, every hour, was full, even when I was asleep. It was not just my tired limbs that were coming to life. It was also my soul.” “My girlfriends had a hard time finding things in common with me. They had no interest in being real people: they preferred to be objects of desire and act like dolls.” “Nothing grieves me more than seeing someone who has given up on the world being forced to smile.” “Most would come into this world and leave it without even knowing what they had missed. A soul only came forward when it found its twin.” “How could I long so for someone whose existence I’d only just become aware of? But wasn’t it always like this? Some things we never know we need until we find them.” “When I look at these plants [...] Maybe they remind me of my ancestors, who lived in the same lands as these strange flowers and trees many centuries ago.” “You’ll see – I live more in my head than anywhere else. In comparison, my real life is a dull dream.” “I shared with her things I had until now shared with no one, or even admitted to myself.” “Having never known such intimacy before, I was desperate to protect it.”

    29 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 167
    • 5 estrelas35%
    • 4 estrelas41%
    • 3 estrelas21%
    • 2 estrelas4%
    • 1 estrelas0%