Esta biografia relata os amores, amizades e as oscilações do prestígio de Marcel Duchamp, artista que muitos consideram o mais instigante - e ainda hoje enigmático - do século XX. Seu modo de encarar as coisas o manteve a uma certa distância dos diversos ismos que caracterizaram a arte moderna, embora seja considerado precursor do dadaísmo, surrealismo e da arte conceitual. Na definição do pintor americano Willem de Kooning, ele foi um "movimento de um homem só". Iconoclasta dos ready-mades, suas obras máximas até hoje desafiam os intérpretes, que fazem elucubrações sucessivas, em leituras esotéricas e alquímicas, e até mesmo neoplatonistas de seus trabalhos. O livro enumera fatos curiosos de sua trajetória como artista: a recusa da obra Nu descendo uma escada no Salão dos Independentes de 1912, em Paris; sua estadia em Munique, que representou uma verdadeira virada em sua vida; o choque provocado em 1917 pela obra Fonte, na mostra da Sociedade dos Artistas Independentes, em Nova York. Entre os Estados Unidos e a França sobreviveu como dublê de professor de francês e de marchand e dialogou com movimentos como o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo e o expressionismo abstrato americano.
Duchamp. Uma Biografia
Calvin Tomkins
A obra, a vida, o autor, a edição..!
A obra de Duchamp é bem ampla, apesar dele ter passado trinta anos sem criar, sendo um artista não deixou de pensar arte. Esse longo hiato foi nescessário a um homem que ficou oito anos trabalhando no Grande Vidro, e que passaria mais vinte em total dedicação a sua última obra. Se isso não for motivo para o considerar um artista a vida toda, o xadrez o é, pois requer arte. Sua vida foi longa, morreu aos 81 anos, depois de ter passado como observador pela Primeira e Segunda Guerra Mundial (ele manteve distância por sua arte de ser indiferente, e o privilégio de ser salvo da França sem muitas dificuldades), ter revolucionado as artes, ter se relacionado com inúmeras mulheres e ter duas intensas paixões a arte ( na forma de humor não canonizada não era devoto, gostava mesmo de debochar dela, como no famoso caso R.T. Mutt e a sua fonte) além do xadrez nesse caso com uma maior dedicação. O Calvin Tomkins , soube transformar a vida comum e solitária de Duchamp em uma biografia fascinante, com uma escrita fluida . Talvez não existam vidas desinteressantes mas biografos despreocupados (para não falar sem talento) em alguns momentos me senti lendo um romance sobre um artista e as reviravoltas de sua vida. O autor pesquisou por 30 anos e dessa pesquisa resultou o livro, que demostra cada faceta da vida duchampiana a obra no entanto supera o artista e torna-se um enigma maior a cada nova olhada, principalmente as desconhecidas do grande público. O gás e a Água (Etant Donnes) era uma desconhecida e agora me é um objeto de fascinação. A quem interessar possa: o epitáfio de Duchamp escrito pelo próprio é " Aliás sempre são os outros que morrem." Isso se provou verdadeiro até agora, parece que a história da arte, o escolheu para a benção da posteridade. A edição está cheia de referências a passagens do livro, que por sua vez referenciam obras do artista. 1- a jacket de acetato remete ao grande vidro ( ou a noiva despida por seus celibatários, mesmo). 2- a folha de guarda é verde como a caixa verde, e as valises feitas pelo artista para divulgar suas ideias e sua obra. 3- a orelha que é bem estilizada, é uma referência a um ready make feito por Rosé Selavy (um alter ego de Duchamp feminino). É reconfortante saber que o editor respeitou o livro, que estava fazendo, que não foi feita uma capa genérica, com diagramação e revisão das mais porcas possíveis. A tradução, diagramação e revisão são excelentes. Não entendo por que a Cosac Naify fechou as portas. Para finalizar registro que sou apaixonada por arte moderna, e o livro apresenta um tur guiado por toda a obra de Duchamp que está em museus, em suma uma obra prima em forma de livro.
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