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    Território (Viagens na Ficção) -

    Thiago Kuerques

    Chiado Editora
    2016
    364 páginas
    12h 8m
    ISBN-13: 9789895193493
    Português Brasileiro
    3.8
    4 avaliações
    Leram6Lendo0Querem10Relendo0Abandonos0Resenhas1
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    Não quero arrastar a boca do leitor no chão como se ele tivesse que ler, mas não quisesse. Quero que o leitor feche o livro a cada término de conto. Será assim que terei a sensação de que há sensação em quem lê. Estará assim o leitor envolvido com a história que acabou de ler. Estará assim o leitor entranhado nas cidades, nas casas, nas pessoas, nas relações. O livro trata do TERRITÓRIO da Baixada Fluminense através de contos estratégicos que, vejam bem, se posicionam na linha de frente da guerra ao desânimo cavalar com que olham para nós e com que nos olhamos como bairro, cidade, chão, cidadãos. Mesmo a terra batida é uma assinatura original de identidade. Também o asfalto, as crateras dele, a poeira e os gramados, a estrada e os desvairados, as pipas e os assalariados. Todos são assinaturas de identidade representando a forma pessoal da qual me refiro- não sei mais negar a terra que ainda insistem de chamar de fim do mundo. Ironicamente para falar da terra os contos falam de pessoas. E há riqueza maior na Baixada Fluminense ou em qualquer outro lugar? No final das contas todo o emaranhado fala de humanidade tratando a Baixada como ela realmente é- um pedaço de cada coisa do mundo pedindo que o mundo a respeite como um mundo num pedaço. Num absurdo epifânico gostaria de erguer uma cidade ou reerguer uma região inteira. Não como prefeito, tampouco deputado ou vereador. Não me dou com políticas apesar de sermos todos tão políticos quando pedimos descontos ou resolvemos embates por aí. Não sendo um desses pelos quais se estendem faixas em praças que nem pavimentadas são posso ir mais longe. Como no conto em que um escritor humilde e nordestino é nomeado para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ou no conto no qual um homem toma uma atitude extrema por conta da rotina irritante das grandes cidades. Há também o conto onde um homem tem medo de viver algo em plenitude; outro conto no qual um homem se julga o grande juiz social e começa a colecionar ladrões; outro no qual um rapaz pobre estudante de escola pública toma um rumo bonito na vida; histórias de crianças e analogias ao futebol praticado nos campinhos de Nova Iguaçu e até referências às Copas do Mundo; histórias de amor nascidas em Nilópolis, em Tinguá, em Japeri, em Xerém. Também personagens que reconhecem a Baixada como lugar de pessoas extremamente originais e valiosas como o sujeito que perambula pela madrugada analisando a dinâmica social do lugar e o outro avesso a qualquer carinho pelo TERRITÓRIO do qual não faz parte e só ouve falar mal e que, por fim, acaba tendo um belíssimo reconhecimento de que ali, afinal, é um celeiro de riquezas e um incrível lugar do mundo.

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    Hanny Saraiva picture
    Hanny Saraiva18/07/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    "É arte, a linguagem mais universal que pode haver para que se saia do buraco - alguns rasos, outros profundos"

    Pertencimento. Palavra óbvia quando falamos de territórios, mas no livro de Thiago Kuerques seu significado vai além da obviedade. Não pertencemos apenas a territórios, pertencemos aos personagens. Eles são a força motriz da obra. Com eles, andamos pela montanha-russa que é a Baixada Fluminense, trilhando caminhos facilmente identificáveis para quem atua e vive na região. Mas também com eles vamos além do local e encontramos a multiplicidade humana através de vidas que se questionam, que são testemunhas de acasos, fatalidades, escolhas. Um emaranhado de sopros e existência. Poética, a obra também possui alguns contos que flertam com o estranho, num híbrido de crônica com realismo fantástico, mas o grande destaque são os personagens, únicos e tão próximos de nós. Sobre a questão editorial: o livro poderia ser menor, pois os contos são bem curtos. Eu editaria em duas partes, mas isso não diminui em nada a qualidade da escrita. Uma estrelinha a menos vai para a editora que não se atentou a esse fato. Isso atrapalha um pouco a leitura, acho que os contos poderiam ser melhor organizados, mas como disse, é uma questão editorial. Partes preferidas: "Essa vida é apenas um rascunho da gente. Nada é pra valer." "Como conseguimos com tanto tempo de dedicação nos equivocar?" "O medo da plenitude era cabível." "Morro Agudo era um bairro esquecido pelo prefeito e nem por isso Charles chamava a cidade de coisas ruins." "Muitas vezes se perguntava o que era parâmetro para se chamar tudo e por ter algum ponto do mundo como necessário para medir distâncias." "Eu era esse menino disfarçado de invisível." "Espero que seja assim por bastante tempo. Por bastante tempo leia-se sempre. Somos a eternidade que queremos ser mesmo que só às sete horas de uma quarta." "Hoje meu filho brada contra os direitos dos imperfeitos, mesmo ele sendo todo remendado." "O muro nunca havia sido atravessado por ninguém. Era quase uma entidade." "Ofereceram maçã cortada e iogurte como num dia de exageros. Tudo de olhos fechados." "Retornou para Antuérpia enquanto ele permaneceu voltando todas as tardes ao mesmo quiosque em Copacabana com a esperança de que brisas leves não derrubassem prédios." "O covarde não costuma dar adeus." "Escrever tem a mesma temperatura do dia."

    1 curtida

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    Thiago Kuerques profile picture

    Thiago Kuerques

    Escritor iguaçuano, nascido em 1985, é contista, cronista e poeta tendo publicado o irônico O Cara Que Não Publicava Livros (Clube de Autores, 2012) e o poético Ensaio dos Poemas Pelados (Clube de Autores, 2013). Iniciou a carreira literária aos 17 anos quando premiado no concurso Projeto Redação 2002 da Folha Dirigida com apoio do Ministério da Cultura e da Fundação Biblioteca Nacional com o conto Sonho Perdurado. O hiato justifica-se: quando jovem você quer tudo que nunca teve e o que já tem pouco importa; ao envelhecer você passa a querer tudo que já teve e começa a não querer o que nunca teve. Tive o cuidado, assim, de seguir querendo o que não tenho através de tudo que já tive. Para um escritor tudo não chega nem perto de ser o bastante.

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    rio de janeiro, Brasil

    Thiago Kuerques