O Realismo é posterior ao Romantismo em termos cronológicos e geralmente representam, de maneira simultânea, a maturação da escrita de um autor. A sociedade parece contemplar outra coisa: a vida vista pela vida. Estavam cansados de sonhar sonhos que não se realizam. Estavam cansados de olhar para o mundo e não ver nada daquilo. Servia de consolo e até escape, servia para relembrar a infinitude da beleza do amor, da arte, da vida. Mas há também, e inesgotável beleza, na realidade.
Nesta imbricação entre termos técnicos ou preferências estéticas, o fato que emerge é que, de maneira simbólica, ambas as fases representam, ironicamente, a evolução do nosso próprio ser. Isso explica o porquê de, aos 15 anos, grandes estórias de romances "simples", idealizados e moralmente aceitos me causavam grandes suspiros e despertavam um sonho bem distante. Era o nascimento de uma esperança que, segundo Machado, é "uma planta daninha". Crescemos e entendemos as ambiguidades das relações humanas, ao passo que aprendemos a lidar com isso e parar de se afundar em "porquês". Os porquês são inúteis. É impossível saber, integralmente, os motivos do curso da vida. O mais sábio é aceitar.
As indagações, os contextos abertos, vagos, amplos e incertos ganham relevância em um mundo que é, em primeira e última instância, repleto de incerteza. Fazemos as pazes com as dúvidas e passamos a contemplar o abismo. Tiramos as máscaras das pessoas e das coisas: passamos a vê-las como realmente são, e isso nos causou estranhamento e até repulsa, até o momento em que nos enxergamos, também, como sendo parte dessa camada contraditória. Somos o resultado dessa realidade, que não é inventada, como Clarice previu. Realmente enfrentamos uma certa limitação que nos impede de viver constantemente distante do que foi previamente estabelecido como "passível de fazer sentido".
Assim Machado surge, como uma espécie de grande "desvelador" da alma humana. Através de costumes e ironias de determinada classe social e determinado tempo, ele nos dá um espelho. Somos essas pessoas e nascemos entre elas e morreremos assim, cheios de opiniões mal elaboradas, aprendendo a viver a vida e desqualificando quem tem mais tempo aqui. Afinal, eles não sabem de nada, nós é que fazemos o certo, mesmo que depois sempre acabemos no mesmo lugar, atolados de um sofrimento que parece não ter fim. No Romantismo não, há praticidade. Ele me quer e eu o quero, então seremos felizes. A vida não é, em linhas gerais, tão simples assim. Mas não significa que não seja bonita.
"Concernentes ao barro comum da humanidade, manifestam-se, nos mundos concebidos por Machado, amores vividos como conflito e fonte de tensões", escreveu um estudioso. E eu complemento: esses amores vividos são os amores reais, que quando se faz em uma junção de duas almas, nem sempre se alinham, pois dependem de duas vontades, e uma delas que está além do nosso poder. Talvez esse seja o incômodo e o prazer, saber que não podemos nada. Nem tudo está ao nosso alcance e deveríamos agradecer por isso. Não teríamos mais objetos a almejar, pontos a percorrer e nem bagagem para pensar criticamente.
Como odeio reducionismos em sua definição leiga, não quero associar Machado à questões de natureza amorosa. Ele faz muito mais que isso, e o faz muito bem. Há o imperialismo para não pensar em Flora como sendo uma simples "namoradeira", o narrador então nos convida a enxergá-la sob outra ótica. A própria inconsistência na relação de Esaú e Jacó (Pedro e Paulo) revela a fragilidade humana. Espera-se um sentimento fraternal, de proteção e devoção mútua, encontra-se uma aversão inexplicável, que nem as "coisas futuras" foram capazes de mitigar, nem o amor de mãe, o maior e mais profundo entre todos já elencados. Aires se deleita vendo a sua própria felicidade escapar pelas mãos, ele se conforma com o seu sonho se desfazendo na sua frente, e lida bem com isso, até o limite em que se pode lidar. Passa uma vida inteira sendo fonte de ensinamentos para os outros e é negligenciado quando mais precisa de um pouquinho de amor. A vida parece ter se esquecido dele, mas a ressignificação de sua vivência nos fortalece para o abandono das idealizações românticas. Nem todos nasceram para viver isso, e ainda bem que essa não é a única fonte de felicidade. De alguma forma, o Realismo nos ensina a viver.