Desde a sua origem, a Coleção Archivos se propôs a instaurar uma nova maneira de ler os textos latino-americanos (e os de outras literaturas), modelando cada um de seus volumes como uma síntese exaustiva e rigorosamente articulada de diferentes enfoques: textual, crítico, historiográfico-cultural e editorial.
Paixao Segundo g. h., a - Archivos
Clarice Lispector
Não é pra mim
É um livro que foge da narrativa tradicional pra focar no existencialismo e nas questões filosóficas. A gente acompanha uma escultora rica que se acha a maioral e que entra em colapso quando descobre que a empregada que ela nunca nem dirigiu a palavra odiava ela ou algo do tipo quando ela vai limpar o quarto dela, mas o motivo real do seu colapso é a barata, que desencadeia uma crise de identidade na madame que começa a filosofar sobre sua própria mortalidade, humanidade, existência e todo o resto. O desenvolvimento do livro é praticamente todo em um monologo do surto da bonita, não avontece nada além de ela surtando com a barata, enquanto ela se reconhece na barata, como uma matéria viva, mortal e impessoal. Tem um grande valor filosófico, mas como uma historia narrativa, acho fraco e maçante. Focando na reflexão da fragilidade do próprio "self", a gente pensa muito sobre a ilusão da identidade humana e a vida no seu estagio mais cru, antes de botarmos qualquer sentido nela, conversando muito forte com o existencialismo, principalmente na forma como expõe a angustia da ausência de essência e da inevitabilidade da morte. A proposta do livro é bem clara e bem executada nesse ponto. Mas essa mesma escolha estética e filosófica é justamente o que compromete a narrativa do livro e torna a leitura abstrata com uma linguagem fragmentada e com reflexões repetitivas o que tornou pra mim a experiencia cansativa e em muitos momentos maçante. O meu prazer de leitura foi de médio para baixo. Os pontos positivos de leitura foram o forte valor filosófico e existencial e as reflexões profundas sobre identidade e mortalidade, já os pontos negativos para mim, uma narrativa quase inexistente, leitura confusa e pouco fluida, texto denso e repetitivo, experiencia mais intelectual do que prazerosa. O livro cumpre seu proposito como obra filosófica e tem seu lugar na literatura pelo modo radical que explora o existencialismo e os limites da linguagem. Porém, não é um livro acessível nem prazeroso de se ler, e não pode ser considerado uma leitura para todo mundo, o valor dele está mais no impacto do conceito do que na experiencia narrativa. Então por reconhecer a relevância dele, mas também os limites enquanto o gênero em que se encontra e minha experiencia individual de leitura, a nota que dou para ele é 7,2, respeitando quem indicou mas sem ignorar o cansaço e a dificuldade que senti lendo ele, talvez não tenha sido também o melhor livro para minha primeira impressão da autora, já que ela possui obras mais dinâmicas e tangíveis.
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