Rebecca me fascinou desde que li um comentário no 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer. Anotei nome e autor, mas tive que procurar muito até encontrá-lo, já que as edições são bem antigas e só consegui alguns exemplares velhinhos na biblioteca da faculdade. A espera, no entanto, valeu a pena.
O suspense começa quando uma jovem e pobre dama de companhia está de passagem em um luxuoso hotel e conhece o misterioso e riquíssimo viúvo Max de Winter, dono da grandiosa mansão Manderley. A jovem se encanta pelo misterioso homem de poucas palavras, que surpreende a todos ao pedi-la em casamento.
Após uma breve lua de mel, ela muda-se para a famosa Manderley, mas uma sensação intrigante e incômoda começa a assolar seus dias, trazendo-lhe inúmeras dúvidas, questionamentos e temores. Por que Maxim tem uma expressão sempre tão séria no rosto? O que o mantém tão distante? Será que ele ainda sente falta da ex-esposa?
Em tudo na mansão ela começa a sentir a presença de Rebecca. A memória da falecida esposa está sempre à espreita, em cada sombra da residência. A paranoia que a acompanha contagia os pensamentos do leitor, mantendo uma atmosfera tangível de expectativa. O que acontecerá a seguir? Será que o temores da nova Mrs. de Winter tem algum fundamento?
Conhecida apenas como Mrs. de Winter, a estratégia adotada pela autora ao omitir o verdadeiro nome da personagem e, de certa forma, caracterizá-la apenas como esposa com um título que já havia pertencido a outra, serviu para aumentar ainda mais o impacto da antagonista e atingiu em cheio seu propósito. Rebecca gradualmente torna-se o pesadelo da jovem, que não consegue tirá-la da cabeça e é constantemente lembrada de suas falhas comparando-a à ex-mulher.
Magnífico e extremamente bem escrito, nos vemos cativados pela inocência e ingenuidade da narradora e os seus temores passam a ser os nossos. A narrativa hipnótica da autora, deixa o leitor colado às páginas, sempre na expectativa de um clímax que nunca chega, mas que parece estar cada vez mais próximo a medida que avançamos.
A mansão de Manderley é tão maravilhosamente descrita que pode ser considerada um personagem à parte. Linda e sombria, exerce um ar de fascinação, onde cada passo poderá ser ouvido, ou mesmo o abrir de uma janela, a beleza das flores e o canto dos pássaros no jardim.
Com o perceptível talento de adentrar o imaginário do leitor e hipnotizá-lo com seus personagens, Du Maurier mostra extremo domínio na arte de criar uma atmosfera propícia para um grande suspense. A autora capricha na atenção aos detalhes, e suas minúcias contribuem exponencialmente para a manutenção do suspense constante.
Curiosidade: O romance ganhou uma adaptação cinematográfica espetacular feita por ninguém menos que o grande mestre do suspense Alfred Hitchcock em seu primeiro projeto norte-americano. O longa teve 11 indicações ao Oscar e levou o grande prêmio da noite de melhor filme.