O Peregrino -

    Alan Kemal

    Editora Penalux
    2016
    324 páginas
    10h 48m
    ISBN-13: 9788558330336
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos26/03/2017Resenhou um livro
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    O PEREGRINO

    O PEREGRINO “É simples: pensaste que eras pó e agora descobres que és um sopro.” Djallal Ud’in (Rumi) Século XII Sob o pseudônimo de Alan Kemal, o escritor gaúcho Floro Freitas de Andrade escreveu e a Editora Penalux publicou recentemente, o instigante romance “O Peregrino”. O arcabouço ficcional que o livro nos propõe é a investigação da existência (ou não), de um certo Ahmed El’ Muhammad que teria vivido em algum lugar da Palestina entre os anos de 1220 e 1272. Alan Kemal o protagonista narrador, é um professor de arqueologia da universidade de Paris e também escritor que em 1996, tem sua atenção despertada para os textos de Ahmed El’ Muhammad, após assistir palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém, na qual o palestrante referiu o nome desse que teria sido um misto de poeta, filósofo e profeta e que simplesmente se auto-intitulava o “Peregrino”. Aos poucos e com que curiosidade, investiga a existencia dos poucos textos deixados por esse homem e começa então, uma verdadeira peregrinação para reconstituir sua figura lendária que o tempo misturou à névoa e encantamento de lendas, fragmentação de pequenos relatos, citações de cronistas, fábulas quase folclóricas e referências de ascetas exaltando-lhe a sabedoria. Referimo-nos a pouco, a “arcabouço” ficcional proposto porque a essência mesma da obra não é provar a existência do Peregrino. O autor urdiu sua ficção – e logo nos primeiros capítulos o percebemos -, a orientar nossa percepção para a mensagem que tal homem teria nos legado. Isto é o que verdadeiramente importa. Durante a palestra a que já aludimos, são abordadas questões como, o que é a História, e o que nela representa o Mito. Dessa forma embarcamos na ficção de Floro Freitas de Andrade com algumas ponderações dentre as quais vale destacar: … “a verdadeira história, não é essa que esvoaça em nossas cabeças”.... “quando nossos ancestrais registraram seus medos e mitos, riscando fundo de cavernas, ela já existia – pois não nasceu de signos, mas com nossa consciência. Se nos tornamos capazes de narrativas (mythoy) isso aconteceu pelo estuante germinar da Palavra. E com toda certeza Ela teve algum primeiro herói – com rabo ou sem rabo – mas herói”. p. 18. Dai que: “A história existe para nos vacinar contra vaidades acumuladas e colocar-nos em tal perspectiva de Tempo que fiquemos curados até de nosso Futuro”... “a História não é apenas ‘mestra’, pois escorre tão viva em nós como nosso sangue. Os sucessos que ela cuida, narrando-os (mythoi) desde muito antes dos milhares de versos de Homero, vieram cristalizando-se até chegar a estas complexas estruturas de nossa multifacetada civilização – em que se incluem algumas alienações mais antigas que a torre de Babel”. p.19. E vai além, ao alertar contra os encadeamento de embustes a partir de gigantescos erros de perspectivas históricas. Se pensarmos sobre esses aspectos não é difícil compreender porque afirma-se no texto, que “nossos maiores assassinos portanto, não são os serial killers de que temos registros históricos, Átila, Gengis Kahn, Hitler, Stalin et caterva, carrascos de raças e povos e nações. Nossos verdadeiros criminosos são os que, escondidos em frestas da História, caruncham séculos de saber e experiências humanas: com toda certeza um delito incomensurável, invisibilizado pelo nosso hedonismo em viver o Presente como se fôssemos plantas sem raízes”, p.23. Outro aspecto envolvendo o mito dos heróis, é o tal em que sempre fomos pródigos em cultuar, e é então que começa a surgir a ponta do novelo que Alan Kemal (ou Floro Freitas de andrade?) desenrola: “Desde há milênios, até aportarmos nesta Era de tantas guerras mundiais ou tópicas, com hedonismos consumistas, tendemos a obrigar a História a girar em torno de heróis numa atitude de garimpeiros suando para achar diamantes em aluviões. Mas o diamante é produto de misteriosas pressões que se aprofundam até subterrâneos inimagináveis; o herói também é basicamente areia e se enraíza nos genes da Espécie em encadeamento de causas e efeitos que justamente por serem inimagináveis nós os cristalizamos em mythoi diamantinos” p. 19. Desenha-se a figura e história ímpar de Ahmed El’ Muhammad, que segundo os poucos relatos dos que conviveram com ele, e que chegaram até nós, fascina porque foi alguém capaz de sintetizar a própria existência a serviço da verdade cósmica, a “Luz” que é alheia a quaisquer interesses humanos, inclusive os do ego: “É assim que tenho existido nestes mais recentes anos do meu aprendizado e assim continuarei existindo. De qualquer modo eu hei de ser tão somente fluxo, quer seja eu quem diga ou escreva essas palavras, quer sejam outros. Que importa, portanto, o frasco do perfume? Se te agrada guardar o que tiver meu nome como rótulo, este presente posso dar-te, Ahmar. E te darei”. p. 90. Em outro diálogo, travado com Sinam, ele pergunta: “... por que tanto desepero? Por que te doi, ainda a consciencia, de que fugistes? Acaso sabes os desígnios da Luz por trás dessa outra escuridão? Pois te digo, meu filho, que o peso que te comprime o ânimo haverá de transmutar tua vontade em diamante. Sim Sinam, quando estiveres empunhando tua decisão haverás de lembrar que ela só pôde ser forte por causa da sombra de um remorso. Serás, então, o guerreiro que sempre quiseste ser, porque vencedor de ti mesmo”. P. 76. E uma das mais profundas mensagens de esperança de todo o livro: “Ahmar, meu bom amigo, também na escura ‘noite dos tempos’ viaja a luz de alguma aurora, luz que faz germinar sementes em todos os campos. Essa luz tem esperança da qual é pálido reflexo a que cintila em nossos corações, pois não há negror que a encubra nem morte que a aniquile. Sim, Ahmar, é ela que nos floresce – Mãe e ao mesmo tempo Amada”. P. 92. Finalmente. um dos “escritos” do Peregrino para detida e profunda reflexão... XIX – Capítulo HÂL’ FÂNA – (Manuscritos de Ahmed El’ Muhammad) Esse teu passo, / este instante é que importa. Aqui está tua decisão,/ mesmo que seja de não decidir. De tanto peregrinar, será que esquecestes? / A cada passo, desde o primeiro, / és levado a deixar o que ficou atrás. Tuas costas não te ajudam: / sobre elas pesa a consciência do que passou. O que percebes ao olhar sobre teus ombros / é apenas reflexo do que pensas do Futuro. Anda! Não é imprescindível saber se Ahmed El’ Muhammad, ou B, ou C existiram ou não, o que verdadeiramente importa reconhecer, é que a Inteligência que preside o universo continuará gotejando a Verdade, como tem sido desde o sempre, para aqueles que a buscam. Essa nos pareceu ser a mensagem maior desse “O Peregrino”. Nota: Admirável a lucidez com que o autor focaliza os variados aspectos da condição humana valendo-se (também, mas não apenas), da superposição do pensamento de outros autores – citados de passagem para reforçar tal ou qual dedução do protagonista narrador Alan Kemal. Além do próprio ‘Peregrino’ Ahmed El’ Muhammad, há referências na obra à Thomas Carlyle, Aristóteles, Freud, Jung, Toynbee, Joseph Campbell, Homero, Gibran Khalil Gibran, Pascal, E.E. Cunnings, Pietro Ubaldi, Voltaire e André Montreuil. Vale acrescentar, claro, que isso certamente desagradará aos cultores de “medievais religiosidades”. Mas que importa? Os cães ladram e a caravana passa, como diz o antigo ditado árabe... LIVRO: “O peregrino”, Romance de Alan Kemal (Pseudônimo de Floro Freitas de Andrade). Editora Penalux. Guaratinguetá – SP, 2016, 324p. ISBN 978-85-5833-033

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