Obra dificílima (isso que sou um leitor/pesquisador de Heidegger há 10 anos, que é considerado difícil, mas o Pechêux conseguiu superar essa dificuldade). Nunca patinei tanto em um livro, nunca fiquei com admiração juntamente com raiva e consternação de um autor, pois agora isso tudo posso dizer de Semântica e Discurso.
Os linguistas dirão que é uma obra revolucionária (concordo) e funda uma anti-filosofia (o que discordo, pois ele faz mesmo uma ruptura com diversas tradições, originando uma nova filosofia). Ela é peça fundamental no desenvolvimento do que ficou conhecido por Análise do Discurso Materialista. Esta obra te obriga a perceber que tudo aquilo que achávamos óbvio é fruto da produção ideológica de uma cultura dada historicamente. Mas, é claro, nem é esse o foco e nem é esta a principal ideia, destaco esta que me fez pensar muito.
Essa obra também coloca uma relevância no significante e não no significado (reler Saussure aqui é essencial), e dá uma primazia à sintaxe e não à semântica. Não parece, mas essa ideia é muito revolucionária quando bem entendida, pois rompe de modo profundo com toda a tradição idealista e as posições que apostam que o sentido está na cabeça das pessoas. Isso é muito "desacomodador" (se é que posso usar este neologismo), porque o sentido não aparece mais como uma propriedade que emerge na mente/psique/subjetividade, mas, isto sim, o sentido emerge das relações sintáticas que uma língua estabelece. O pior é entender que a implicação direta que o autor extrai disso é que a subjetividade é um efeito e não uma origem. Faz sentido? No início, pra mim, não fez nenhum e foi fonte de minhas "batalhas" contra o autor na leitura desta obra.
Essa minha síntese aqui não faz jus à proposta da obra e, seguramente, terei de relê-la a fim de seguir no processo de assimilação dessa posição filosófica que o autor nos põe. Se eu recomendo? Olha... é excelente, porém te exige um bom conhecimento prévio da história da filosofia da linguagem, da história da linguística, conhecer Saussure, Chomsky, ter conhecido a obra de Bachelar e sua ruptura epistemológica, conhecer um pouco da recepção que Canguilhem faz de Bachelar e ter muito presente a obra filosófica de Louis Althusser (este é incontornável, caso os demais falte ao leitor). Em minha defesa (hahaha!), nenhum desses autores que acabei de citar fizeram parte da minha formação filosófica e talvez resida aí toda minha dificuldade. Caso você tenha trânsito nestes autores possivelmente não terá minha dificuldade, se não, melhor se inteirar pelo menos um pouco das ideias-chave desses autores (que basicamente foi o que tive de fazer nesse processo de leitura árdua).
Bom, não pretendi fazer um resumo, tampouco uma resenha, mas partilhar com possíveis leitores desta obra um testemunho das dificuldades que tive ao lê-lo e poder dizer "não desista se estas ideias te instigaram, pois vale o percurso".