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    Razão e Revolução - Hegel e o advento da teoria social

    Herbert Marcuse

    Paz e Terra
    2004
    384 páginas
    12h 48m
    ISBN-10: 8521907508
    Português Brasileiro
    4.2
    24 avaliações
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    Este é o primeiro livro em língua portuguesa em que Marcuse expõe sistematicamente todas as suas idéias a respeito das bases psicológicas e filosóficas do mundo moderno. É um livro que finalmente nos revela porque Marcuse começou a ser citado como o mentor ideológico dos violentos movimentos de reivindicações dos estudantes franceses e de norte americanos.

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    Lucio Antônio de Oliveira30/05/2021Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    O Papel de Hegel na Mentalidade Revolucionária Contemporânea

    INTRODUÇÃO Este é basicamente um livro sobre Hegel e o hegelianismo. Sendo mais específico, trata-se de um livro que busca demonstrar uma verdadeira herança hegeliana no marxismo e as distorções dessa herança nos hegelianismos alternativos - inglês e italiano -, sem deixar de passar pelas reações contrárias ao hegelianismo - incluindo, aí, o próprio arqui-inimigo da teoria crítica, o positivismo. Ao expor o hegelianismo, Marcuse pretende expor a essência da teoria crítica herdada por Marx e, posteriormente, pela própria escola de Frankfurt. Em outras palavras, o autor pretende demonstrar como a Razão e a filosofia leva à um espírito revolucionário. A primeira parte do livro - sua maior parte - visa expor cronologicamente o desenvolvimento filosófico de Hegel, passando de seus escritos de juventude até sua última fase como filósofo oficial da Prússia. Na segunda parte, o autor expõe alguns dos primeiros filósofos que reagiram a Hegel depois de sua morte - Kierkegaard e Feuerbach - para então se concentrar na exposição da recepção e modificações efetuadas por Marx. Ainda numa segunda seção desta segunda parte, o autor expõe a reação ao hegelianismo na França, com o advento do positivismo - com Saint-Simon, Sismondi e, finalmente, Comte -, e como ele viria a influenciar a própria reação contrária a Hegel na Alemanha - com Stahl e Stein. É nessa seção que o autor observa a questão da sociologia enquanto ciência especial se contradizer à dialética e ao marxismo. Na terceira e última parte, finalmente, o autor trata do fim do hegelianismo primeiro na recepção inglesa, mais fiel ao hegelianismo - nas pessoas de Green e Bosanquet, principalmente -, e finalmente a distorção cabal do fascismo italiano e do nazismo alemão. PRINCIPAIS TESES Há algumas teses fundamentais no livro, às quais buscaremos destacar brevemente. O cerne da concepção revolucionária, ou do espírito crítico, é desenvolvida na primeira parte, onde o autor trata da filosofia de Hegel. O fundamento de tal análise é a concepção dialética da realidade. Trata-se da tese de que as coisas têm potencialidades embargadas pelas circunstâncias em que se encontram, e que elas precisam libertar tais potências para a sua realização. Entretanto, somente o ser racional pode realizar tal libertação de forma consciente e ativa, pois só ele pode ter o conhecimento das potencialidades e o poder de autodeterminação. Assim, a razão leva à compreensão de que o que está ao nosso redor se encontra num estado de negatividade. A verdade sobre as coisas é aquilo que ela é livre dessas amarras ocasionais. Portanto, tudo que não alcançou tal estado é falso. O homem só se tornará livre quando puder alcançar uma condição em que seus poderes possam se manifestar ao seu bel prazer e sua vontade se concretizar e se realizar sem embargos. A dialética é a forma de pensar no ser por processo de realização pela negação de seu estado vigente e pela assimilação das negatividades para alcançar seu estado de elevação. Outro conceito importante em Hegel, que vale a pena destacar, é o de que Hegel teria identificado na sociedade baseada no livre comércio que ela produz inevitáveis antagonismos, pois o enriquecimento de uns implica no empobrecimento de outros. Além disso, nesse tipo de sociedade, as pessoas buscando somente seu interesse, não há qualquer busca real pelo interesse comum e a busca do bem de todos. É, então, que Hegel entende ser necessário um Estado forte que consiga corrigir tais antagonismos pelas ações afirmativas, dando a tal sociedade, finalmente, a liberdade e a racionalidade que encarnam a própria Razão. Por fim, destaca-se também a ontologia do trabalho em Hegel, que será absorvida por Marx. Em breves considerações, Hegel fala da realização do indivíduo na externação de si através da produção, que é o meio do indivíduo fazer do mundo o seu mundo - o que é essencial à assimilação do negativo para a evolução espiritual do indivíduo. Assim, o indivíduo só se realiza por meio da produção para si. Além disso, outros dois elementos são importantes para a integridade da pessoa humana em Hegel. Primeiro, a apropriação é o que torna o indivíduo verdadeiramente livre. É na posse reconhecida pelo outro que temos uma sociedade racional e livre. Sem reconhecimento não há posse real dentro da sociedade, e sem a sociedade sob a direção do Estado não pode haver a real racionalização. Há, inclusive, a necessidade de socialização para a manifestação da personalidade do indivíduo. Em segundo lugar, o Espírito se realiza sumamente nas próprias atividades culturais, i. e., na arte, religião e filosofia. É preciso, pois, que o indivíduo esteja envolvido nessas manifestações do Espírito para que se torne um ser racional e livre e, assim, realizado. Outros temas são abordados da filosofia de Hegel, como sua conceção da história pregressa na dialética para a realização da liberdade, as influências dos estágios anteriores, seu conceito sobre a monarquia, o estado de eticidade, sua relação com o idealismo alemão em geral e assim por diante. Curiosamente, suas concepções em torno da filosofia da religião e sua estética não são trabalhadas a contento - antes, são ligeiramente mencionadas. Mas para os propósitos do autor, valem os destaques que fizemos. Fato é que Marx assumirira o conceito de dialética como essencial à sua filosofia, bem como a questão da realização pelo trabalho tal como ensinado por Hegel. De Hegel, Marx também assume que o sistema capitalista produz inerentemente suas contradições, mas Marx rejeita a conclusão acrítica de Hegel de que o Estado produziria a harmonia dos interesses e o bem comum. Esses elementos fundamentam sua filosofia. Mas Marx acrescenta novos elementos. Temos, então, a exposição da mais-valia como elemento fundamental da análise dialética de Marx. A partir daí, Marx propõe que a revolução deve ser operada em prol da negação absoluta dessa sociedade. E somente o proletário é a negação absoluta do sistema, pois ele não possui propriedades e nem tempo para se dedicar às atividades do espírito. Está vivendo dentro da sociedade mas fora de todo alcance da razão e da liberdade. E o proletário surge como efeito colateral necessário do modo de produção, que também divide os homens em classes. A classe dos proletários é o ‘outsider’ que pode levar à abolição do trabalho enquanto produtor de mercadorias - fenômeno que produz a alienação e a exploração. Expõe-se também a concepção de Marx de que o sistema promove um progressivo aumento na exploração e concentração de renda até que a negatividade se tornasse tão volumosa em número de pessoas e aguda em termo de opressão que eclodisse a revolução. As condições materiais disponíveis para a racionalização da sociedade é outra herança hegeliana e que Marx assumia como condição para a transição para a sociedade livre, a sociedade comunista. Em oposição a tudo isso, temos as filosofias que negam o poder da razão de antecipar dialeticamente o que deveria ser o mundo. Temos as filosofias positivistas, conformistas à situação vigente e resistentes às mudanças revolucionárias. Elas sustentam uma devoção aos fatos e acusam as filosofias revolucionárias de justamente ignorá-los. São filosofias anti-racionalistas, portanto, e normalmente cientificistas - com exceção talvez apenas em Schelling e Stahl. Essencialmente, fascismo e nazismo também eram contra-revolucionários, negando, segundo o autor, um ‘dever-ser’ ditado pela razão e afirmando, respectivamente, a soberania dos atos e dos fatos - e o fato do nazismo era a raça. CRÍTICA Temos, enquanto liberal-conservadores, mais críticas do que anuências. Mas, por questão de etiqueta, destacaremos primeiro os pontos de concordância para podermos nos deter mais demoradamente nas críticas. Aqui, concordamos com pontos muito semelhantes aos que surgiram na leitura de Horkheimer. Repudiamos o conformismo como filosofia adequada diante do mal que se nos apresenta perante nossa face. Acontece que uma filosofia conservadora não é conformista de maneira alguma. Conquanto haja uma certa resignação diante do que se vê que não pode ser mudado ou que demanda paciência para ser alterado, não há subserviência ao que pode e deve ser mudado. A impressão de conformismo e submissão por parte dos progressistas se dá por conta de haver concepções distintas do que deve ou não deve ser alterado - principalmente a questão do modo de trabalho e do problema da desigualdade, como mostraremos a seguir. Marcuse e Horkheimer são felizes em suas críticas ao positivismo. Igualmente há uma interessante crítica ao nazismo e fascismo - e ao totalitarismo, de modo geral. Ninguém que se preze aprecia essas coisas. Evidentemente também repudiamos a exploração das pessoas - embora não concordemos que muitas das coisas consideradas como tal pelos progressistas em geral o são de fato assim. Os equívocos que notamos no livro são os mesmos essenciais às filosofias progressistas em geral. Primeiro, a mentalidade revolucionária tende a cometer o equívoco que Scruton denomina de a ‘falácia da melhor hipótese’, i. e., ignora-se as possíveis consequências, ainda piores do que a situação que se quer superar, caso as coisas não corram como o esperado. É, como Burke e Dalrymple classificariam, a política da imprudência. A grande questão a ser feita aos revolucionários é: e se a sua concepção sobre as potencialidades humanas e o que o mundo deve ser forem inexequíveis ou equivocadas em termos de conceber todas as suas consequências? Como não considerar esse perigo? Outra falácia comum é a falácia da soma zero. Nesse caso, em específico, está especialmente vinculado à teoria de valor de Marx, mas já existia em Hegel na suposição de que quando alguém se enriquecia havia alguém se empobrecendo ao mesmo tempo - ignorando o elemento da própria criação de riqueza, sem exploração. Na teoria do valor, as refutações de Böhm-Bawerk (e epígonos) nos parecem bastar para estabelecer o valor como subjetivo ao invés de baseado no tempo médio empregado de força de trabalho. Isso torna a concepção de exploração da parte de Marx como obsoleta. Assim, a ‘negatividade’ é uma impressão falsa, ou é mal compreendida. As próprias falhas nas previsões deveriam demonstrar que algo estava errado com aquela teoria, pois não houve, reconhecerá mais tarde o próprio autor, o empobrecimento progressivo de cada vez mais trabalhadores até ao nível de insuportável antagonismo - mas sua falta de cientificidade é justamente o que lhe permite ‘ad hoc’ que visam salvar a teoria. Aqui podemos ver ecoar a ‘Falácia Utópica’ que Scruton menciona. A questão sobre a origem das desigualdades vinculada à questão da desigualdade justa não é nem mesmo considerada pelo autor e os filósofos que ele expõe. Supõe-se simplesmente que desigual seja sempre ruim e injusta, não se considerando as próprias decisões dos indivíduos que as levam a tal situação, nem a questão do dilema liberdade-igualdade postulado por Tocqueville. Rejeitar tal dogma igualitarista é essencial à desconsideração de grande parte da argumentação aqui presente. Deve-se mencionar também a leitura paupérrima de Kierkegaard - e provavelmente de Feuerbach, embora não tenhamos condições plenas de afirmar isso sobre esse filósofo. O autor passa pelo filósofo dinamarquês de modo muito rápido, e talvez isso possa ser alegado para justificar tal apresentação tosca do seu pensamento. Tudo o que o autor queria era salientar a questão do individualismo para fugir aos antagonismos sociais. Mas o que apareceu foi uma caricatura de Kierkegaard, como pensador ingênuo propondo o cristianismo como solução sem qualquer fundamentação ou justificativa. Tanto o fascismo quanto o nazismo não nos parecem perfeitamente expostos, apesar da referência a Gentile, no trato do primeiro, e de filósofos importantes do nazismo, como Böhm, Krieck e Rosenberg. Este é o mínimo que esperamos de um trato honesto, a saber, a menção aos originais, aos textos dos idealizadores. Mas, por alguma razão, nem Mussolini nem Hitler são trabalhados em seus textos - e não se menciona que Hitler mesmo rejeitava a apresentação de Rosenberg como propaganda oficial do nazismo. Os documentos oficiais dos movimentos e suas ações políticas reais também não são consideradas, e há coisas nas práticas desses movimentos que curiosamente mereciam consideração, mas foram ignoradas. Talvez, por tentar salvar Hegel (e Marx) da responsabilidade desses movimentos, o autor acaba comprometendo sua exposição. Sua estratégia consiste basicamente em demonstrar alguns pontos de diferença e a declarada rejeição a Hegel. Mas, nesse sentido, poderíamos salientar diferenças entre Marx e Hegel e destacar as rejeições que Marx faz a Hegel para concluirmos que Hegel não tem nada que ver com Marx - o que é exatamente o contrário do que acontece, como competentemente mostra o autor. O Estatismo absoluto do fascismo e a rejeição ao Estatismo absoluto do nazismo são mencionados em termos de rejeição a Hegel. Mas são posições diametralmente opostas. Essencialmente, Marcuse destaca a rejeição ao racionalismo em ambos os movimentos, e uma certa adesão a uma certa forma de positivismo. Essa é uma diferença muito significativa. Mas há uma caricatura ao desconsiderar os discursos dos líderes e o espírito geral que movia os movimentos por não demonstrá-los como formas de se alcançar as mesmas promessas e esperanças de Marx e cia., a saber, uma sociedade igual, comunitária e uma revolução em prol de um novo mundo feliz. Os traços de mentalidade revolucionária são omitidos em favor de uma tentativa de encaixá-los como positivistas sem propósito. Ainda poderíamos mencionar alguns elementos mais rápidos em que acreditamos identificar equívocos em Marcuse, como em sua suposição de que o anti-racionalismo consiste em irracionalismo, ou suas concepções a respeito das influências cristãs na sociedade ocidental. Há, por fim, uma crítica que fazemos ao autor e ao segmento ao qual adere, mas que mistura anuências e discordâncias. Concordamos com os liberais no que diz respeito à harmonia dos interesses numa sociedade de mercado. Acreditamos que haja sim uma harmonia e, ao contrário do que diz Marx, acreditamos que somente essa organicidade do mercado, como observa Mises, permite se estabelecer as condições epistemológicas para o conhecimento econômico, para o cálculo econômico. Por outro lado, concordamos com os críticos ao liberalismo que se distingue do conservadorismo ao observar que a mera relação de interesses mercadológicos não são suficientes para produzir comunidade e outros bens sociais. É justamente aí que nos tornamos conservadores, distintos dos liberais, pois acreditamos que haja questões importantes no âmbito moral e cultural que devem ser observados em consonância com a abertura do mercado. Assim, parece que a crítica do autor erra ao subestimar a harmonia proposta pelo mercado, mas acerta em observar que não há uma plena harmonia. E peca principalmente em não considerar a alternativa conservadora - tristemente associada ao positivismo e ao reacionarismo. APARATO TEÓRICO Marcuse apresenta uma leitura impressionante das obras de Hegel, citando muitas obras desconhecidas para o não especialista, como seus escritos de juventude. Quase toda a obra de Hegel é citada, e certamente toda que é pertinente aos temas tratados. Além de Hegel, evidentemente, também se menciona Marx com bastante propriedade. O autor impressiona também pela vasta bibliografia e erudição ao trabalhar textos dos demais autores citados (Kierkegaard, Feuerbach, Saint-Simon, Bazard, Sismondi, Comte, Stahl, Stein, Green, Hobhouse, Bosanquet, dentre outros!), com menção especial ao trato do fascismo e nazismo fazendo referência a expoentes proeminentes dos movimentos na própria época (respectivamente, primeiro especialmente Gentile, no fascismo, e, segundo, Rosenberg, Böhm, Krieck e Schmitt). Referências esporádicas e de passagem a outros autores são feitas, mas sem abordar algum aspecto de seus pensamentos. RECOMENDAÇÃO O livro, enquanto exposição de Hegel e do hegelianismo, serve como excelente história da filosofia contemporânea, principalmente no que diz respeito a este recorte. Há uma exposição volumosa do pensamento de Hegel digna de atenção de todo estudante do idealismo. Entretanto, o livro não dará maior atenção à epistemologia, metafísica e estética do filósofo. Não obstante, ainda é de grande valor para o conhecimento de seu pensamento. O livro também expõe com algum rigor teses fundamentais do pensamento marxista. Portanto, como uma introdução ao marxismo ou à teoria crítica, de um modo geral, trata-se de uma obra certamente útil. Entretanto, não há uma linguagem tão didática. Na verdade, quem não conhece nada, em absoluto, da terminologia do idealismo - principalmente hegeliano - encontrará sérias dificuldades em ler este livro. E são principalmente os estudantes de filosofia política, filosofia da história e ciências sociais que apreciarão melhor a obra.

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    Herbert Marcuse

    Influente sociólogo e filósofo alemão naturalizado norte-americano, pertencente à Escola de Frankfurt, preocupava-se com o desenvolvimento descontrolado da tecnologia e o racionalismo como movimentos repressivos das liberdades individuais.

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    Herbert Marcuse